segunda-feira, setembro 08, 2008

Crônica de um ônibus que Vôa (Parte 2 - Final)

A aeronave levantava vôo, a babá de branco dobrava o joelho direito para compensar a inevitável força da gravidade que empurrava seu corpo para o fundo da aeronave e, naquele momento, rasgando todos os manuais de atendimento ao cliente, a comissária, quase aos gritos, mandou a babá retornar ao seu assento. Incrivelmente, quando estava prestes a se sentar novamente, a babá deu meia volta, foi em direção à comissária e perguntou sorrindo: mas depois você esquenta a água, né?!

Deu para ver as veias dos olhos da comissária encharcadas de sangue pulando em direção à babá!

Então o senhor da mochila da CVC pensou alto: hiiii... esqueci meus comprimidos. Simultaneamente, eu, sua esposa e a comissária gritamos: Depois você pega!!!!

Um pouco sem graça com meu destempero, enfiei minha cara no livro que estava lendo: “Uma Breve História do Mundo”. Seu autor descreve, entre outras coisas, os avanços da humanidade em milhares de anos de história. Descrente, adoraria vê-lo sentado em meu lugar observando aquela bagunça. Duvido que falaria em desenvolvimento humano!

O avião atinge sua velocidade de cruzeiro, as luzes se acendem, a babá volta a pedir água quente, o senhor da CVC levanta-se para buscar seus comprimidos e as pessoas todas já circulam, só de meias (claro!) pela aeronave. A vida voltou ao normal.

Tento dormir. Há um ruído estranho à minha frente. Ele se repete com freqüência, mas meu sono não me deixa localizá-lo. Meus olhos lutam, cheios de areia, meu sono é insaciável e meu auto-controle diminui. Não posso dormir, nem ficar desperto. Os ruídos são intermitentes. Então aproveito a presença da comissária e peço um café. Prontamente atendido, consigo finalmente localizar a origem do barulho que não me deixava dormir: a porta do banheiro! Sim, a porta do banheiro fora freneticamente testada durante os primeiros minutos de vôo. Reparei que todos queriam entrar no cubículo.

Abro uma nova fonte de observação. Como o movimento era intenso naquela área, fecho os olhos e começo a contar quantas vezes a porta foi aberta, fechada e travada. Calculei que em um espaço de 30 minutos o dispositivo do trancamento da porta foi acionado 23 vezes. Multiplico esta quantidade por dois (são dois banheiros), depois pelas horas de vôo, divido pelo número de passageiros e chego a conclusão que, mantido o ritmo inicial, cada pessoa teria que ir 2,9 vezes ao banheiro até o final da viagem. Descontando as crianças a bordo que usavam fraldas e a vovó perdida que provavelmente também vestia o mesmo aparato, porém na versão geriátrica, cheguei à estarrecedora conclusão de que cada passageiro iria ao menos 3 vezes ao banheiro ao longo do percurso. Então me perguntei: que diabos colocaram na porcaria da refeição a bordo???

Mas o problema não é a comida, mas sim esse “faniquito” descontrolado que brasileiro tem em se mexer. Qual é a dificuldade de se manter sentado? Qual o problema em permanecer tranquilo, lendo um livro, apreciando uma bebida e calçado? Mas não! Tem que correr no corredor, contar piadas em alto e bom som, fazer guerra de bolinha de meia e reclamar que o país está uma bagunça!

Em meio a toda essa balbúrdia o pai da família aristocrática encontra-se em frente ao banheiro com seu colega, o patriarca da família da vovó. Este reclama que tem que pagar propina ao governo para fazer suas obras. Ele é engenheiro, mas não teme em construir uma imagem ruim de sua empresa publicamente. Coincidentemente o outro também é engenheiro e assim ambos constroem um diálogo pouco concreto e em blocos, sendo que cada empreendimento intelectual de um, acaba sendo incorporado pelo outro, ainda que a metragem dos raciocínios seja mínima.

Nessa linha, o aristocrata solta a seguinte tese: o problema da queda da Bolsa de Valores de São Paulo é esse monte (sic) de taxistas que agora compram ações! Esperem! Silêncio Total! Vocês leram isso?! O problema da queda da bolsa é dos taxistas! Gênio! Grandioso! Sublime! Jamais teria pensado em uma construção intelectual tão precisa, tão bem amalgamada com um raciocínio concreto de primeira linha e fundição baseada na melhor matéria prima! Estava lá a resposta para minhas indagações! Consigo até ver a Fátima Bernardes, fazendo cara de preocupada enquanto lê no prompt: “O Banco Central anunciou medidas para conter a entrada dos taxistas na Bolsa de Valores. A partir da próxima semana a categoria poderá estacionar seus veículos no máximo a 300 metros da entrada da porta principal. Estão proibidos também de operar na Bolsa e comprar ou vender ações de quaisquer tipos. Com esta medida o governo acredita que a economia brasileira irá suportar a saída de investimentos e, ao mesmo tempo garantir a estabilidade dos mercados mundiais.” Aí vem o comentarista: “É verdade, após sofrer fortes quedas, a Bovespa pretende impedir a patuléia da classe média de investir em ações. Tudo começou com os taxistas, mas os analistas já se preocupam com a chegada de outras categorias, como as de lojistas, profissionais liberais e aposentados. A consultora financeira “Gold Money Wealth” fez uma interessante pesquisa em que dizia que pobre e classe média tem mesmo é que pagar impostos, comprar geladeira nas Casas Bahia, comer Maçã do Amor no Parque da Mônica e deixar os investimentos da Bolsa de Valores para os ricos”. É o fim do mundo.

Neste momento, o piloto anunciou que iniciara os preparativos para o pouso. A viagem chega ao fim com um efusivo aplauso dos passageiros. Tudo parece novamente tranqüilo e normal. A família aristocrática se arrumou no banheiro e saiu toda perfumada. O senhor da mochila da CVC perdeu os óculos dentro do avião.

Finalmente saio da aeronave, mas minha mala demora para chegar. Todos se vão. Menos eu. Olho em volta e por um vidro do saguão vejo um fio de luz da manhã irrompendo pela madrugada. Finalmente minha mala azul chegou. Retiro-a da esteira lentamente. Vou em direção à saída, mas algo me chama a atenção. Olho para trás e lá estão elas.

A vovó, provavelmente esquecida por sua família, toma leite em uma mamadeira amparada pela babá de branco. As duas estão descalças rodando em cima da esteira de bagagens de número 4.

Lá fora pego um táxi e puxo conversa com o motorista. Tento falar sobre futebol, mas ele só quer conversar sobre a Bolsa de Valores.

sexta-feira, julho 04, 2008

Pausa...

Darei uma pequena pausa para este cansado blog.
Farei uma viagem.
Sozinho.
Para pensar na vida.
Me hospedarei em um hotel de militares equatorianos. Depois visitarei um campo de exploração de petróleo deste mesmo país, na selva amazônica, em uma área onde pode estar escondido um naco das FARC (e espero sinceramente que eles não me levem a mal por detestá-los!).
Ficarei uns dias em uma tribo indígena.
Depois vou para a Colômbia. Pousarei em Bogotá, mas acho que ficarei por lá, procurando a
Shakira em algum bar e cantando:
"Estoy aquí queriéndote,
Ahogándome entre fotos y cuadernos
Entre cosas y recuerdos
Que no puedo comprender
Estoy enloqueciéndome
Cambiándome un pie por la cara mía
Esta noche por el día
Que nada le puedo yo hacer."

É isso.

Se achar que possa ser interessante eu envio umas fotos e uns relatos.

Um forte abraço a todos!

quinta-feira, julho 03, 2008

Prestem Atenção: Tem muito babaca triste pela derrota das FARC

Não há a menor dúvida de que a espetacular operação militar liderada pelo governo Colombiano e apoiada sabe-se lá por quais outros governos (certamente entre eles o norte americano) deixou muita gente triste. Nesta lista aparecem figuras como Marco Aurélio Garcia (uma das desgraças nacionais), Fidel Castro, Rafael Correa, Hugo Chaves, intelectuais de esquerda e tantos outros babacas espalhados pelo mundo. Que tristeza ter que suportar a emoção de uma mãe sequestrada e enclausurada durante quase 7 anos abraçando seus filhos. Que lástima enfrentar a dura realidade de ter menos 15 prisioneiros nas mãos dos narcoguerrilheiros, apesar de ainda existirem mais de 600. Que deplorável pensar que o Terror das FARC se enfraqueceu ainda mais. Deve causar bastante dor imaginar que o sonho da "igualdade", "democracia" e "justiça social" buscado pelos combatentes armados, com financiamento da cocaína e dos petrodólares de Chaves, tenha levado um de seus piores golpes dos últimos tempos.
Eu lhes dou razão! É lamentável ter que defender suas idéias em eleições democráticas. É chato ter que discutir diferentes pontos de vista políticos em um plenário cheio de parlamentares eleitos pelo voto popular. É enfadonho seguir essas regras chatas que a burquesia criou para eleger os representantes dos cidadãos. Melhor mesmo é seqüestrar, ameaçar, explodir bombas, explorar as mazelas humanas e executar com um tiro na cabeça esses homens e mulheres que defendem esse absurdo de democracia e esse mercado cruel. Pois é... o mercado é cruel, mas as FARC não! As Farc são revolucionárias, destemidas, corajosas! Enfrentam com galhardia todo um sistema capitalista impiedoso e o mais importante é que não estão sozinhas nesta luta! Trata-se de uma corrente mundial formada pelos bacanas que fumam maconha enquanto discutem o problema da violência, pelos motoristas que colam o adesivo de Che em seus carros, que sequer existiriam se Che tivesse vencido. Pela turma das universidades públicas, cujas mulheres passam a semana vestidas de saionas coloridas e alternativas, discutindo os malefícios do sistema capitalista, mas que gostam de passear aos finais de semana no Shopping Iguatemi para relaxar e preparar o corpo e a mente para o retorno à luta na segunda-feira.
Neste mundo não existem santos e ingênuos. Não existe a luta do "bem" contra o "mal". Afinal, quem é do bem e quem é do mal? As FARC são o que são: uma organização criminosa que utiliza os sequestros e o tráfico para financiar seu projeto revolucionário em busca de uma "sociedade justa". Neste caso, como em tantos outros, é só uma questão de escolha. Pois entre a ação das FARC e as mentiras de Bush eu escolho não ficar com ninguém. Mas entre a "democracia capitalista" e a "democracia comunista" (será que isso existe?) eu prefiro a primeira opção, sem dúvida! Entre o debate dentro de regras estabelecidas com liberdade de imprensa e a chantagem criminosa que fizeram com Ingrid Betancourt eu escolho a primeira opção.

quarta-feira, junho 25, 2008

Ruth Cardoso lançou sementes do Bolsa Família, diz acadêmico

Fonte: BBC
25/06/2008 - 09h26

"Para o professor e cientista político Anthony Hall, da London School of Economics (LSE, Escola de Economia de Londres), a contribuição da ex-primeira dama e antropóloga Ruth Cardoso, falecida na terça-feira em São Paulo, ajudou a mudar os rumos da política social no Brasil.

"Ela foi uma peça fundamental na idéia de unir os vários programas sociais e de transferência de renda dos anos 90 em um único programa", disse Hall em entrevista à BBC Brasil.

O acadêmico explica que vários programas locais de combate à pobreza se espalharam pelo país na década de 90, especialmente no nível municipal, em cidades como Campinas, Belo Horizonte, Blumenau, Vitória e outras localidades.

Ele acredita que essas iniciativas teriam culminado com a criação do Bolsa Escola, em Brasília e, mais tarde, na adoção do Bolsa Família como um programa nacional do governo brasileiro.

Segundo ele, Ruth Cardoso teria sido quem impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país e teria sido ela quem persuadiu o então presidente Fernando Henrique a adotar esse sistema unificado em nível nacional.

"Muitas pessoas acreditam que ela foi de fato a primeira pessoa que pensou na idéia do Bolsa Família, apesar de o programa não ter esse nome na época. Mas essa idéia de unificar os programas, criar uma economia mais equilibrada e eficiente, foi exatamente o que Lula fez quando assumiu o governo em 2003", disse.

Para Hall, por essas razões é possível afirmar que Ruth Cardoso foi uma das pessoas mais influentes para a mudança de direção nas políticas sociais do Brasil a partir da década de 90.

Ruth Cardoso era doutora em antropologia pela USP, fez pós-doutorado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos e foi professora em faculdades americanas e inglesas.

Figura pública
O acadêmico afirmou ainda que a figura pública de Ruth Cardoso como primeira-dama durante o governo de Fernando Henrique é inseparável de sua imagem como acadêmica e intelectual.

"Ela foi uma primeira-dama eficiente justamente porque ela era uma acadêmica muito respeitada e podia falar com autoridade. E quando ela falava, as pessoas ouviam", afirmou o professor.

Já para o professor e ex-diretor do Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, David Lehmann, Ruth Cardoso não era uma mulher de político nos padrões convencionais.

"Como figura pública, ela era muito independente do marido", afirmou Lehmann à BBC Brasil.

De acordo com Anthony Hall, Ruth teria transformado o papel de primeira-dama no Brasil, já que, ao contrário de esposas de presidentes anteriores e, inclusive da mulher do presidente Lula, Marisa, ela teria sido uma figura pública importante e não teria ficado apenas nos bastidores.

"O apelo carismático de Ruth Cardoso entre a classe média e a camada mais pobre da população se deve justamente à sua preocupação pela questão social", disse Hall."

Ruth: altivez decorosa

Fonte: Portal Veja.
Blog do Reinaldo Azevedo.
25/06/08, 06:07h

"Morre uma parte da civilidade, da inteligência, do rigor intelectual, da discrição, da altivez decorosa. Ruth Cardoso foi uma das melhores pessoas que conheci — escrevo isso como jornalista, não como amigo ou pessoa que privasse da intimidade do casal Cardoso, o que nunca aconteceu. Em junho de 1997, há exatos 11 anos, a revista República dedicou-lhe uma capa: era uma entrevista que eu havia feito com ela.

Foi um encontro agradável, ameno, sereno. Seu marido, o então presidente Fernando Henrique, ela própria e o Comunidade Solidária, programa que presidia e ao qual continuou a dedicar boa parte de seu tempo mesmo depois que FHC deixou o poder (aí com o nome de Comunitas), eram alvos dos ataques da esquerda petista os mais boçais. Tentei arrancar dela uma palavra mais dura contra os detratores. Nada! Imperturbável, serena, expressava a convicção de que o presidente estava criando as bases para tirar o país do atoleiro do Terceiro Mundo e do terceiro-mundismo e defendia com energia o aspecto não-assistencialista do Comunidade Solidária. E estava certa nos dois casos. Ruth sabia ser dura sem ser estridente.

Nada a irritava mais — e ela se encarregou de proibir tal tratamento — do que ser chamada de “primeira-dama”. Por que não? Ela me explicou: “Porque é uma tradução muito literal, imediata, do termo em inglês, que tem história. Não passaria pela cabeça de ninguém, nos EUA, dizer que não gosta da expressão first lady. Aqui no Brasil, dama não é um termo que se use...” E foi adiante, explicando que a expressão, em nosso país, designava um outro tipo de mulher. Segundo Ruth, a mulher de presidentes e chefes de governo, na modernidade, “são profissionais, pessoas que têm independência intelectual e pessoal”.

Pois é...

Ela tinha, sim, tal independência intelectual e pessoal, como sabem todos aqueles que privaram da intimidade do casal Cardoso: diante do presidente, do marido, do PSDB... Não era do tipo que condescendesse com o interlocutor para ser agradável. De uma educação sempre exemplar, sabia discordar e dizer “não”, quando necessário, sem ambigüidades.

Não faz três meses, os tontons-maCUTs que tomaram a política de assalto tentaram enredá-la numa acusação de uso irregular do dinheiro público. Quando ficou claro que o governo havia feito um dossiê para tentar jogar na lama o seu nome e o do marido, tanto ela como FHC pediram que se desse plena publicidade aos gastos. Dilma Rousseff, de quem se fala bastante abaixo, ligou para a sua casa para negar, vejam só, a existência do dossiê. E, no entanto, ele existia.

Era, em suma, a voz do avesso do que Ruth sempre foi: transparente, austera, de caráter reto, hostil a chicanas, sem jamais precisar desdizer no dia seguinte o que dissera no anterior. Ao telefone, Dilma tentou tranqüilizá-la à sua maneira: que Ruth ficasse tranqüila: os gastos continuariam sob sigilo. A interlocutora da ministra era gente de outra cepa. E ficou foi bastante intranqüila com tão generosa promessa: afirmou à ministra que ela, Ruth, fazia questão de que tudo fosse divulgado. Porque nada havia a esconder. A mulher de FHC, em suma, não tinha segredos a serem guardados por Dilma Rousseff.

Ruth tinha dois stents no coração. Era uma paciente cardíaca, o que pouca gente sabia porque ela jamais permitiu qualquer zona de ambigüidade entre a vida privada e a sua atuação pública. Ainda que fosse desprovida de todas as outras óbvias qualidades, tinha uma que faz uma falta imensa ao país: decoro. É isto: Ruth morreu, e o país ficou menos decoroso."

sábado, junho 21, 2008

No Brasil o Amanhã é Hoje

Como não tenho tido tempo de escrever, ao menos consigo ler coisas interessantes. Para quem lê em espanhol, publico abaixo um texto do jornalista Michael Reid, editor da Seção As Américas, do jornal The Economist. Normalmente os articulistas escrevem bobagens sobre o Brasil sempre cheias de preconceitos e idéias prontas, normalmente desconectadas de nossa realidade, experiência histórica, cultura e costumes. Dessa vez, no entanto, achei interessante esta análise político-econômica sobre como alguem que parece bem qualificado enxerga o país. Este exercício é interessante, pois serve, entre outras coisas, para um exercício de auto-crítica. O texto é em espanhol, traduzido por Jesús Cuéllar Menezo.
Quem preferir ler em inglês, basta acessar: http://www.economist.com/specialreports/la

Segue o texto em espanhol.

"Hace un par de meses, cuando Luiz Inácio Lula da Silva habló ante una Economist Conference reunida en Brasilia, estaba exultante. Durante más de una hora ofreció a una audiencia compuesta de hombres de negocios chistes y un verbo florido para transmitir un sencillo mensaje. Dijo que su fórmula política consistía en ser "conservador en economía" y "audaz en política social".

Es una fórmula que está dando sus frutos. Después de haberse librado de los escándalos de corrupción que afectaron a su Partido de los Trabajadores (PT) y que estuvieron a punto de costarle la reelección, Lula no sólo cabalga a lomos de la popularidad, sino que Brasil está comenzando a ser tomado en serio como nueva potencia económica y política. Cuando en 2003 los economistas del grupo Goldman Sachs juntaron a Brasil con Rusia, la India y China (el grupo "BRIC"), señalando que estos países dominarían la economía mundial alrededor de 2030, muchos rezongaron, apuntando que la aletargada economía brasileña no podía estar en ese club.

Sin embargo, su crecimiento alcanzó un respetable 5,5% el año pasado, su divisa y sus cuentas públicas se han fortalecido y la inversión exterior alcanza niveles sin precedentes. Dos organismos dedicados a la evaluación de riesgos crediticios concedieron hace poco un "grado inversión" a la deuda garantizada por el Estado brasileño. A diferencia de China y Rusia, Brasil cuenta con una democracia boyante, aunque caótica, mientras que su renta per cápita es siete veces mayor que la de la India. En la actualidad, muchos extranjeros ven en el país al líder de América Latina, que merecería estar presente en el Consejo de Seguridad de la ONU y en el G-8.

Hace tiempo que el potencial de Brasil está claro, pero el país rinde sistemáticamente por debajo de sus posibilidades. Se dice que Charles de Gaulle, después de una visita celebrada en 1960, declaró que había llegado a la conclusión de que Brasil "no era un país serio". O milagre brasileiro, el cuarto de siglo durante el cual Brasil creció al ritmo de China, principalmente con gobiernos militares, terminó con la crisis de la deuda de 1982. A continuación, Brasil perdió pie durante una década. En comparación con el resto de la región, su transición a la democracia se produjo con lentitud y a trompicones.
Sin embargo, a comienzos de la década de 1990 los gobiernos brasileños comenzaron a abrir su protegida economía, dominada por el Estado. El Plano Real de Fernando Henrique Cardoso domeñó finalmente la inflación, tras una épica batalla que precisó una profunda reforma de las cuentas públicas, difícil desde el punto de vista político.

Para sorpresa de algunos, Lula decidió partir de los éxitos de Cardoso. Ha concedido independencia completa al Banco Central do Brasil y, a pesar de las quejas del PT, no intervino cuando éste subió los tipos de interés para sofocar una escalada inflacionaria en 2003. Tampoco es probable que lo haga ahora, cuando el banco vuelve a subir los tipos para controlar una nueva arremetida de la inflación, originada por el incremento mundial de los precios de los alimentos y el combustible. El Gobierno se atiene a sus objetivos presupuestarios, reduciendo poco a poco la deuda pública.

Está claro que Brasil se beneficia enormemente del auge de los precios de las materias primas. Desde 2003, el alza del precio del hierro y de la soja ha ayudado a duplicar el valor total de sus exportaciones, pero gracias a la eliminación de las barreras arancelarias la industria brasileña se ha hecho mucho más competitiva. Las compañías del país se atreven a salir al extranjero. Embraer construye un avión en China, Vale se ha convertido en la segunda empresa minera del mundo y otras firmas brasileñas son líderes en el sector agroindustrial. Si en la actualidad China es el taller del mundo e India la oficina de su trastienda, Brasil es su granja.

También tiene posibilidades para ser una superpotencia energética. El etanol brasileño de caña de azúcar, a diferencia del subvencionado etanol de maíz producido en Estados Unidos, es eficiente en términos económicos y medioambientales. Brasil dispone de tierra más que suficiente para incrementar su producción tanto de etanol como de alimentos sin tocar la selva amazónica. Para colmo, Petrobras acaba de descubrir en las costas brasileñas enormes yacimientos de petróleo y de gas, aunque es cierto que se encuentran a gran profundidad.

La democracia ha reportado beneficios sociales y económicos. Aquí también Lula partió de las políticas sociales de Cardoso y amplió la Bolsa Família, gracias a la cual en la actualidad 11 millones de familias muy pobres reciben pequeñas subvenciones en metálico. Las cantidades se entregan a las madres, a condición de que se comprometan a que sus hijos vayan al colegio y se sometan a revisiones médicas. Gracias a un enorme incremento de los medios docentes todos los pequeños asisten a la escuela primaria, y ahora alrededor del 70%termina el ciclo de secundaria.

Estas iniciativas, unidas a una escasa inflación y a un rápido crecimiento, han reducido los índices de pobreza, que han pasado del 48% en 1990 al 33% en 2006. Hasta la distribución de la renta brasileña, tristemente famosa por su desigualdad, está mejorando. Según los cálculos de la asesoría McKinsey, entre 2000 y 2005 unos ocho millones de familias (alrededor de 40 millones de personas) se sumaron a las clases medias. La estabilidad económica conlleva que esa gente puede conseguir préstamos para comprarse una casa, un coche y otros productos de consumo duraderos, con frecuencia por primera vez.

Junto a todo este progreso, existen problemas muy arraigados. Entre ellos destacan los crímenes violentos, en algunos casos vinculados con el tráfico de drogas. El sistema judicial es lento e ineficiente. La normativa laboral que, basada en la Carta del Laboro mussoliniana, no se ha reformado desde que se implantó, constituye un elemento tremendamente disuasorio a la hora de contratar trabajadores, salvo en la burocracia federal, que Lula ha ampliado innecesariamente. La carga fiscal, que representa un 36% del PIB, es tan elevada como la de muchos países desarrollados, aunque los servicios públicos son mucho peores. Décadas de inversión estatal insuficiente significan que las infraestructuras, sobre todo los puertos y las carreteras, dejan bastante que desear. Por otra parte, la enseñanza básica es de mala calidad: según el Informe PISA, en las pruebas científicas los niños brasileños tuvieron resultados un 20% inferiores a los rusos.
Lo peor es que el sistema político dificulta la movilización de mayorías para impulsar cambios. En las elecciones de 2006 no menos de 21 partidos obtuvieron escaños en el Congreso Nacional. Durante la primera legislatura de Lula, el PT echó por tierra la promesa de hacer política de manera ética cuando sus líderes sobornaron a decenas de diputados para que les votaran. En ocasiones, Lula habla de reformas fiscales, políticas e incluso laborales, pero poco ha hecho por llevarlas a cabo. Para muchos economistas tendría que haber utilizado la bonanza generada por las materias primas para reducir con más decisión tanto la deuda pública como los impuestos.

La política exterior de Brasil también presenta claroscuros. El país se ha convertido en una gran potencia diplomática comercial, pero comparte con Estados Unidos y la UE el fracaso de la Ronda de Doha. Durante su primera legislatura, las políticas suramericanas de Lula fueron bastante ingenuas. A pesar de que Hugo Chávez le ganó la partida cuando acompañó a Evo Morales en su nacionalización de las operaciones de Petrobras en Bolivia, el Gobierno brasileño animó a Venezuela a unirse a Mercosur. En la segunda legislatura, Lula se ha mostrado más pragmático. Pero a muchos demócratas latinoamericanos les gustaría que Brasil apoyara con más decisión a la atribulada democracia colombiana.

El progreso de Brasil durante los últimos 15 años se ha basado en un paciente desarrollo de consensos democráticos y ésta es la razón por la que parece sostenible. El crecimiento brasileño, a diferencia del venezolano, se basa más en la inversión privada que en el gasto público. Al contrario que Argentina, Brasil no está permitiendo que la inflación ponga en peligro la estabilidad económica. Con sus múltiples defectos, en muchos sentidos, Brasil está comenzando a comportarse como un país serio.

Michael Reid es el editor de la sección de Las Américas de The Economist. Su libro El Continente olvidado: la lucha por el alma de América Latina será publicado en España por Editorial Belacqva. Traducción de Jesús Cuéllar Menezo.

terça-feira, junho 03, 2008

Barack Obama quer evitar racha entre democratas; ouça cientista político

Fonte: Folha de São Paulo

Barack Obama inaugurou uma nova frente de trabalho. A sua tentativa agora é de apaziguar os ânimos dentro de seu partido e selar algum tipo de pacto que possa evitar o racha definitivo entre os democratas, que entrarão combalidos, ainda que confiantes na disputa com John McCain.

As informações são do cientista político Luiz Renato Ribeiro Ferreira, professor das Faculdades Integradas Rio Branco, de São Paulo. Para saber mais e ouvir o Podcast, recorte e cole o link abaixo (não consegui incluir o link diretamente):
http://www1.folha.uol.com.br/folha/podcasts/ult10065u407948.shtml

Conheça também o especial da Folha sobre as eleições americanas:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/eleicoesnoseua/

sábado, maio 24, 2008

Jefferson Péres

Morreu nesta sexta-feira, por volta das 6 horas, em Manaus, o senador Jefferson Perez. Aos 76 anos o senador amazonense ainda lutava bravamente pela ética na política. Creio que a maioria de meus pequenos leitores não sabem nada sobre ele. Entendo que os dois discursos que postarei abaixo representam leitura obrigatória, principalmente para jovens descrentes na política. Ambos discursos, um de 2006 e o outro de 2008 (seu último discurso) são as melhores portas para adentrarmos o coração e a mente de um dos últimos políticos com espírito público do Brasil. Infelizmente, para quem ler seus discursos, a porta de entrada será a mesma da saída.

Discurso de Jefferson Péres (2006)

Pronunciamento do Sen. Jefferson Peres em 30.08.2006 no plenário do Senado Federal.

"Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, depois de uma longa ausência de algumas semanas, volto a esta Tribuna para manifestar o meu desalento com a vida pública deste País.

Gostaria de estar aqui discutindo, a respeito das riquezas naturais do Brasil, e não como falarei, sobre algo muito pior: a dilapidação do capital ético deste País.

Senador José Jorge, poderíamos não ter um barril de petróleo nem um metro cúbico de gás, mas poderíamos ser uma das potências mundiais em termos de desenvolvimento.

O Japão não tem nada. Não tem petróleo, gás ou riquezas minerais. A Coréia do Sul também não tem nada disso, e nos dá um banho em termos de desenvolvimento não apenas econômico, mas também humano.

O que está faltando mesmo a este País e sempre faltou é uma elite dirigente com compromisso com a coisa pública, capaz de fazer neste País o que precisaria ser feito: investimento em capital humano.

Vejam que País é este. Estamos aqui com seis Senadores em pleno mês de agosto, porque estamos em recesso branco. Por que não se reduz a campanha eleitoral a trinta dias e transfere-se o recesso de julho para setembro? Nós ficaríamos com o Congresso aberto, de Casa cheia, até 31 de agosto. Faríamos trinta dias de campanha em recesso oficial, remunerado.

Estamos aqui no faz-de-conta. Como disse o Ministro Marco Aurélio, este é o País do faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa sem trabalhar. Estou em Manaus há quase um mês, recebendo, sem fazer nada " para o Congresso Nacional, pelo menos. Como se ter animação em um País como este com um Presidente que, até poucos meses atrás, era sabidamente " como o é " um Presidente conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu neste País e este Presidente está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro turno? É desinformação da população? Não, não é. Se fizermos uma enquete em qualquer lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que o Presidente sabia de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A crise ética não é só da classe política, não. Parece que ela atinge grande parte da sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer que ele volte. Democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas inconformado. Esta será uma das eleições mais decepcionantes da minha vida. É a declaração pública, solene, histórica do povo brasileiro de que desvios éticos por parte de governantes não têm mais importância. Isso vem até da classe dos intelectuais, dos artistas. Que episódio deplorável aquele que aconteceu no Rio de Janeiro semana passada! Artistas, numa manifestação de solidariedade ao Presidente, com declarações cínicas, desavergonhadas! Um compositor dizer que "política é isso mesmo, fez o que deveria fazer", o outro dizer que "política é meter a mão na 'm...'"! Um artista, em qualquer país do mundo, é a consciência crítica de uma nação. Aqui é essa, é isso que é a classe artística brasileira, pelo menos uma grande parte dela, é o povo conivente com isso.

E pior, pior ainda: os artistas estão fazendo isso em interesse próprio, porque recebem de empresas públicas contratos milionários - isso é a putrefação moral deste País - , e o povo vai reconduzir o Presidente porque "política é isso mesmo".

Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Ele pode ser eleito com 99,9%. Eu estarei aí na tribuna dizendo que ele deveria ter sido mesmo destituído.

O que ele fez é muito grave. É muito grave. Curvo-me à vontade popular, mas não sem o sentimento de profunda indignação. A classe política já nem se fala, essa já apodreceu há muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o pior de que já participei. É a pior legislatura da qual já participei. Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível intelectual e moral tão baixo, eu nunca vi. O que se pode esperar disso aí? Não sei. Eu não vou mais perder o meu tempo. Vou continuar protestando sempre, cumprindo o meu dever. Não teria justificativa dizer que não vou fazer mais nada. Vou cumprir rigorosamente o meu dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá não quero mais voltar, não!

Um País que tem um Congresso desse, que tem uma classe política dessa, que tem um povo... dizem que político não deve falar mal do povo. Eu falo, eu falo. Parte da população que compactua com isso? É lamentável. E que sabe. Não é por desinformação, não. E que não é só o povão, não. É parte da elite, inclusive intelectual. Compactuam com isso é porque são iguais, se não piores. Vou continuar nessa vida pública? Para quê, para mim, chega!

Vou continuar pelejando pelos jornais e por todos os meios possíveis, mas, como ator na vida política e na vida pública deste País, depois de 2010, não quero mais! Elejam quem vocês quiserem! Podem chamar até o Fernandinho Beira-Mar e fazê-lo Presidente da República - ele não vai com o meu voto, mas, se quiserem, façam-no.

O meu desalento é profundo. Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso, perdendo ou não votos " pouco me importa". Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a quatro anos, profundamente desencantado com ela.
Muito obrigado, Sr. Presidente".

Discurso de Jefferson Péres (2008)

Este é o último discurso do Senador Jefferson Péres, antes de sua morte. Foi proferido na Tribuna do Senado Federal e seu objetivo era comentar uma matéria recentemente publicada pelo "The New York Times", sobre a Floresta Amazônica.

"Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, o correspondente no Rio de Janeiro do jornal The New York Times publicou uma matéria, ontem ou anteontem, com o título: “Amazônia, de quem é afinal?”

O texto insinua, levanta mais uma vez a tese da soberania relativa do Brasil sobre a região, que poderia no futuro ficar sob jurisdição internacional.
Normalmente eu não dou importância a essas manifestações, Sr. Presidente. Acho que muitos brasileiros sofrem de complexo de inferioridade e dão muita importância ao que é publicado nos jornais da Europa e dos Estados Unidos, uma atitude de quem ainda olha quase que com veneração os países mais desenvolvidos.

Pergunto-me se um membro do congresso americano subiria à tribuna para comentar matéria publicada em jornais do Brasil, seja O Globo seja a Folha de S.Paulo. Creio que não. Por que, então, eu subo à tribuna para comentar matéria do The New York Times? Porque vejo muitos brasileiros preocupados, mandando e-mails, pedindo uma resposta àquele jornal. Respondo por isto, apenas por isto, como satisfação a esses brasileiros, porque eu mesmo não dou maior importância ao que é publicado lá ou na Europa.

Por isso, creio que, longe de reagirmos enraivecidos ou mostrando medo de uma possível internacionalização da Amazônia, devemos replicar com bom humor, no mesmo tom, respondendo ao correspondente do jornal americano o que disse certa vez o Senador Cristovam Buarque numa universidade americana. Quando um universitário perguntou-lhe se a Amazônia, pela sua importância para o equilíbrio climático mundial, não deveria ser internacionalizada, o Senador Cristovam respondeu ao seu aparteante: “Eu até concordaria em debater a internacionalização da Amazônia se os Estados Unidos admitirem debater a internacionalização da Califórnia, por exemplo”.

A Califórnia é um Estado que está ameaçada por encontrar-se sobre a falha geológica de San Andreas e um dia pode sofrer um megaterremoto. Os Estados Unidos estarão cuidando bastante da Califórnia para evitar essa catástrofe? Quem sabe a ONU não poderia cuidar disso. Ou o Alasca? Esse Estado, em sua maior parte, está situado acima do Círculo Polar Ártico, onde se faz exploração de petróleo com risco de graves acidentes ambientais. Por que não se discutir a internacionalização do Alasca? A um francês se diria: “Paris é uma cidade importante demais para ficar apenas sob soberania francesa; uma cidade que, pela sua beleza, pelo seu patrimônio histórico e arquitetônico, deveria estar também sob jurisdição internacional.”

Assim poderíamos responder a todos, de qualquer país, nesse tom de deboche, Sr. Presidente, porque não se pode levar a sério a tese da internacionalização da Amazônia. Primeiro: por quem seria feita a internacionalização? Pela ONU? A Carta da ONU não dá poderes a essa organização para retirar território de nenhum país. Isso não encontra amparo jurídico. A ONU não pode fazer isso. Quem faria a internacionalização? Uma intervenção americana? Não seria internacionalização, seria uma invasão, seria um ato imperialista impensável, Senador Garibaldi Alves, e absolutamente impossível no contexto do mundo atual. O Brasil não é Iraque nem Afeganistão. O Brasil é um país com uma economia hoje pujante, com uma democracia consolidada, em pleno Ocidente, um país cada vez mais respeitado em todos os foros internacionais. Alguém imaginaria possível uma intervenção militar americana para retirar de nossa soberania a Amazônia? Isso é impensável, Senador Garibaldi Alves.

No entanto, essas manifestações com essa tese absurda, em defesa dessa tese absurda, nos devem levar a refletir sobre a nossa responsabilidade.
A Amazônia brasileira é nossa e continuará sendo sempre. Mas nós temos uma enorme responsabilidade sobre aquela região, da qual eu sou oriundo e que eu represento nesta Casa, Sr. Presidente.

Há três situações-limite que podem levar, sim, a comunidade internacional a ser muito cobradora do Brasil. A primeira situação-limite seria uma devastação florestal, um holocausto ecológico que chocaria o mundo inteiro.

A segunda situação-limite seria, como está acontecendo no Estado do Amazonas, um processo de pauperização que levará aquela população, fatalmente, se não houver um processo de desenvolvimento com eqüidade social, a ficar, logo, logo, refém do narcotráfico, situada ali na fronteira do Peru e da Colômbia, porque, à falta de meios de sobrevivência, será presa fácil das organizações criminosas que usam o Amazonas como rota de passagem. A terceira situação-limite seria nós realmente, com o nosso descaso habitual nas áreas de educação e pesquisa, sentarmos em cima da mais rica biodiversidade do Planeta, não pesquisarmos, e não deixarmos que pesquisem.

O Brasil, por ter soberania sobre a Amazônia, não tem o direito de não procurar investigar, pesquisar e aproveitar, em benefício da humanidade, toda a riqueza do bioma amazônico.
Se não fizermos isso, se não deixarmos que outros pesquisem, estaremos sendo irresponsáveis também.
Portanto, Sr. Presidente, é isso que pode acontecer de ruim para nossa região.

Quanto à proposta de internacionalização, Senador João Pedro, é sair para o deboche mesmo. Quando os americanos quiserem internacionalizar, vamos internacionalizar a Califórnia, a França; vamos internacionalizar Paris.
Concedo-lhe o aparte, Senador João Pedro.

O Sr. João Pedro (Bloco/PT – AM) – Senador Jefferson Péres, V. Exª faz uma reflexão sobre a Amazônia e sobre a importância do debate internacional. Venho dizendo que nós, do Brasil, precisamos cobiçar mais essa grande região, que é estratégica. Concordo com V. Exª: politicamente, não há hoje condições de haver uma intervenção territorial, internacional, de qualquer país. Politicamente, não há. Agora me preocupa – e por isso falo que precisamos cobiçar mais a Amazônia – a falta de investimento nas pesquisas. O nosso Inpa, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, precisa ter um orçamento mais robusto – e melhorou este ano! –, precisa de mais atenção, precisa cumprir uma função mais estratégica. Estou falando não só do Inpa, na Amazônia, mas das nossas universidades federais. A presença das Forças Armadas também faz parte desse contexto no sentido de ocupar a Amazônia, mas dando uma função social e estratégica para essa região. Outra questão que venho levantando é o fortalecimento da OTCA, organização que também é importante não só para o Brasil, mas para juntar todos os países que compõem a nossa Amazônia. Militarmente, politicamente, não há conjuntura para isso. Agora, há outra forma de ir ferindo, maculando a nossa Amazônia: a pirataria. Daí a importância de as nossas instituições de vigilância ali terem mais recursos; precisamos ampliá-las. O Sivam/Sipam foi uma conquista para a Amazônia. Há avanços importantes, mas precisamos ter mais recursos, mais planejamento, principalmente o planejamento entre os nossos Ministérios; uma ação mais coordenada com foco sobre os interesses da Amazônia. A Amazônia continua estratégica, é importante para o povo brasileiro, para os países amazônicos e para o mundo. Agora, ela é nossa! E concordo com as observações de V. Exª sobre essa coisa de ser patrimônio da humanidade. Ela é patrimônio brasileiro e pode servir, sim, à humanidade, com mais pesquisa, com mais conhecimento. Então, parabenizo V. Exª pela reflexão que faz sobre esse território tão bonito, tão importante, tão presente para o Brasil.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT – AM) – Obrigado, Senador João Pedro. V. Exª tem razão nos três pontos que focalizou em seu aparte.
Em primeiro lugar, o Brasil precisa investir maciçamente em pesquisa. Agora mesmo recebi expediente do Ministro da Ciência e Tecnologia sobre o aumento de dotações para o nosso Inpa. Nós, a bancada, já temos uma reunião agendada com ele para pedir que o Inpa seja ainda mais prestigiado pelo Governo Federal. Não só o Inpa, mas os centros de biotecnologia, por exemplo, e as universidades federais.

O segundo ponto a que V. Exª se referiu é a presença maior e no sentido social das Forças Armadas.

Senador João Pedro, creio que – e já disse isso ao Ministro da Defesa, Nelson Jobim – os efetivos, principalmente do Exército, entre as três Armas, deveriam ser multiplicados na região, não apenas para a defesa do arco de fronteira, mas para se transformarem em agentes comunitários a percorrerem todos os beiradões, levando assistência às populações ribeirinhas.

Em terceiro lugar, a OTCA, Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, criada há 30 anos. Temos uma secretaria executiva aqui, em Brasília, Senador João Pedro, e a OTCA não sai do papel. Como se fala tanto em integração da América do Sul, tanto em desenvolvimento da Amazônia, e não se dá uma ação efetiva para fazer a integração, realmente, Senador Garibaldi Alves, da chamada Panamazônia?

Meus compatrícios, deixem de se assustar tanto com a suposta internacionalização da Amazônia. Isso não vai acontecer. Agora, por favor, acionem as autoridades brasileiras para cuidarem melhor da região. Não tenho tanto medo da cobiça internacional sobre a Amazônia. Tenho medo da cobiça nacional sobre a Amazônia, da ação de madeireiros, de pecuaristas e de outros que podem provocar, repito, o holocausto ecológico naquela região".

quarta-feira, maio 14, 2008

Crise dos Alimentos (Parte 3)

Alemanha


Família Melander de Bargteheide.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 500.07 (dólares americanos).

USA




Família Revis da Carolina do Norte
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 341,98 (dólares americanos).

ITÁLIA




Família Manzo da Sicília
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 260.11 (dólares americanos)

MÉXICO





Família Casales, de Cuernavaca.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 189.09 (dólares americanos).

POLÔNIA





Família Sobczynscy, de Konstancin-Jeziorna
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 151.27 (dólares americanos)

EGITO



Família Ahmed, do Cairo.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 68.53 (dólares americanos)

EQUADOR




Família Ayme, de Tingo.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$31.55 (dólares americanos)

BUTÃO




Família Namgay, da vila de Shingkhey.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 5,03 (dólares americanos).

CHADE





Família Aboubakar, do campo de refugiados de Breidjing.
Despesa com alimentação por semana: US$ 1,23 (dólares americanos).

domingo, maio 04, 2008

Crise dos Alimentos (Parte1)

Já vou avisando: os textos serão longos.
A culpa pela falta de alimentos não é da Cana! É da incompetência e da hipocrisia generalizadas! Os preguiçosos podem parar por aqui, mas quem quiser realmente saber quais as bases que usarei para defender a frase anterior (em negrito), terá que ler a seqüência com os próximos três posts sobre o assunto.

Crise dos Alimentos (Parte 2)

Antes de debruçar-me sobre dados, pesquisas e números, farei uma ressalva utilizando como base uma teoria da Ciência Política chamada "Teoria da Escolha Pública". O que está acontecendo com a crise dos alimentos pode ser muito bem explicado com o uso dessa teoria, a qual demonstra como os grupos de interesse, cada qual defendendo suas demandas, podem, simultaneamente, perder todas as suas batalhas.

A crise dos alimentos é um exemplo bem acabado de como os interesses pelo Etanol, a pressão de agricultores europeus, a defesa de subsídios dos governos ricos, os programas de ajuda humanitária aos países pobres, os preços do petróleo e a dinâmica dos mercados agrícolas resultou em uma espécie de jogo de soma zero, em que no final o conjunto dos atores sai, todo ele, perdendo. Alguém poderia refutar esta afirmação dizendo que os países produtores de petróleo, por exemplo, nunca ganharam tanto dinheiro. Entretanto e apesar disso, se o cenário da crise dos alimentos se transformar em um problema sem controle, até mesmo os poderosos da indústria do petróleo perderão, ainda que menos, muito menos, do que aqueles que estão do outro lado da cadeia: os miseráveis que passam fome há muito tempo e que, diga-se de passagem, também perdem há muito tempo.

Vamos à teoria e certamente quem entender entenderá, se é que me entendem!

A Teoria da Escolha Pública , disciplina relativamente nova da Ciência Política (ou da economia), trabalha com o uso de conceitos e ferramentas próprias da economia como forma de análise para a política e os serviçoes públicos. É excessivamente simplista afirmar que na escolha pública, “um político é visto como mais um agente que tem como objectivo maximizar o seu bem estar, e não como um servidor altruísta dos interesses do público em geral.” Porém, esta definição pode ser um primeiro passo para delimitar o centro das atenções de seus teóricos.

Pensamento de cunho liberal, a Teoria da Escolha Pública trabalha com a “desromantização” da política, com as falhas de governo e com uma visão eminentemente economicista para assuntos diversos, tais como as políticas de bem-estar social promovidas pelos governos. Estudiosos dessa linha de pensamento mostraram que os governos não corrigem facilmente as falhas de mercado; eles normalmente tornam as coisas piores. “A razão fundamental é que informações e incentivos que permitem que os mercados coordenem as atividades e necessidades humanas não estão disponíveis para os governos. Assim, eleitores, políticos burocratas e ativistas que acreditam estar promovendo o interesse público são levados por uma mão invisível a promover outros tipos de interesses.”

Essa afirmação, ainda que com seu conteúdo de verdade o qual é impossível mensurar neste momento, não deve ser tratada como a realidade absoluta referente aos resultados finais das ações do setor público. É certo que devemos distinguir os graus de eficácia conforme as estratégias adotadas para a consecução dos objetivos, bem como por meio da análise dos processos utilizados para resolver problemáticas diferentes existentes na sociedade de modo geral. Portanto, decidir que a ação da burocracia é incompetente na mesma medida para solucionar o problema de evasão nas escolas públicas, para tratar do uso de drogas por parte da população adolescente e para oferecer equipamentos gratuitos de qualidade para os idosos é colocar em uma mesma seara todas as formas de gestão para assuntos tão diversos. Dessa forma, ao tratar de modo geral de algumas idéias dos teóricos da escolha pública temos que partir do pressuposto de que os resultados finais das intervenções dos governos são diferentes, principalmente se levarmos em conta a natureza dos problemas, os processos com que foram “resolvidos”, a estrutura (humana e material) utilizada para a consecução dos projetos e ações e até mesmo as convicções políticas dos governos, as quais podem ser diferentes dependendo do tipo de problema a ser enfrentado, como é o caso, por exemplo, da Dengue, a qual exige esforços dos governos federal, estaduais e municipais, os quais não são necessariamente alinhados ideológicamente uns com os outros.

O modelo de política e democracia da escolha pública presume que a política seja um sistema que consiste em quatro grupos de tomadores de decisões, quais sejam, os eleitores, os eleitos ou políticos, os burocratas e os grupos de interesse. Parte-se da presunção tácita de que cada grupo irá buscar seus interesses da melhor forma possível e que tal choque nem sempre soluciona o problema de todos, ao contrário, tende em algumas situações a fazer com que todos percam. Os políticos buscam votos, os burocratas buscam mais recursos por meio de orçamento e, ao mesmo tempo, maior segurança no trabalho e eleitores e grupos de interesse buscam mais riqueza e renda. Presume-se ainda que cada grupo busque algo que esteja em outro grupo como, por exemplo, políticos que buscam votos dos eleitores e grupos de interesse; eleitores que buscam serviços de políticos e burocratas; burocratas que procuram obter maiores receitas provenientes dos eleitores-contribuintes e dos políticos e assim sucessivamente. No modelo da escolha pública presume-se, também, que cada indivíduo controle um determinado tipo de ativo. “Cada um tem seu interesse pessoal e é orientado por um certo propósito, cada um se engaja em um processo decisório racional. Infelizmente e precisamente ao contrário de mercados com direitos de propriedade bem definidos e defensáveis, os processos políticos têm certas propriedades que diminuem a eficiência e desencorajam a harmonia entre os auto-interesses. Ao presumir agentes políticos auto-interessados, estamos simplesmente dizendo que a maioria das pessoas se identifica mais facilmente com suas próprias do que com as de outras pessoas.”

Contudo, o mundo não é um poço de egoísmo, onde as pessoas insensíveis e individualistas, busquem seu próprio bem indiscriminadamente e a qualquer custo. A sociedade, formada por sistemas e sub-sistemas, é uma imensa rede de relações muitas vezes afetivas, as quais promovem em situações distintas o pensamento da caridade, da troca, do afeto e do querer bem. Ocorre que normalmente tais sentimentos se restringem aos grupos isolados ou mesmo para pessoas muito próximas, em que as relações de afeto são mais intensas. É usual uma mãe despertar preocupada com o casamento de sua filha. Um amigo inventar uma maneira de agradar o outro por seu aniversário. Um marido tentando solucionar um problema de saúde de sua esposa ou mesmo colegas de trabalho se reunindo para emprestar dinheiro para aquele companheiro em situação difícil. Pouco usual é uma mãe despertar preocupada com o casamento do Presidente da República, dois amigos reunidos em uma festa de aniversário pensando em estratégias para aumentar as receitas correntes do Governo Federal, um homem comum buscando solucionar a problemática do atendimento do SUS ou um grupo de colegas criando alternativas para acabar com os conflitos pelo Petróleo no Oriente Médio.

O que defendem os teóricos da escolha pública basicamente é que a maioria das pessoas se identifica muito mais com suas próprias preocupações do que com as preocupações das outras pessoas. Nessa linha, temos que os grupos de interesse e seus sub-grupos acabam por defender seus auto-interesses em detrimento das necessidades e demandas da sociedade como um todo. É mais que certo que em sociedades democráticas nem todos os grupos serão contemplados quando da tomada de decisão por parte dos gestores. Mas também é certo que as regras estipuladas pelo sistema, tais como as maiorias simples e maiorias absolutas, por definição, implicam na existência de vencedores e perdedores, ou seja, aquele que perdeu deve, em respeito às normas e à regra do jogo, respeitar as decisões e ao mesmo tempo garantir a manutenção desse sistema.

Aliás, um dos problemas do sistema democrático é justamente o desequilíbrio dessas forças, pois quando apenas um grupo deve arcar com o ônus das decisões, este grupo tende a questionar os métodos utilizados pela democracia, deixando de apoiar o sistema em sua totalidade, simplesmente pela percepção de que jamais terá suas demandas atendidas pelo Estado.

Se realizarmos uma observação simples sobre a história do século XX nos países da América Latina e as relações de seus povos com a democracia, será facilmente perceptível o fato de que nos momentos de crise, os principais grupos e seus atores sociais viviam em excessivo estado de desequilíbrio de forças, o que gerou reações por parte dos perdedores e contra-reações por parte daqueles soberanos que, ao se sentirem ameaçados, recorreram aos golpes de Estado, aos métodos mais perversos e desumanos de perseguições e demais barbáries perpetradas contra seus inimigos.
Em um ambiente de estabilidade política institucional o jogo de forças dos grupos dominantes não cessa jamais, pois este movimento faz parte mesmo da dinâmica da vida social e política das nações. É pouco questionada atualmente a idéia de que são, de fato, algumas elites as responsáveis por todos os processos decisórios referentes ao bem público. A dúvida está no fato de como tais elites se organizam e como suas decisões são afetadas pelos grupos de interesses.

De qualquer forma, se você resistiu até o fim, já pode vislumbrar os parâmetros estabelecidos pela Teoria da Escolha Pública para entender como foi possível criar as condições para a existência dessa crise. No próximo post, utilizando números e dados estatísticos, poderemos vislumbrar melhor a idéia de que os efeitos alcançados das políticas em diferentes campos nem sempre são aqueles almejados por todos.

Obs.: Todas as citações feitas neste post vêm das obras:
- MITCHELL, Willian C. & SIMMONS, Randy T. Para Além da Política. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
- ALVES, André A. & MOREIRA, José M.: O Que é a Escolha Pública. 1ª Edição. Cascais. Principia. 2004.

terça-feira, abril 29, 2008

... mas agora está difícil

Quem conhece este blog há mais tempo já sabe: se eu passo uma semana sem postar é normal; se eu fico duas semanas é estranho; se eu fico três semanas é preocupante, mas quando chega a quase um mês é porque a situação está feia... muito feia para meu lado!
Mas quando passa de um mês, meus amigos, significa que está tudo (quase)perdido!
Tenho coisas a escrever sobre alguns temas e vou começar com "A Hipocrisia da Crise dos Alimentos". Estou reunindo um material interessante para vocês!

terça-feira, março 25, 2008

Assim Fica Fácil

No penúltimo post eu citei frases do autor moçambicano, Mia Couto. Disse que elas haviam sido enviadas para mim por uma amiga chamada Eva, repito, uma das mulheres mais interessantes e inteligentes que conheci em minha vida.
Sou um tipo sortudo! Amigos inteligentes é o que não me falta e por isso nossa vida intelectual vai ficando cada vez mais complicada de um lado, pois essas pessoas nos obrigam a ler muito ou ao menos o suficiente para que possamos trocar algumas palavras sem parecer desmiolados; enquanto que por outro lado, vamos aprendendo um pouco mais sobre o mundo e a existência e, neste aspecto, a vida fica muito mais fácil.
Nessa lista de gente inteligente que freqüento existe uma outra figura, por sinal engraçadíssima, que destaco neste post. Seu nome é Adauto Damásio. Historiador, o mestre e amigo Damásio nos diverte na hora do almoço no quiosque ao lado da piscina da matriz da Anhanguera Educacional, enquanto nos conta as maiores barbaridades sobre assuntos, digamos, aleatórios, para emprestar um termo utilizado por Jô Soares.
Adauto Damásio acaba de ter um texto seu publicado no Blog do Noblat, um dos melhores blogs de política do Brasil e o mais visitado. Coincidentemente, o texto trata da chegada da corte portuguesa ao Brasil, tema que estamos trabalhando no curso de Estudos Inter. Já pedi a ele que permitisse a publicação do texto em meu blog, o qual foi gentilmente autorizado.
Evidentemente também já fiz um convite para que ele possa fazer uma palestra na faculdade sobre o tema para vocês.
Segue o texto no próximo post.

A Corte Portuguesa e as eleições municipais em 2008

Fonte: Blog do Noblat
Autor: Adauto Damásio

O ano de 2008 marca o bicentenário da chegada da Família Real no Brasil. Mais do que um exemplo histórico que marcou o início do efetivo processo de independência brasileira, marca também o início da bandalheira nacional com o dinheiro público e o predomínio do poder executivo sobre os outros poderes.

Como sabemos, D. João VI, o governo e toda a corte portuguesa fixaram sua sede no Rio de Janeiro em função das pressões militares do governo napoleônico. Fugindo dos vendavais dos ideais liberais gerados na Revolução Francesa e consolidados no governo de Napoleão Bonaparte, o príncipe-regente português buscou refúgio na colônia para dar continuidade ao seu governo absolutista.

No período em que Dom João VI governou Portugal, Brasil e as outras possessões do império português a partir do Rio de Janeiro (1808-1821), foram instalados os pilares fundamentais do Estado Nacional que surgiria mais tarde (a partir de 1822) com a independência.

Quais eram as características desse Estado Absolutista, reproduzido no Brasil e herdado por D. Pedro I após a independência? Em primeiro lugar, o poder absoluto do rei era inquestionável, garantido pelo apoio do clero e nobreza com o apoio financeiro da burguesia comercial. Nos regimes políticos absolutistas, por princípio, não há parlamento.

Em segundo lugar, e não menos importante, o Estado absolutista português assentava seu poder a partir do apoio de uma vasta, cara e corrupta burocracia de Estado. Tal burocracia era recrutada a partir dos privilégios do nascimento ou a partir da simples compra dos cargos. O Estado não existia, no absolutismo, para resguardar qualquer direito da sociedade, mas sim os direitos de nascimento dos que possuíam o privilégio de estar próximos da corte.

Assim, foram preenchidos os cargos dos funcionários do Banco do Brasil, das Bibliotecas Públicas, das escolas superiores, entre tantas outras instituições públicas criadas no período joanino. Assim, nasceu um Estado que suga os recursos da sociedade e serve a si mesmo.

Em 1822, quando a independência política se apresentou como única solução para as elites agrárias brasileiras, o pacto com Dom Pedro assegura uma separação conservadora na qual nenhuma transformação significativa irá ocorrer: mantém-se a estrutura exportadora e a base escravista da produção agrícola. Mais do que isso, Dom Pedro I utiliza-se da já instalada máquina de Estado montada por seu pai.

A despeito de alguns espasmos liberais, as elites agrárias do país recém independente apoiaram as pretensões autoritárias de Dom Pedro I até o momento em que lhe foi conveniente, assegurando para si o poder político a partir de 1831, com a abdicação do rei. O interregno “republicano” entre 1831 e 1840 marca o período de grande tensão e guerras internas. Em 1840, a solução política pacificadora leva Dom Pedro II ao poder a partir de um rearranjo político.

Raimundo Faoro foi o mais brilhante analista do Estado brasileiro. Fugindo das mesmices e jargões comuns do marxismo dos anos 60 e 70, buscou inspiração em Max Weber para interpretar o Brasil a partir dos elementos da sua cultura política.

Assim, a tese principal no livro Os Donos do Poder é a de que o poder político na história do Brasil não foi exercido para atender os interesses das classes agrárias nem da burguesia, mas sim em causa própria por aqueles que dominavam a burocracia do Estado. Em outras palavras:

“Era, em termos de Weber, um “estamento burocrático”, que tinha se originado na formação do Estado português dos tempos dos descobrimentos, senão antes, e que se reencarnaria depois naquilo que ele chamaria de o “patronato político brasileiro”. 0 estamento burocrático tinha tido sua origem no que Weber denominava de “patrimonialismo”, uma forma de dominação política tradicional típica de sistemas centralizados que, na ausência de um contrapeso de descentralização política, evoluiria para formas modernas de patrimonialismo burocrático-autoritário, em contraposição às formas de dominação racional-legal que predominaram nos países capitalistas da Europa Ocidental. A contribuição de Faoro aqui vai além da utilização dos conceitos weberianos e da interpretação que deu do sistema político brasileiro: ela consiste, fundamentalmente, em chamar a atenção sobre a necessidade de examinar o sistema político nele mesmo, e não como simples manifestação dos interesses de classe, como no marxismo.”

(Simon Schwartzman, in: http://www.schwartzman.org.br/simon/faoro.htm)

Assim, a velha e carcomida tese de que o Estado representa em qualquer situação histórica os interesses da classe dominante deixa de ter preponderância na análise da história do Estado brasileiro, pois é preciso “examinar o sistema político nele mesmo”.

Examinando o sistema político brasileiro nele mesmo, durante todo o período republicano até nos dias de hoje, temos uma constatação trágica para a cidadania: o Estado continua com a mesma lógica de existência de seus primórdios de formação.

Tal lógica de um Estado voltado para si mesmo aparece de forma absoluta em suas estruturas, regulação e funcionamento. No Brasil, nada ou muito pouco das instituições que deveriam ser voltado para público, de fato o é.

Na terra de Cabral, os poderes legislativos e executivos, em todos os níveis da federação, existem para contemplar os interesses de seus integrantes, parlamentares e funcionários. O poder judiciário organiza-se mais para defender interesses coorporativos do que para aplicar a justiça. Sindicatos se organizam e agem apenas com o objetivo de garantir interesses políticos, seus projetos de poder e os interesses corporativos de seus afiliados. Associações de médicos servem para defender os interesses dos médicos. Eleitores votam em função de seus interesses particulares.

Na terra de Cabral, até as Organizações Não-Governamentais (ONGs) servem aos objetivos privados na promíscua relação com o Estado. Na terra de Cabral, a sociedade pouco se organiza e quando o faz, na maioria das vezes, é para o benefício próprio dos que constituem a “confraria dos espertos”. Dinheiro público continua a ser dinheiro de ninguém.

O caso do parlamento brasileiro é o mais notado pela mídia e discutido nas ruas. Afinal, para que serve uma Câmara de Vereadores ou uma Assembléia Legislativa? Sabemos que suas funções centrais giram em torno da produção das leis e da fiscalização dos atos do poder executivo. Mera teoria.

No Brasil, com eleitores e políticos irresponsáveis, o poder legislativo torna-se ora um grande balcão de negócios particulares, ora um poder subserviente ao executivo por conta das benesses oferecidas aos seus membros, ora uma grande empresa improdutiva montada para empregar os amigos e garantir a continuidade no poder por meio dos mecanismos de favor e do clientelismo.

Não importa a ideologia ou o partido político. As antigas facções de esquerda e direita, expressões horrorosas e inadequadas para o mundo contemporâneo, participam da mesma lógica no exercício do poder: ele existe para que seus ocupantes se locupletem de privilégios e garantam interesses particulares. Claro, usando o dinheiro público advindo do trabalho dos indivíduos que trabalham e geram riqueza.

Tomemos como exemplo as Câmaras Municipais. Tomemos como exemplo mais específico a Câmara Municipal de Valinhos/SP. Ela consumiu R$ 4.502.504,20 no ano de 2006. Tais recursos foram usados para a manutenção de 10 vereadores. Em média, cada vereador custou aos cofres públicos a quantia de 450.250,42 ao longo de um único ano parlamentar. Não há justificativa para tamanho descalabro. Não há motivação suficiente para que os gastos sejam tão escandalosos. E pasmem, os vereadores consideram os recursos insuficientes...

A Câmara Municipal de Valinhos pode realizar os seus trabalhos com toda a dignidade com metade dos recursos atuais. É inadmissível que a existência de uma carga tributária escandalosamente elevada como a que existe no Brasil sustente as benesses de 10 vereadores. Caso fossem 20 vereadores, também não seria justificável.

Os trabalhadores assalariados, camadas médias e empresariado do Brasil precisam ‘acordar’ nas eleições de 2006. Esse arremedo do que chamamos de sociedade precisa se organizar e exigir que o poder público (executivo e legislativo principalmente) se comprometa a reduzir gastos supérfluos e diminuir impostos.

É preciso que a Corte de Dom João VI vá embora para que possamos proclamar a república.


Adauto Damásio é Mestre em História pela Unicamp, professor do Colégio Anglo Campinas, Assessor Acadêmico da Anhanguera Educacional e amigo do Luiz Renato (hehehe).

Querem Boa Literatura? Então Leiam Esses!!!!

Esqueçam Dan Brown, Paulo Coelho e outros Best sellers espalhados por aí!
Querem boa literatura? De verdade? Então, para começar, experimentem Mia Couto e Stephen Zweig. Este, um austríaco genial que viveu a última parte de sua vida no Brasil e escolheu resumir sua existência material e terrena cometendo suicídio junto de sua mulher, em Petrópolis. Autor de fabulosas histórias, sua obra mais sensacional, na minha opinião, é o raríssimo "Momento Supremo". Muito difícil de achar (minha amada mulher presenteou-me com uma edição de 1940, após procurar durante meses e só conseguir comprar via internet, em um sêbo de Curitiba), porém deliciosamente bem escrito. A idéia do livro é contar episódios importantes da história de uma maneira precisa e ao mesmo tempo literata e sensível. É de chorar!
Separei essas duas frases do autor, apenas para ilustrar este post:

"Nada torna as pessoas mais desnaturadas e insubordinadas que uma longa e constante ociosidade."

"Todo conhecimento provém do sofrimento, que procura sempre a causa das coisas, enquanto o bem-estar tende à quietude e a não olhar para trás."

O outro autor que recomendo vigorosamente é Mia Couto. Esse é também um gênio: sensível, engraçado, erudito e acessível. Mia Couto nasceu em Moçambique, na cidade de Beira e é considerado um dos maiores escritores contemporâneos do continente africano e um dos melhores da língua portuguesa. É fácil encontrá-lo, pois no Brasil ele é publicado pela Companhia das Letras. Algumas frases do autor, também só para ilustrar (agradeço desde já a colaboração de minha amiga Eva, uma das mulheres mais inteligentes e interessantes que já conheci, pois foi ela quem me enviou esses trechos).

"Acreditaste em mim? Fizestes bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir."

"Não esqueças, patrão. A riqueza é como o sal, só serve para temperar."

"A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco."

"Isso não tem remédio, filho. Eu sei muito bem. Porque eu vivi num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida."

"O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?"

"A política é a arte de mentir tão mal que só pode ser desmentida por outros políticos."

"Dormir com alguém é a intimidade maior: não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de mulher e a sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas interioridades."

"No charco onde a noite se espelha, o sapo acredita voar entre as estrelas."

"O que ela mais lembrava de Mariano: as mãos. Não havia nada mais tangível que essas mãos, mãos de homem em corpo de mulher. Ela sentia o seu arrepio como se mudasse de estado, em vias de ser redesenhada. As mãos dele a derretiam, fogo liquescendo o ferro."

"Esse seu avô tem conversa de tal encanto que pode diminuir a idade de qualquer mulher."

"Ele já tinha visto os homens. E aqueles não eram diferentes dos que ele conhecera antes. Começamos por pensar que são heróis. Em seguida, aceitamos que são patriotas. Mais tarde, que são homens de negócios. Por fim, que não passam de ladrões."

sábado, março 22, 2008

Aqui nao tem acento...

Quero escrever uma coisa curiosa, mas aqui nao tem acento.
Estou em um lugar (longe) em que os teclados nao possuem acento e outros acessorios uteis e/ou inuteis de nosso idioma.
Escreverei mesmo assim. Por favor, me perdoem.
È que voltava caminhando vagarosamente pela rua, de madrugada, com a mao no bolso e do nada me deu vontade de cantar as cancoes dos Saltimbancos, de Chico Buarque que, apesar de petista, è de fato um genio da musica.
Tudo continua sem acento... me desculpem...
Apos chegar ao meu destino, sentei-me em frente ao computador para acessar a internet e, do lobby do hotel, eis que comeca a tocar... nos gatos ja nascemos pobre, porem ja nascemos livres...
SIM! Saltimbancos, de Chico Buarque! Exatamente a mesma musica que eu cantarolava numa rua escura, minutos antes. Logo pensei nas coincidencias, mas como sou um sonhador, imaginei que aquilo tivesse um sentido. Porque neste lugar, tao distante, tao inusitado - imaginem por exemplo que eventualmente eu poderia estar cantando esta musica em pleno frio da Praca Vermelha, em Moscou e, ao retornar ao hotel, a mesma musica comeca a tocar! Entao me levantei e desci para procurar de onde vinha aquele som... porque? Logo imaginei milhares de coisas:
1- um espiao da antiga KGB possuia um dossie sobre Lula e precisava sorrateiramente fazer contato com um brasileiro comum que entregaria tudo para a imprensa e, ao seguir-me e escutar-me cantando, ele tentou se comunicar comigo;
2- a musica foi colocada para que eu justamente encontrasse uma maleta de euros embaixo do piano do bar do hotel, a qual me deixaria milhonario para sempre;
3- ao sair em busca da musica, uma bomba colocada por membros da mafia russa explodiria ao lado da cadeira em que eu estava sentado e mataria Xong Ling Yiu, um importante magnata chines envolvido com o comercio ilegal de heroina para o Tibet e eu seria salvo pelo Chico Buarque! Hargh... talvez preferisse a bomba, ao inves de dever favor a um petista!
Mas nada... continuo neste exato momento procurando uma explicacao para tamanha coincidencia. Certamente nao dormirei esta noite e penso que tentar encontrar resposta e explicacao para tudo, no final, e algo muito cansativo.
Vou tentar me controlar e pensar que, de fato, coincidencias existem. Assim durmo tranquilo e deixo de aborrecer voces com essa bobagem. Sim... eu vou dormir.
Boa Noite!
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(ao sair de fininho e convencido de se tratar de uma coincidencia, observo uma maleta embaixo do piano do lobby do hotel, o qual està sendo dedilhado por um tipo parecido a um chines, enquanto um russo com cara de mafioso assobia uma cancao de chico buarque... Valha-me Deus!!!)

terça-feira, março 11, 2008

Amor e Gastronomia (Parte 2): Uma Gôndola no Brasil

Quando desembarcou do navio que o trouxe da Itália, o jovem imigrante logo imaginou que morreria neste país, provavelmente em algum bairro da cidade de São Paulo. Seu primeiro trabalho fora o de vendedor de roupas, mas às vezes a vida nos dá sinais que sequer imaginamos ou os entendemos. Dessa forma, o jovem italiano, nascido na cidade de Cremona, teve nas cozinhas sua primeira forma realmente rentável de sustento.

Ele vendia fogões.

Mais tarde, os sinais teimaram em aparecer, quando ele se transferiu para a cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde trocou os fogões pelo gás. Assim, anos depois, tornou-se o maior distribuidor da cidade, porém desejava mais. Depois de muito tempo separado, apaixonou-se por sua antiga melhor amiga. Tinham outros laços afetivos, pois a forte amizade de outrora fez dele o padrinho de batismo do único menino dela, o terceiro filho nascido em um verdadeiro clã feminino.

Já passava dos sessenta anos. Estava naquela idade em que a maioria dos viventes pensa em “descansar”, “curtir a aposentadoria” e outras estratégias que as pessoas inventam para morrer devagar. Porém, sua nova companheira acreditava que ainda existia muito tempo para se realizar sonhos e assim incentivou-o a abrir um restaurante para que pudesse concretizar um antigo projeto: cozinhar as receitas de sua mãe e treinar seus próprios dotes culinários. E assim, depois de vender fogões e gás, decidiu que usaria ambos para esquentar panelas com coisas gostosas dentro.

Alugou um espaço, fez pequenas reformas e mandou pintar. Resolveu inaugurar seu restaurante antes que estivesse pronto. A vida era uma ansiedade. E desde o dia em que abriu seu restaurante, ainda com cheiro de tinta, uma escada de pintor encostada na parede e aquele monte de jornal espalhado pelo chão, “La Cucina di Tullio” se enche de vorazes clientes, ávidos para navegar nas gôndolas, pastas e temperos do lugar.

Pouco tempo depois começou a receber seu reconhecimento: uma estrela no Guia Quatro Rodas por cinco anos consecutivos, Melhor Chef da Cidade e a Stella d’Identità Italiana (Estrela de Identidade Italiana), uma honraria que é merecidamente ofertada a restaurantes em funcionamento fora da Itália, que preservam a arte da culinária italiana, respeitando sua verdadeira tradição gastronômica.

E enquanto tanta gente lhe rende honrarias, Tullio gosta mesmo é de homenagear a sua companheira. A mulher que com todo aquele amor estimulou sua criatividade e coragem para arriscar-se em um empreendimento misteriosamente complexo. Ao menino, aprendiz de cozinheiro, seu padrinho lhe proporcionava a oportunidade de provar suas invenções nas refeições familiares. Foi ele quem, já adulto, ajoelhou ao provar a Gôndola, que seria mais tarde o prato mais famoso do restaurante. A Gôndola é aquele barquinho que leva os casais apaixonados pelas águas de Veneza. Foi ela que inspirou essa história e para ninguém ficar com vontade, uma das receitas de Gôndola eu apresento no link abaixo.

Já o menino sortudo... bem, esse menino sou eu!


http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM420395-7822-N-GONDOLA+IMPERATORE,00.html

segunda-feira, março 03, 2008

Amor e Gastronomia (Parte 1): O Índio Feliz

Haviam se conhecido em Paris.

Ele, um “sous chef” dedicado, aprendiz em diversos bons restaurantes da capital e de seus arredores. Ela, uma imigrante peruana, cuja família morava em um pequeno “pueblo”, apaixonada por gastronomia e tentando uma oportunidade para melhorar a sua vida.

A paixão apareceu rapidamente e pouco tempo depois eles resolveram se casar. Para ele, uma grande companheira, cúmplice, amiga e destemida. Para ela, o parceiro leal, amigo, trabalhador e carinhoso. Seus problemas com a imigração não mais existiam e a felicidade repentina não se desfez com o tempo. Aliás, a felicidade, teimosa, persistia em abraçá-los todas as manhãs e jamais se cansava de fazê-los sorrir, fosse ao longo do interminável dia de trabalho, fosse no romântico passeio de mãos dadas pelo “Parc Monceau”, onde gostavam de sentar para olhar as pessoas e se inspirar com a beleza do lugar.

Curiosamente, este parque, criado no século XVIII, foi desenhado pelo primo de Luiz XVI, chamado Philippe Égalite. A curiosidade está justamente no fato de que o único problema que persistia em atrapalhar a vida do casal era justamente a falta de “égalité”. Não me refiro à falta de igualdade entre ambos, aquilo que se vê em muitos casais hoje em dia, mas sim àquela que faz falta à maioria dos imigrantes que vivem na França: “la égalité de droits”.

Ainda que regularizada na França, a bela morena de olhinhos puxados e sorriso fácil sofria da falta de igualdade de seus direitos, traduzidos na indiferença ou maledicência dos franceses que a “confundiam” com todo o tipo de pessoa, menos com aquilo que de fato ela era. E dessa forma foram sendo perdidas oportunidades de emprego, chances de novas amizades e substituindo a paz vieram os choros, a raiva e aquela sensação de injustiça alimentada pela intolerância racial e religiosa, pela qual passam milhões de pessoas em todo o mundo.

Inconformado com os constrangimentos por que passava sua mulher, o jovem francês, em mais um ato de amor, decidiu abandonar a promissora carreira nas cozinhas parisienses e migrar para o Peru, a terra natal de sua mulher amada. Para ele, era insuportável vê-la sofrer e então decidiu que a única forma de conter suas lágrimas era levá-la de volta ao seu país.

Como seu único ofício era cozinhar, reuniu suas economias e montou um cenário de amor, onde coincidentemente também se serve comida. Sim, em Águas Calientes, uma vila ao pé de Machu Picchu, o jovem casal abriu um restaurante com capacidade para 30 pessoas, toalhas coloridas bordadas, cadeiras com corações entalhados e um pequeno cardápio, em que se mesclam temperos peruanos com a culinária francesa.

Quando estive lá com meu amigo Rafa, em julho de 1998, eles estavam começando o negócio. Hoje, a cozinha do “El Índio Feliz” é reconhecida como uma das mais modernas formas de fusão entre a culinária peruana e francesa.

Jamais me esqueci da “Truta al Mango" que lá provei. Tive o privilégio de entrar na cozinha e anotar tudo enquanto pacientemente o chef me ensinava a receita. Até hoje eu reproduzo o prato. Os bons chefs não têm medo de compartilhar seus segredos, desde que tenham certeza de que serão utilizados com todo o respeito. O mesmo aconteceu comigo em um restaurante em Granada, sul da Espanha, onde o chef Manolo me ensinou como se cria um belo “filet al limone”.

E por falar em limão, percebo que “El Índio Feliz´” é o produto final de uma história de amor que a intolerância racial tentou azedar, mas não conseguiu. Para a felicidade do índio, minha e do Rafa também!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Vou Confessar Uma Coisa

Todos sabem que adoro política! Aliás, adoro tudo o que faço, o que estudo, em que trabalho, enfim, sou um daqueles otimistas na vida, ainda que "estressado" com tantas coisas: aluno folgado, vitória do Corinthians, garçom displicente, motorista mal educado, imposto de renda, TV aos domingos e comida mal feita.
Pois bem, ando tão irritado com a política que darei um tempo, sei lá, de uns três ou quatro posts (hehehe) sobre o assunto.
É que faz alguns dias que tento escrever sobre Fidel, Cuba e o socialismo, mas eu não consigo passar de dois parágrafos. Querem saber? É muita hipocrisia e manipulação de dados, números e informações. De um lado aqueles que atestam os ganhos sociais do governo cubano, de outro aqueles que contestam os dados e tentam provar que a qualidade de vida em Cuba é muito baixa. Na minha opinião, não consigo pensar em outra coisa: comparar um ditador facínora e assassino a um herói da resistência contra o "Grande Império" é uma baita estupidez.
Creio que o mais importante não é fazer o que se gosta, mas sim gostar do que se faz. Portanto, se ando impaciente em escrever sobre política e eu gosto demais deste "exercício blogueiro", então me permitam escrever coisas amenas. Peço desculpas, porém minhas próximas mensagens serão sobre textos interessantes, literatura, vinhos e gastronomia... boa gastronomia! Depois eu volto com os pratos indigestos.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Eu Estava Certo!

Tempos atrás escrevi um post sobre o filme Tropa de Elite. Tratava-se de um breve comentário sobre a forma com que muitos profissionais de comunicação utilizam certos termos técnicos de maneira equivocada. Pois bem: o Urso de Ouro recebido pelo prêmio de Melhor Filme do Festival de Berlim é uma das provas de que eu estava certo. Tropa de Elite não é um filme fascista! Jamais um crítico, um cineasta ou um júri alemão daria um prêmio tão importante para um filme fascista ou nazista. Desse assunto eles entendem bem, mas hoje preferem ser vistos como um povo que combate a teoria que outrora alimentou suas esperanças em uma vida melhor. A ilusão que começou efetivamente a desmoronar quando os primeiros britânicos e americanos desembarcaram nas praias da Normandia, durou apenas alguns anos e o resultado todos conhecem.

Dessa forma, tomo a liberdade de publicar novamente aquele post apenas para confirmar um dos aspectos que tanto critico na imprensa brasileira e que em sala de aula luto para implementar junto aos meus alunos: a preocupação com o correto e adequado uso de determinados termos para cada situação.

O texto segue abaixo, em itálico.

"As vezes me cansa certas discussões que a mídia gosta de fazer. A do momento é sobre o filme Tropa de Elite. Um filme tão bom que obrigarei todos os meus alunos a reservar um horário no fim de semana para assistir a uma sessão.

Aluno Entediado: “Mas como assim, vai me obrigar? Eu vou se eu quiser!”
Professor resignado: “Tudo bem, se não quiser ir não tem problema. Mas vai ter que fazer trabalho sobre o filme e quem não fizer fica com zero, entendeu?”
Aluno resignado: “Sim, entendi, mas não concordo com esta obrigação. Você é um Fascista!!!”

Se quiserem me chamar de fascista, tudo bem, mas antes é preciso entender que diabos significa isso, certo?! Pois é justamente este o problema das discussões em torno de Tropa de Elite. Não há um só dia em que eu não leia alguém dizendo que o filme é Fascista. Um colunista de um famoso jornal escreveu nesta manhã que o filme não é fascista, mas sim o BOPE, Batalhão de Operações Policiais Especiais, da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Na verdade, nem um nem outro.

Os colunistas escrevem e a patuléia repete. Ao ler esse monte de matérias sobre o filme de José Padilha me lembrei de um tempo em que tinha fixação por Torta Holandesa. Isso mesmo, Torta Holandesa, o doce com creminho branco e bolachas em volta.

Naquela época eu rodava a cidade em busca de uma espécime legítima e bem feita da bendita. Não havia um recinto gastronômico (restaurante, padaria, cantina de escola, botequim, casa da avó...) que não entrasse e fosse logo espichando os olhos em volta para encontrar a famosa Torta Holandesa. E lá vinha ela, sempre de um jeito diferente. Ora com um creme cheirando à manteiga grosseira, outra com o creme pastoso e molenga, outra com os biscoitos murchos, ou então com o chocolate sem gosto; algumas vezes ultra-congelada e outras derretendo; dependendo do lugar eram servidas em um prato de louça riscado, num pote de plástico transparente, num recipiente de sorvete, enfim, era tudo, menos Torta Holandesa bem servida. Claro, haviam as exceções. Mas também eu não posso reclamar. Afinal, Torta Holandesa nem é holandesa mesmo, assim como o fascismo atribuido ao filme não tem nada a ver com o fascismo em sua acepção original.

O Fascismo é um regime de massas caracterizado pelo forte espírito de negação. Exceto pela defesa do nacionalismo, os fascistas negavam o socialismo, o comunismo, o liberalismo, a burguesia industrial e financeira, bem como os proletariados. Notem, leitores, que a negação é a palavra de ordem para o movimento.

Para colocar em prática sua estratégia, os fascistas criaram um movimento partidário e ao mesmo tempo parecido com uma mílicia, o qual proporcionava aos seus seguidores a possibilidade de perseguir seus rivais de maneira bastante eficaz, utilizando de um lado o terror como tática de ação em busca do monopólio do poder político e, de outro, os mitos, símbolos e rituais para angariar simpatizantes via o uso intensivo do apelo estético.

O fascismo é fruto de uma crise moral que prevaleceu no período do pós-guerra (me refiro à I Grande Guerra) convertido em ação política policialesca, antidemocrática, com forte intervenção do Estado nos campos econômico e social, com uma rigorosa hierarquia, traduzidos em uma figura carismática e de grande eloqüência, denominada Il Duce, o chefe.

Dessa forma, o recurso à violência e à dominação, desrespeitando-se o Estado democrático de direito, faz de uma parte do fascismo algo que possa lembrar as ações de grupos estatais, cuja ação se desprende das normas constitucionais, sob o pretexto de maior eficácia dos resultados pretendidos. E seria por isso que alguns jornalistas emprestam o termo “Fascismo”, seja ao filme de Padilha, seja ao BOPE, para explicar o ambiente de violência e desrespeito aos Direitos Humanos e à legalidade.

No entanto, com uma singela “forçada de barra”, poderíamos relacionar “Tropa de Elite” com outras correntes ideológicas ou práticas políticas registradas na história, as quais não representam os ideais fascistas. Tudo isso porque os termos do campo político são tratados sem qualquer parcimônia ou vergonha pelos intrépidos jornalistas, assim como o fazem com outros termos como “maquiavelismo”, “esquerda”, “direita”, “neo-liberal” e por aí vai.

Basicamente, tratam os conceitos políticos como os confeiteiros tratam a Torta Holandesa. Pegam uma receita qualquer, adaptam às necessidades, misturam tudo, enfeitam como podem e entregam ao público para que engulam acreditando que aquela é a verdade. Dessa forma, se Torta Holandesa não é da Holanda e cada um faz do jeito que lhe aprouver, Tropa de Elite não é fascista, mesmo que cada qual o defina como quiser. Enfim, o mau uso dos termos políticos é “osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Voltei!!!!


Já estava na hora e a pauta é longa:
- Cartões Corporativos
- Eleições Americanas
- Perdiz Trufada
- Jornalismo de Quinta Categoria
- Servilismo e Sabujice
- Notícias Curiosas...
Nossa... por onde começo???
Com uma piadinha que o deputado Eduardo Gomes do PSDB de Tocantins gosta de dizer no início de cada um de seus telefonemas para amigos pessoais e colegas de Câmara:
"Jantar no Fasano com os Amigos... dois mil reais
BMW X5... 500 mil reais
Cartão Corporativo... não tem preço!"
Até amanhã!

domingo, dezembro 23, 2007

Notas do Exame Lançadas

As notas do exame de Política e Economia já estão no sistema.
A partir de hoje este blog entra de férias. Vai dormir até depois do Carnaval!

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Substitutivas I e II

Caros alunos,
As notas das substitutivas foram lançadas. Peço que me escrevam caso identifiquem algum problema ou tenham dúvidas sobre o Exame ou sobre os resultados.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Notas de Política Lançadas

Acabei de lançar as notas de Política no sistema. Acrescentei 0,5 ponto para alunos que fizeram ao menos uma das três coisas listadas abaixo:

1- escreveram um bom trabalho sobre o caso Renan Calheiros;
2- responderam alguma questão corretamente no dia da apresentação dos trabalhos e,
3- alunos que, a meu critério, contribuíram com participações interessantes ao longo do curso.

São eles:
- Aline Morais
- Celso Tokusato
- Débora Araújo
- Luciana Gomes
- Juliane Deodata
- Pryscila Iglesias
- Daniele Gimenes
- Natália Bezute
- Newton Fabro
- Daiane Benelli
- Danilo Roberto
- Juliana Pessanha
- Bruna Domingos
- Eteni Barbosa
- Fernanda Souza Cruz
- Fernando Verdasca
- Daiane Cabral

Notas de Economia Lançadas

Já estão no sistema as notas da avaliação II de Teoria Econômica.
As notas de Política serão lançadas nas próximas horas. Estou apenas fazendo os ajustes para somar alguns pontos extras obtidos por alguns alunos.
Os temas do Exame de Economia serão publicados brevemente.

sábado, dezembro 08, 2007

Resultado de Marketing Político

CONFIRMADO!
Alunos de Marketing Político, os resultados da campanha eleitoral (todos os trabalhos do semestre: outdoor, estratégia, santinho, jingle, programa de rádio e programa de TV) serão divulgados no churrasco, o qual fui gentilmente convidado a participar.
Um abraço a todos e até domingo!!!

quarta-feira, novembro 14, 2007

Sobrevivi!

Passei maus bocados nos últimos dias. Meu corpo disse: "Ou, bixão, assim não dá!!!"
E eu ignorei seus sinais e decidi pagar pra ver quem podia mais. Perdi.
No meio da semana passada, já na minha aula de Marketing Político, tive que dispensar os alunos 40 minutos antes. Uma festa!
Depois fui ao médico e ele queria me internar.
Médico: Terei que interná-lo.
Meu Corpo: Heeeeeee!!!
Consciência: Nem pensar!
Meu Corpo: Nem pensar porquê? Quero comer sopinha de hospital!
Consciência: Harghh...
Médico: Bem... só existe uma forma de você não ser internado. Terá que tomar uma medicação forte e mais cinco Benzetacil num intervalo de dois dias.
Meu Corpo: Não creio...
Consciência: Hahahahahaha... vai doer, heim!
Meu Corpo: ... hpf... sem graça...
Bem... e daí fui eu, ficar de repouso, asssitir televisão, filmes, enfim, ficar de bobeira enquanto esperava passar. E assim fiquei desde sexta-feira, até que na noite de terça para quarta-feira eu percebi que precisava voltar urgentemente para minha vida (a)normal. Nesta noite eu tive um sonho. Sonhei que estava trabalhando!
Isso mesmo, fiz reuniões, resolvi um monte de coisas e, pasmem, dei aulas!!! Curiosamente tratei de assuntos que só apareceriam no dia seguinte. Inclusive tomei até decisões!!! Sim, tomei decisões, sendo que na quarta-feira bastou eu repetir as decisões que já havia tomado no sonho da terça! Assim foi fácil!
Também dei aula, reclamei que os alunos não liam e que precisavam aprimorar o senso crítico. No final, pedi para o Diego parar de conversar. E ele parou.
Sim, era somente um sonho.

PS.: Obrigado, do fundo do meu coração, aos queridos que me escreveram desejando melhoras.

quarta-feira, outubro 31, 2007

Copa do Mundo: começa a "Guerra Civil"

Fonte: Portal do Estadão
por Marcos Guterman
Seção: Todo mundo, América Latina 19:17:50.


"O Brasil acaba de ser escolhido como sede da Copa de 2014. Até o pontapé inicial, porém, serão sete anos em que uma espécie de “guerra civil” terá lugar no país: de um lado, o grupo dos que acham que o Brasil dos corruptos e dos assassinos não tem a menor condição de sediar uma Copa; do outro, o exército daqueles que vêem a competição como uma catarse pátrio-religiosa de proporções cósmicas.

A turma do contra argumenta que o futebol, como expressão popular de enorme envergadura no Brasil, é usado de forma cafajeste por políticos inescrupulosos para angariar simpatia e votos. O exemplo que costuma ser invocado a esse respeito é o da Copa de 70 – cujo triunfo brasileiro, de acordo com os críticos, teria servido para catapultar os projetos megalomaníacos do governo Médici ao mesmo tempo em que desviava a atenção pública da violenta repressão à oposição. Há vários vergonhosos subprodutos desse fenômeno, e o mais famoso deles é o caso do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, que presenteou os tricampeões do mundo com Fuscas pagos com dinheiro público.

Jango e os campeões de 1962: a esquerda também manipula

Mas a manipulação do futebol no mundo da política brasileira não é uma exclusividade de regimes de exceção ou de políticos calhordas de direita. João Goulart, que presidia o Brasil quando a seleção foi campeã do mundo no Chile, explorou o quanto pôde a conquista, e estranhamente isso não costuma ser objeto de crítica. FHC, presidente habitualmente reputado como um dos mais corretos da história republicana, fez questão de segurar a taça obtida pelos pentacampeões do mundo em 2002, em pose de capitão do time.

Assim, Lula, ao jogar suas fichas na cerimônia que oficializou o Brasil como sede da Copa, nada mais fez do que seguir o script de qualquer presidente em situação semelhante. Criticá-lo por explorar o momento é achar que política é coisa de monges beneditinos.

Do outro lado da trincheira estarão os arautos da brasilidade, os mensageiros do evangelho canarinho e os voluntários da pátria em chuteiras. Para esses guerreiros, não será permitido duvidar do valor que a Copa do Mundo tem para o Brasil nem levantar questionamentos mesquinhos, como a insegurança do país, o estado lastimável dos estádios de futebol, a falta de transporte público adequado para uma competição como essa, entre outras heresias. Falar disso é “torcer contra o Brasil”, e provavelmente o discurso negativo será abafado, sempre que necessário, pelo tradicional ufanismo que cerca mobilizações nacionais desse gênero.

O problema do fundamentalismo futebolístico verde-amarelo é que ele efetivamente colabora para que eventuais desvios criminosos no processo de adequação do Brasil às necessidades da Copa sejam vistos como uma espécie de “mal menor” diante da grandeza do evento. Tudo isso, claro, considerando-se como certo que o Brasil ganhará a Copa. Se perder... Bem, a derrota, neste caso, como em 1950, deverá ter o devastador efeito de dizimar utopias – e é difícil dizer que Brasil emergiria desse novo Maracanazo, mas certamente será um país mais cético, mais dividido e mais triste."