terça-feira, setembro 16, 2008

Abrindo Caminho Para a Política Moderna- Maquiavel

Nota Importante: Os posts da série “Abrindo o Caminho da Política Moderna” foram criados com o objetivo de facilitar o acesso dos leitores pouco acostumados às obras do pensamento político moderno, para que possam se sentir mais confortáveis no momento de ler os originais dos autores aqui citados. Não tem, portanto, a intenção de ser um texto que contemple todas as idéias e teorias dos clássicos, mas que possa, de alguma forma, oferecer os elementos cruciais para que, ao ler a obra original, a essência do pensamento de cada um seja imediatamente captada.


Parte 1: Maquiavel

Se a “chave” para compreender o pensamento maquiavélico é a idéia das inúmeras rupturas promovidas por seu pensamento e a “chave” para compreender o pensamento hobesiano é a idéia do estado de natureza, o caminho para definir o pensamento de Locke é o conceito da propriedade privada.

Já afirmei diversas vezes que todos os teóricos e filósofos importantes da Ciência Política eram observadores de seu tempo e faziam desta ação seu ofício. Observar, analisar e criticar eram as principais etapas na construção de suas teorias. Dessa forma, se Maquiavel antecipou-se ao criar o homem de virtù, sabedor da decadência do poder da Igreja Católica Romana que defendia o “mundo das verdades reveladas”, tanto Hobbes, quanto Locke atreveram-se a explicar certas particularidades promovidas pelo fim do feudalismo e início do capitalismo. Devemos recordar que a Inglaterra de Locke fora transformada em um império mercantil a partir da segunda metade do século XVI e que as alterações nas relações de força promovidas pelas novas relações políticas e comerciais da época contribuíram para a construção do pensamento político do período.

Recordemos, pois, desde o início da Ciência Política Moderna, o processo de construção do pensamento político a partir de Maquiavel.

Como disse, Maquiavel é marcado pelas inúmeras rupturas propostas em sua obra fundamental “O Príncipe”. A moral versus a política, a igreja versus a ciência, a virtù versus a fortuna; todas elas são dicotomias apresentadas para reforçar a negação de tudo aquilo que fizesse parte das influências da Igreja e da religião no campo político.

Lembrem-se de Bobbio, ao analisar Maquiavel, o qual afirmou que “Aquilo que é obrigatório em moral nem sempre é obrigatório na política, e aquilo que é licito na política nem sempre é licito na moral. Podem existir ações morais que são apolíticas e ações políticas que são imorais.” A objeção de Maquiavel às influências da igreja no campo político ocorrem ao mesmo tempo em que, nas palavras de Marco Mondaini, a legitimidade de uma sociedade hierarquizada, fundada em privilégios de nascença perdeu força. Agora, a questão não era mais como alcançar o Poder, mas sim, como mantê-lo após conquistado; em outras palavras, é possível estabelecer relações de força e aplicar a violência para vencer e conquistar, mas este mesmo procedimento se tornou ineficaz para fazê-lo subsistir.

Nos tempos em que o homem passa a dominar a natureza, a explicar seus principais fenômenos e a promover o pensamento científico em detrimento dos dogmas religiosos, a descoberta da verdade não mais dependia de forças espirituais, mas sim do esforço criativo do homem. Nessa linha, persistir com as teses de que o Poder era uma bênção para afortunados escolhidos por Deus tornou-se algo tão anacrônico quanto imaginar que a proteção divina destes líderes políticos justificaria suas ineficácias e arbitrariedades cometidas contra seus súditos.

Ao romper com o paradigma da legitimidade da posse do Poder baseada em princípios divinos, Maquiavel percorre, na política, um caminho irreversível cujos passos foram seguidos por outros pensadores dos séculos seguintes. O rompimento de Maquiavel proporcionou a autonomia que a política necessitava para se desenvolver e se transformar. Este processo de “libertação” do pensamento político também se revela nas diferentes formas de organização social, cujo marco simbólico pode ter sido o momento em que os indivíduos deixaram de ser súditos e transformaram-se em cidadãos.

Abrindo Caminho Para a Política Moderna- Hobbes e Locke

Nota Importante: Os posts da série “Abrindo o Caminho da Política Moderna” foram criados com o objetivo de facilitar o acesso dos leitores pouco acostumados às obras do pensamento político moderno, para que possam se sentir mais confortáveis no momento de ler os originais dos autores aqui citados. Não tem, portanto, a intenção de ser um texto que contemple todas as idéias e teorias dos clássicos, mas que possa, de alguma forma, oferecer os elementos cruciais para que, ao ler a obra original, a essência do pensamento de cada um seja imediatamente captada.


Parte 2: Hobbes e Locke

Escrever sobre Política é escrever sobre Poder, afinal, o que desejam os políticos, com boas ou más intenções? Change the World? Save the Planet? Save the Whales? Save the Children? Não! Achive Power!!! Sim, caros leitores, os Políticos querem o Poder e o problema dos cidadãos comuns, como eu e você, é pensar que obter e exercer o Poder são coisas reservadas somente aos Políticos. Quantos cidadãos vocês conhecem que pensam exatamente assim: imaginam que o exercício do poder só se realiza quando “se chega lá”!

Pois esta forma de pensamento típico de países despolitizados como o nosso não é uma novidade. De maneira diferente, Hobbes e Locke inauguraram esta discussão sobre a forma do exercício do Poder. Para meus alunos e ex-alunos vocês se lembram: tanto Hobbes quanto Locke são “contratualistas”. Na teoria hobbesiana, a humanidade passou de um período chamado “estado da natureza” para o “estado civil”. No “estado da natureza” não existiam regras, não existiam leis e eram todos contra todos (para tentar imaginar como eram as coisas, vá ao estádio de futebol em um domingo, sente-se naquela parte vazia da arquibancada que separa as torcidas do Palmeiras e do São Paulo ─ do Corinthians o exemplo não se aplica porque eles estão na segunda divisão ─ acaricie um pastor alemão da Polícia Militar, vista qualquer uma das camisetas e vá ao encontro da torcida contrária à cor da camiseta que estiver vestindo e descubra o verdadeiro “estado da natureza”). No processo das experiências históricas, o homem percebeu que um Poder soberano era necessário para garantir a paz social. Trata-se de um juiz que, baseado nas regras existentes, aplica a lei de forma soberana garantindo assim a justiça para todos. Essa é a teoria e este é o “estado civil”. Para fazer essa passagem histórica, o homem criou regras e leis, criou juízes e um grande aparato estatal destinado a exercer da melhor forma possível seu poder. Hobbes ilustrou essa passagem com a figura de um contrato. Para ele, a passagem do estado da natureza para o estado civil deu-se por meio de um contrato entre os homens fazendo com que o Estado fosse criado. Por isso ele é chamado de “contratualista”.

Locke concordou com essa tese e reafirmou suas bases ao escrever sobre o tema. Entretanto existem diferenças fundamentais entre Hobbes e Locke, pois se ambos concordam com a teoria da passagem do “estado da natureza” para o “estado civil”, ambos discordam absolutamente sobre as razões deste processo e a forma como o Estado moderno iria exercer o seu poder sobre o povo.

Antes, no entanto, de explicar quais as diferenças entre Hobbes e Locke, é importante fazer um alerta sobre a idéia da passagem do “estado da natureza” para o “estado civil”. Ainda que tenha a necessidade de ilustrar certas teorias, criando figuras e exemplos caricatos (como na brincadeira que fiz com o torcedor das arquibancadas), tenho uma especial preocupação em fazer com que meus alunos e leitores não compreendam as teorias dos clássicos como se fossem temas simples e usuais. Não. O tema, de fato, é complexo e exige por parte dos leitores algum poder de abstração. Isso serve no exemplo da passagem do estado da natureza para o civil. Em nenhum momento um troglodita, que minutos antes guerreava com outro troglodita, criou um contrato no papel em que ambos assinaram e saíram felizes com a existência do Estado Moderno. Hobbes, ao citar o “estado da natureza”, não está falando literalmente sobre indivíduos não civilizados, mas sim sobre o comportamento humano, independentemente do local ou do tempo. Trata-se de um retrato sobre a natureza humana e não sobre pessoas de carne e osso, enfim, o estado da natureza é uma forma de abstração do pensamento hobbesiano que serve para apoiar sua tese de que em algum momento na história, uma transformação social criou as primeiras instituições políticas, as quais foram representadas pelo que chamamos hoje de Estado Moderno.

Feita esta importante consideração, resta-nos voltar às explicações anteriores. O filósofo John Locke “dialogou” bastante com Hobbes. A diferença entre eles é que Hobbes defendia o poder absoluto e soberano de um líder político traduzido na figura do monarca despótico, ou seja, aquele rei que tudo pode e exerce seu poder sem limites. Para Hobbes, a autoridade absoluta era justamente o elemento que manteria as sociedades em paz, uma vez que a força era um elemento fundamental do exercício do poder político. Neste caso, o povo deveria temer e se sujeitar a esse poder. O poder do líder não era legitimado pelo povo, nem consentido, o poder do líder era baseado no medo e no terror impostos por meio da força.

Locke acreditava na tese da passagem do estado da natureza para o estado civil. Também entendia que o Estado Moderno, criado por meio de um pacto, viera com a função de manter a paz social e defender o povo das ameaças externas. Também concordava que para controlar os homens em “estado da natureza” deveria existir uma força maior que pudesse fazer o uso da violência exclusiva em nome da segurança de todos. As semelhanças com Hobbes não vão muito mais longe do que isso. Ocorre que se Locke aprecia a idéia da formação de um Estado com poderes para manter a paz social, ele entende que este Estado fora criado pelos próprios indivíduos e não algo imposto a eles como no modelo hobbesiano.

Locke entende que o estado da natureza não era algo ruim, pois na lei da natureza os homens são livres e iguais. O problema estava naqueles indivíduos que iam contra a lei da natureza, renunciando à razão e dando o direito a outros de castigá-lo. Essa idéia demonstra o ciclo vicioso em que cada integrante de um meio social que infringe as regras deve ser castigado e, dessa forma, ao ser castigado procurará vingar-se daqueles que o agrediram. A solução para interromper este tipo de processo auto-destrutivo é abrir mão de seu direito de fazer justiça entregando-o a um corpo político que representasse a maioria das pessoas, ou seja, o Estado.

Portanto, no caso de Locke, o Estado fora criado pelos homens, os quais abriram mão de seu poder individual de fazer e executar as regras e deram esse poder a uma instituição política maior. Neste caso, trata-se de um poder consentido, legítimo e baseado na escolha da maioria absoluta. Percebam a diferença entre Hobbes e Locke neste ponto. Ambos compartilham a idéia de um Estado que deverá usar a força e a violência para manter a paz social. A diferença está no fato de que um tipo de Poder é imposto e exercido por um só líder, enquanto o outro é legitimado pela maioria e compartido entre diferentes instituições, dentre elas um Parlamento.

Como já afirmei anteriormente, este texto pretende ser o ponto de partida para quem iniciará as leituras sobre esses autores ou uma forma de simplificar e facilitar a interpretação dos textos para aqueles que já leram, mas precisam de outras informações para fixar o tema ou clarear algumas idéias.

Na obra de Locke ainda existem temas muito importantes, com destaque para a questão da propriedade privada, a qual usarei de “gancho” para o texto sobre Weber e Marx.

quinta-feira, setembro 11, 2008

As Três Fases da Campanha Eleitoral

Fonte: Site da Revista Veja (www.veja.com)
Autor: Jairo Nicolau (Cientista Político e Professor do IUPERJ)

"A campanha eleitoral no Brasil dura oficialmente três meses. Ao logo deste período, o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação varia e os candidatos criam diferentes estratégias para suas campanhas. A partir da experiência de outras eleições, considero que as campanhas eleitorais para os cargos do Executivo possam ser divididas em três fases distintas.

A primeira fase vai do começo de julho, quando as candidaturas são oficializadas, até meados de agosto, quando começa o horário eleitoral no rádio e televisão. Nessa fase, que dura aproximadamente seis semanas, surgem os primeiros sinais de campanha de rua, mas o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação pela disputa ainda é reduzido. Lembre que essa fase coincide, ora com a Copa do Mundo, ora com as Olímpíadas. As pesquisas feitas durante esse período apresentam altíssimo contingente de indecisos e tendem a favorecer os nomes de candidatos mais conhecidos do eleitor.

A segunda fase começa com a propaganda no rádio e televisão e vai até meados de setembro. É o momento que a campanha começa para valer nas maiores cidades. O horário eleitoral e os comerciais de 30 segundos durante a programação ampliam o conhecimento dos eleitores dos candidatos que estão na disputa. Nessa fase, os candidatos intensificam a propaganda de rua e o espaço da cobertura da campanha nos meios de comunicação é sensivelmente ampliado. Ao fim deste período, a maioria dos eleitores já têm conhecimento dos nomes que concorrem e o número de indecisos tendem a cair drasticamente. As pesquisas feitas no fim deste período já captam o padrão mais geral da disputa.

A última fase da campanha vai de meados de setembro ao dia das eleições. Nessas três últimas semanas, cresce significativamente o interesse dos eleitores pela disputa,. Esses passam a assistir com mais freqüência o horário eleitoral e aos eventuais debates entre os candidatos. Entre 20% e 30% dos eleitores costumam chegar a essa fase ainda indecisos (com maior concentração na população mais pobre e menos escolarizada). Por isso, ainda existe margem para as "surpresas" de última hora. Essa é sempre a esperança -- e na maior parte das vezes, a ilusão -- dos candidatos.

Creio que este esquema resuma, em linhas gerais, o padrão geral das campanhas para o Executivo no Brasil. Mas estou consciente da existência de diferenças de ritmos da política em cada uma das cidades. Uma fator fundamental que distingue as cidades é a existência de canais locais de televisão para veicularem o horário eleitoral. Outro é o tamanho da população. Em cidades pequenas os candidatos não tem a mesma dificuldade de se fazerem conhecer, e o papel da relações pessoais é bem maior.

Estamos nos aproximando do fim da segunda fase da campanha. Os resultados das pesquisas para algumas capitais aponta favoritos inequívocos, com alta probabilidade de vencerem já no primeiro turno. Por exemplo: Beto Richa (PSDB), em Curitiba; João da Costa (PT), no Recife; Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte. A disputa está aberta e deve ser emocionante em Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Fortaleza. Em todas essas últimas o alto contingente de indecisos aumenta as chances de surpresas de última hora."

Tendências das Campanhas Eleitorais

Estamos em plena campanha eleitoral, porém, definitivamente, as eleições para prefeitos e vereadores de todo o país passa por uma interessante mudança. As novas regras do jogo eleitoral, que incluem mais restrições ao uso do poder econômico para angariar votos, transformou a lógica com que os candidatos devem buscar seus votos.
A possibilidade de realizar mega eventos com a participação de "mega" artistas e a possibilidade de realizar trabalhos de construção de imagem via o uso intensivo, e em escala, de recursos de comunicação tradicionais facilitava o acesso do candidato ao universo do eleitor.

A despeito do tempo da TV continuar a ser o elemento fundamental das campanhas eleitorais, novas frentes de trabalho surgiram. Destaco o uso mais intenso da internet e o que vou chamar de "corpo-a-corpo terceirizado".

A internet representa o futuro das eleições que, combinada com a estratégia do horário eleitoral gratuito, deverá servir como fonte primordial de informações sobre os candidatos, já na próxima década (ou seja, no pleito de 2016), desde que a taxa de crescimento de acesso à rede mantenha-se no ritmo atual.

Outra estratégia que já se mostra como realidade é a idéia do "corpo-a-corpo terceirizado". A gigantesca escala na quantidade absoluta de eleitores, combinada com a restrição para produzir certos materiais de campanha, fará com que a mensagem do candidato, acompanhada dos pedidos de voto, tenha que chegar diretamente ao eleitor, por meio de um interlocutor qualificado e muito bem treinado. Antigamente, o conceito de corpo-a-corpo era definido como aquele contato direto do candidato com os eleitores, os quais incluem o discurso na porta da fábrica as 6 da manhã, o cafézinho magro do meio da tarde, os tapinhas nas costas, apertos de mão, abraços, risadas e demais "xamegos" feitos para os eleitores. Como prevalece a idéia de que não existe ninguém melhor para pedir votos do que o próprio candidato, o objetivo do "corpo-a-corpo terceirizado" seria reproduzir a capacidade de comunicação do candidato em grupos de cabos eleitorais altamente qualificados.

Em muitas campanhas, os "multirões qualificados" utilizarão pessoas com maior grau de escolaridade, melhor capacidade de articulação e amplo conhecimento da realidade política e social das regiões que visitam. Essas pessoas deverão conversar diretamente com o eleitor e, ao fazer isso, comportar-se com o mesmo comprometimento do candidato que representam, ou seja, se o candidato não consegue apertar a mão de cada cidadão pessoalmente, ele deverá tentar reproduzir seu aperto de mão e seu "dedo de proza" em escala. A figura do entregador de panfletos e dos porta estandartes, vulgarmente conhecidos como "seguradores de bandeira" deve ser cada vez menos importante durante as eleições e parte dos recursos economizados em gráficas, brindes, shows e camisetas deverá ser dirigida para a contratação e treinamento das pessoas com o perfil que citei acima.

Se a eleição é convencimento, nada melhor do que articular TV-Internet-conteúdo em ações de marketing que possam transmitir mensagens melhor elaboradas e mais verdadeiras.

Outra tendência interessante, a qual veremos, também, na próxima década é o conceito da "campanha sustentável" ou "eleições limpas". Neste caso não estamos citando a limpeza como honestidade, honradez e ética, mas sim como asseada e ecológicamente correta. Uso de materiais alternativos e papel reciclado, além da restrição a pintura de muros (a tinta possui elementos tóxicos) são algumas das armas que estarão disponíveis nas próximas eleições.

Entre a limpeza ética e a limpeza das ruas eu fico com a primeira, mas se ainda não podemos exigir tanto de boa parte da classe política, ao menos desejamos ver campanhas mais asseadas e comprometidas com a sustentabilidade e com o conteúdo das idéias.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Crônica de um Ônibus que Voa (Parte 1)

Nada melhor do que retomar os trabalhos de nosso blog, este preguiçoso, com um texto leve, porém verdadeiro. Trata-se de uma história real, vivida por alguém que, não se sabe ao certo a razão, sempre atrai para si as situações mais inusitadas.

Quando cheguei ao saguão de embarque do Aeroporto Internacional de Bogotá, percebi que meu vôo seria povoado pela raça de gente mais peculiar do planeta: a nossa! Pés sobre as cadeiras, pessoas deitadas ocupando 3 ou 4 poltronas, gargalhadas estridentes, gritos, palavrões, migalhas de salgadinhos pelo chão e crianças histéricas correndo. Todos os jovens sentados e todos os idosos em pé. Seguramente se tratava de um saguão tomado por brasileiros.

Respirei fundo e disfarcei minha nacionalidade o quanto pude. É que me dá vergonha, entendem?! Pois bem, com o cheiro de chulé pelo ar (brasileiro não consegue ficar mais de 30 minutos em um ambiente como aquele sem tirar o sapato), abri meu livro e tentei me concentrar. Impossível, claro.

Minutos depois a mocinha do sistema de som convidou os passageiros em cadeiras de rodas, idosos e de primeira classe a entrar na fila em primeiro lugar. Todos eles ficaram por último. Ao primeiro som da voz em que dizia algo como: Atenção passageiros do vôo de número 0650, uma turba se lançou sobre a porta de entrada se acotovelando e terminando de pisar nos doces e salgados que haviam jogado no chão minutos antes.

Uma família composta por pai, mãe e 3 filhos chegou primeiro, apesar do mais novinho ter ficado para trás, sua babá, toda de branco, tentou amparar a criança desconsolada. Um casal de meia idade, com a mochila da CVC, era empurrado pela massa, enquanto outra família com pinta de aristocrática se queixava da bagunça; naquele instante percebi outra família, ainda maior tentando organizar seus bilhetes. Paaaaiiiii, seu bilhete está comigoooo! Cadê a Vovó? Gente a vovó sumiu! Caio, devolve meu iPod! Mãe, não acho minha mochila!

Percebi imediatamente que aquelas não eram pessoas, eram personagens.

Finalmente entrei na aeronave e descobri com um certo prazer que meu assento era o primeiro da segunda metade do avião, de maneira em que não tinha nenhum outro assento à minha frente e isso me permitiria esticar minhas longas pernas. Minha satisfação se desfez assim que percebi que os banheiros também estavam na minha frente. Tive o ímpeto de perguntar qual o nome do infeliz que colocou aqueles banheiros justo ali, mas logo percebi que seria inútil.

Tudo bem, vamos voar. Voar? Não, impossível. O avião não sai do solo enquanto todos os passageiros não se acomodarem e essa tarefa é praticamente impossível quando mais de 80% dos habitantes do "obitáculo aeronáutico" têm, em suas bagagens, um passaporte com a palavra “Brasil” impressa na capa. Reparei que a babá de branco estava na primeira fileira, do lado esquerdo, à minha frente. Ela sentou-se, apertou o cinto e respirou fundo, levantando os ombros e fazendo o sinal da cruz. Depois virou-se para a patroa e perguntou se estava na hora da mamadeira. Não, não estava.

O casal da mochila da CVC sentou-se ao meu lado e logo que apertaram o cinto ele lembrou que havia esquecido seus óculos.

Levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, retirou a caixa de óculos, abriu o recipiente, extraiu suas lentes de seu interior, fechou a caixinha, guardou na mochila da CVC, fechou o zíper, colocou-a de volta no compartimento de bagagem, fechou o compartimento, pediu licença e sentou.

A família da vovó perdida resolveu que queriam, todos... vou repetir... TODOS, mudar de lugar. Assim, a mãe trocou com o filho, o pai com a filha mais nova, a filha mais nova queria ficar ao lado da prima, que trocou com o irmão, que cedeu lugar à mãe e foi se sentar junto da irmã mais velha, que já havia trocado de lugar com os tios que queriam sentar no corredor, sendo que as janelas foram ocupadas pelos adolescentes do grupo e, depois de toda a troca, a vovó ficou em pé. Sim, a vovó não sabia mais qual era seu assento e perdera seu bilhete. Uma reunião de emergência foi convocada pelo pai da família e assim todos se levantaram novamente para, em frente ao banheiro, descobrir onde fora parar o bilhete da avó.

Enquanto eu tentava escutar a discussão, o senhor da mochila da CVC se lembrou que havia esquecido de pegar seu livro. Então levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, retirou o livro, fechou o zíper, colocou-a de volta no compartimento de bagagem, fechou o compartimento, pediu licença e sentou.

A babá sorria amarelo para a patroa e perguntava: tá na hora da mamadeira? Não. Não estava. Então o comandante da espaçonave começou a repetir pelo auto-falante que não poderia decolar se os passageiros não se sentassem. As comissárias de bordo corriam de um lado para o outro pedindo para todos se acomodarem. A família da vovó decidiu fazer um sorteio dos lugares e esperar todos se sentarem para saber qual era a poltrona que estava faltando.

Minutos depois todos se sentaram. O avião então começou a se mover e então o senhor da mochila da CVC... bem, vocês sabem. Ele resolveu trocar os óculos que pegara anteriormente por outro de lente para leitura. Então levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, realizou toda a operação, pediu licença e sentou. Neste momento a comissária, pela enésima vez, pediu para ele e as demais pessoas sentarem.

Então o Boeing da Avianca alcança a cabeceira da pista e inicia a aceleração para seu deslocamento do solo. Quando o avião está em plena aceleração, irrompe pela porta do banheiro o filho do casal aristocrático, segurando as calças e correndo em direção ao seu assento, enquanto a comissária pedia, já com a paciência no limite, para que o moleque sentasse. O avião decola, as luzes estão praticamente todas apagadas. Eu ouço o ruído do trem de pouso sendo recolhido e, em pleno alçar vôo, com a aeronave ainda em forte vertical, aparece a babá com duas mamadeiras nas mãos, fazendo um sorriso para a comissária sentada em uma daquelas cadeiras retrateis da tripulação perguntando se ela poderia esquentar a água.

Definitivamente foi uma das cenas mais inacreditáveis que vi em minha vida. A babá, toda de branco, sorrindo para a comissária, com uma mamadeira em cada mão sendo alegremente sacudidas para que pudessem chamar a atenção e auxiliar na comunicação com a estrangeira que, atônita, arregalou os olhos de uma forma que eu nunca havia visto em minha vida. E a babá dizia: água quente?! Água quente?!

(continua...)

Crônica de um ônibus que Vôa (Parte 2 - Final)

A aeronave levantava vôo, a babá de branco dobrava o joelho direito para compensar a inevitável força da gravidade que empurrava seu corpo para o fundo da aeronave e, naquele momento, rasgando todos os manuais de atendimento ao cliente, a comissária, quase aos gritos, mandou a babá retornar ao seu assento. Incrivelmente, quando estava prestes a se sentar novamente, a babá deu meia volta, foi em direção à comissária e perguntou sorrindo: mas depois você esquenta a água, né?!

Deu para ver as veias dos olhos da comissária encharcadas de sangue pulando em direção à babá!

Então o senhor da mochila da CVC pensou alto: hiiii... esqueci meus comprimidos. Simultaneamente, eu, sua esposa e a comissária gritamos: Depois você pega!!!!

Um pouco sem graça com meu destempero, enfiei minha cara no livro que estava lendo: “Uma Breve História do Mundo”. Seu autor descreve, entre outras coisas, os avanços da humanidade em milhares de anos de história. Descrente, adoraria vê-lo sentado em meu lugar observando aquela bagunça. Duvido que falaria em desenvolvimento humano!

O avião atinge sua velocidade de cruzeiro, as luzes se acendem, a babá volta a pedir água quente, o senhor da CVC levanta-se para buscar seus comprimidos e as pessoas todas já circulam, só de meias (claro!) pela aeronave. A vida voltou ao normal.

Tento dormir. Há um ruído estranho à minha frente. Ele se repete com freqüência, mas meu sono não me deixa localizá-lo. Meus olhos lutam, cheios de areia, meu sono é insaciável e meu auto-controle diminui. Não posso dormir, nem ficar desperto. Os ruídos são intermitentes. Então aproveito a presença da comissária e peço um café. Prontamente atendido, consigo finalmente localizar a origem do barulho que não me deixava dormir: a porta do banheiro! Sim, a porta do banheiro fora freneticamente testada durante os primeiros minutos de vôo. Reparei que todos queriam entrar no cubículo.

Abro uma nova fonte de observação. Como o movimento era intenso naquela área, fecho os olhos e começo a contar quantas vezes a porta foi aberta, fechada e travada. Calculei que em um espaço de 30 minutos o dispositivo do trancamento da porta foi acionado 23 vezes. Multiplico esta quantidade por dois (são dois banheiros), depois pelas horas de vôo, divido pelo número de passageiros e chego a conclusão que, mantido o ritmo inicial, cada pessoa teria que ir 2,9 vezes ao banheiro até o final da viagem. Descontando as crianças a bordo que usavam fraldas e a vovó perdida que provavelmente também vestia o mesmo aparato, porém na versão geriátrica, cheguei à estarrecedora conclusão de que cada passageiro iria ao menos 3 vezes ao banheiro ao longo do percurso. Então me perguntei: que diabos colocaram na porcaria da refeição a bordo???

Mas o problema não é a comida, mas sim esse “faniquito” descontrolado que brasileiro tem em se mexer. Qual é a dificuldade de se manter sentado? Qual o problema em permanecer tranquilo, lendo um livro, apreciando uma bebida e calçado? Mas não! Tem que correr no corredor, contar piadas em alto e bom som, fazer guerra de bolinha de meia e reclamar que o país está uma bagunça!

Em meio a toda essa balbúrdia o pai da família aristocrática encontra-se em frente ao banheiro com seu colega, o patriarca da família da vovó. Este reclama que tem que pagar propina ao governo para fazer suas obras. Ele é engenheiro, mas não teme em construir uma imagem ruim de sua empresa publicamente. Coincidentemente o outro também é engenheiro e assim ambos constroem um diálogo pouco concreto e em blocos, sendo que cada empreendimento intelectual de um, acaba sendo incorporado pelo outro, ainda que a metragem dos raciocínios seja mínima.

Nessa linha, o aristocrata solta a seguinte tese: o problema da queda da Bolsa de Valores de São Paulo é esse monte (sic) de taxistas que agora compram ações! Esperem! Silêncio Total! Vocês leram isso?! O problema da queda da bolsa é dos taxistas! Gênio! Grandioso! Sublime! Jamais teria pensado em uma construção intelectual tão precisa, tão bem amalgamada com um raciocínio concreto de primeira linha e fundição baseada na melhor matéria prima! Estava lá a resposta para minhas indagações! Consigo até ver a Fátima Bernardes, fazendo cara de preocupada enquanto lê no prompt: “O Banco Central anunciou medidas para conter a entrada dos taxistas na Bolsa de Valores. A partir da próxima semana a categoria poderá estacionar seus veículos no máximo a 300 metros da entrada da porta principal. Estão proibidos também de operar na Bolsa e comprar ou vender ações de quaisquer tipos. Com esta medida o governo acredita que a economia brasileira irá suportar a saída de investimentos e, ao mesmo tempo garantir a estabilidade dos mercados mundiais.” Aí vem o comentarista: “É verdade, após sofrer fortes quedas, a Bovespa pretende impedir a patuléia da classe média de investir em ações. Tudo começou com os taxistas, mas os analistas já se preocupam com a chegada de outras categorias, como as de lojistas, profissionais liberais e aposentados. A consultora financeira “Gold Money Wealth” fez uma interessante pesquisa em que dizia que pobre e classe média tem mesmo é que pagar impostos, comprar geladeira nas Casas Bahia, comer Maçã do Amor no Parque da Mônica e deixar os investimentos da Bolsa de Valores para os ricos”. É o fim do mundo.

Neste momento, o piloto anunciou que iniciara os preparativos para o pouso. A viagem chega ao fim com um efusivo aplauso dos passageiros. Tudo parece novamente tranqüilo e normal. A família aristocrática se arrumou no banheiro e saiu toda perfumada. O senhor da mochila da CVC perdeu os óculos dentro do avião.

Finalmente saio da aeronave, mas minha mala demora para chegar. Todos se vão. Menos eu. Olho em volta e por um vidro do saguão vejo um fio de luz da manhã irrompendo pela madrugada. Finalmente minha mala azul chegou. Retiro-a da esteira lentamente. Vou em direção à saída, mas algo me chama a atenção. Olho para trás e lá estão elas.

A vovó, provavelmente esquecida por sua família, toma leite em uma mamadeira amparada pela babá de branco. As duas estão descalças rodando em cima da esteira de bagagens de número 4.

Lá fora pego um táxi e puxo conversa com o motorista. Tento falar sobre futebol, mas ele só quer conversar sobre a Bolsa de Valores.

sexta-feira, julho 04, 2008

Pausa...

Darei uma pequena pausa para este cansado blog.
Farei uma viagem.
Sozinho.
Para pensar na vida.
Me hospedarei em um hotel de militares equatorianos. Depois visitarei um campo de exploração de petróleo deste mesmo país, na selva amazônica, em uma área onde pode estar escondido um naco das FARC (e espero sinceramente que eles não me levem a mal por detestá-los!).
Ficarei uns dias em uma tribo indígena.
Depois vou para a Colômbia. Pousarei em Bogotá, mas acho que ficarei por lá, procurando a
Shakira em algum bar e cantando:
"Estoy aquí queriéndote,
Ahogándome entre fotos y cuadernos
Entre cosas y recuerdos
Que no puedo comprender
Estoy enloqueciéndome
Cambiándome un pie por la cara mía
Esta noche por el día
Que nada le puedo yo hacer."

É isso.

Se achar que possa ser interessante eu envio umas fotos e uns relatos.

Um forte abraço a todos!

quinta-feira, julho 03, 2008

Prestem Atenção: Tem muito babaca triste pela derrota das FARC

Não há a menor dúvida de que a espetacular operação militar liderada pelo governo Colombiano e apoiada sabe-se lá por quais outros governos (certamente entre eles o norte americano) deixou muita gente triste. Nesta lista aparecem figuras como Marco Aurélio Garcia (uma das desgraças nacionais), Fidel Castro, Rafael Correa, Hugo Chaves, intelectuais de esquerda e tantos outros babacas espalhados pelo mundo. Que tristeza ter que suportar a emoção de uma mãe sequestrada e enclausurada durante quase 7 anos abraçando seus filhos. Que lástima enfrentar a dura realidade de ter menos 15 prisioneiros nas mãos dos narcoguerrilheiros, apesar de ainda existirem mais de 600. Que deplorável pensar que o Terror das FARC se enfraqueceu ainda mais. Deve causar bastante dor imaginar que o sonho da "igualdade", "democracia" e "justiça social" buscado pelos combatentes armados, com financiamento da cocaína e dos petrodólares de Chaves, tenha levado um de seus piores golpes dos últimos tempos.
Eu lhes dou razão! É lamentável ter que defender suas idéias em eleições democráticas. É chato ter que discutir diferentes pontos de vista políticos em um plenário cheio de parlamentares eleitos pelo voto popular. É enfadonho seguir essas regras chatas que a burquesia criou para eleger os representantes dos cidadãos. Melhor mesmo é seqüestrar, ameaçar, explodir bombas, explorar as mazelas humanas e executar com um tiro na cabeça esses homens e mulheres que defendem esse absurdo de democracia e esse mercado cruel. Pois é... o mercado é cruel, mas as FARC não! As Farc são revolucionárias, destemidas, corajosas! Enfrentam com galhardia todo um sistema capitalista impiedoso e o mais importante é que não estão sozinhas nesta luta! Trata-se de uma corrente mundial formada pelos bacanas que fumam maconha enquanto discutem o problema da violência, pelos motoristas que colam o adesivo de Che em seus carros, que sequer existiriam se Che tivesse vencido. Pela turma das universidades públicas, cujas mulheres passam a semana vestidas de saionas coloridas e alternativas, discutindo os malefícios do sistema capitalista, mas que gostam de passear aos finais de semana no Shopping Iguatemi para relaxar e preparar o corpo e a mente para o retorno à luta na segunda-feira.
Neste mundo não existem santos e ingênuos. Não existe a luta do "bem" contra o "mal". Afinal, quem é do bem e quem é do mal? As FARC são o que são: uma organização criminosa que utiliza os sequestros e o tráfico para financiar seu projeto revolucionário em busca de uma "sociedade justa". Neste caso, como em tantos outros, é só uma questão de escolha. Pois entre a ação das FARC e as mentiras de Bush eu escolho não ficar com ninguém. Mas entre a "democracia capitalista" e a "democracia comunista" (será que isso existe?) eu prefiro a primeira opção, sem dúvida! Entre o debate dentro de regras estabelecidas com liberdade de imprensa e a chantagem criminosa que fizeram com Ingrid Betancourt eu escolho a primeira opção.

quarta-feira, junho 25, 2008

Ruth Cardoso lançou sementes do Bolsa Família, diz acadêmico

Fonte: BBC
25/06/2008 - 09h26

"Para o professor e cientista político Anthony Hall, da London School of Economics (LSE, Escola de Economia de Londres), a contribuição da ex-primeira dama e antropóloga Ruth Cardoso, falecida na terça-feira em São Paulo, ajudou a mudar os rumos da política social no Brasil.

"Ela foi uma peça fundamental na idéia de unir os vários programas sociais e de transferência de renda dos anos 90 em um único programa", disse Hall em entrevista à BBC Brasil.

O acadêmico explica que vários programas locais de combate à pobreza se espalharam pelo país na década de 90, especialmente no nível municipal, em cidades como Campinas, Belo Horizonte, Blumenau, Vitória e outras localidades.

Ele acredita que essas iniciativas teriam culminado com a criação do Bolsa Escola, em Brasília e, mais tarde, na adoção do Bolsa Família como um programa nacional do governo brasileiro.

Segundo ele, Ruth Cardoso teria sido quem impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país e teria sido ela quem persuadiu o então presidente Fernando Henrique a adotar esse sistema unificado em nível nacional.

"Muitas pessoas acreditam que ela foi de fato a primeira pessoa que pensou na idéia do Bolsa Família, apesar de o programa não ter esse nome na época. Mas essa idéia de unificar os programas, criar uma economia mais equilibrada e eficiente, foi exatamente o que Lula fez quando assumiu o governo em 2003", disse.

Para Hall, por essas razões é possível afirmar que Ruth Cardoso foi uma das pessoas mais influentes para a mudança de direção nas políticas sociais do Brasil a partir da década de 90.

Ruth Cardoso era doutora em antropologia pela USP, fez pós-doutorado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos e foi professora em faculdades americanas e inglesas.

Figura pública
O acadêmico afirmou ainda que a figura pública de Ruth Cardoso como primeira-dama durante o governo de Fernando Henrique é inseparável de sua imagem como acadêmica e intelectual.

"Ela foi uma primeira-dama eficiente justamente porque ela era uma acadêmica muito respeitada e podia falar com autoridade. E quando ela falava, as pessoas ouviam", afirmou o professor.

Já para o professor e ex-diretor do Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, David Lehmann, Ruth Cardoso não era uma mulher de político nos padrões convencionais.

"Como figura pública, ela era muito independente do marido", afirmou Lehmann à BBC Brasil.

De acordo com Anthony Hall, Ruth teria transformado o papel de primeira-dama no Brasil, já que, ao contrário de esposas de presidentes anteriores e, inclusive da mulher do presidente Lula, Marisa, ela teria sido uma figura pública importante e não teria ficado apenas nos bastidores.

"O apelo carismático de Ruth Cardoso entre a classe média e a camada mais pobre da população se deve justamente à sua preocupação pela questão social", disse Hall."

Ruth: altivez decorosa

Fonte: Portal Veja.
Blog do Reinaldo Azevedo.
25/06/08, 06:07h

"Morre uma parte da civilidade, da inteligência, do rigor intelectual, da discrição, da altivez decorosa. Ruth Cardoso foi uma das melhores pessoas que conheci — escrevo isso como jornalista, não como amigo ou pessoa que privasse da intimidade do casal Cardoso, o que nunca aconteceu. Em junho de 1997, há exatos 11 anos, a revista República dedicou-lhe uma capa: era uma entrevista que eu havia feito com ela.

Foi um encontro agradável, ameno, sereno. Seu marido, o então presidente Fernando Henrique, ela própria e o Comunidade Solidária, programa que presidia e ao qual continuou a dedicar boa parte de seu tempo mesmo depois que FHC deixou o poder (aí com o nome de Comunitas), eram alvos dos ataques da esquerda petista os mais boçais. Tentei arrancar dela uma palavra mais dura contra os detratores. Nada! Imperturbável, serena, expressava a convicção de que o presidente estava criando as bases para tirar o país do atoleiro do Terceiro Mundo e do terceiro-mundismo e defendia com energia o aspecto não-assistencialista do Comunidade Solidária. E estava certa nos dois casos. Ruth sabia ser dura sem ser estridente.

Nada a irritava mais — e ela se encarregou de proibir tal tratamento — do que ser chamada de “primeira-dama”. Por que não? Ela me explicou: “Porque é uma tradução muito literal, imediata, do termo em inglês, que tem história. Não passaria pela cabeça de ninguém, nos EUA, dizer que não gosta da expressão first lady. Aqui no Brasil, dama não é um termo que se use...” E foi adiante, explicando que a expressão, em nosso país, designava um outro tipo de mulher. Segundo Ruth, a mulher de presidentes e chefes de governo, na modernidade, “são profissionais, pessoas que têm independência intelectual e pessoal”.

Pois é...

Ela tinha, sim, tal independência intelectual e pessoal, como sabem todos aqueles que privaram da intimidade do casal Cardoso: diante do presidente, do marido, do PSDB... Não era do tipo que condescendesse com o interlocutor para ser agradável. De uma educação sempre exemplar, sabia discordar e dizer “não”, quando necessário, sem ambigüidades.

Não faz três meses, os tontons-maCUTs que tomaram a política de assalto tentaram enredá-la numa acusação de uso irregular do dinheiro público. Quando ficou claro que o governo havia feito um dossiê para tentar jogar na lama o seu nome e o do marido, tanto ela como FHC pediram que se desse plena publicidade aos gastos. Dilma Rousseff, de quem se fala bastante abaixo, ligou para a sua casa para negar, vejam só, a existência do dossiê. E, no entanto, ele existia.

Era, em suma, a voz do avesso do que Ruth sempre foi: transparente, austera, de caráter reto, hostil a chicanas, sem jamais precisar desdizer no dia seguinte o que dissera no anterior. Ao telefone, Dilma tentou tranqüilizá-la à sua maneira: que Ruth ficasse tranqüila: os gastos continuariam sob sigilo. A interlocutora da ministra era gente de outra cepa. E ficou foi bastante intranqüila com tão generosa promessa: afirmou à ministra que ela, Ruth, fazia questão de que tudo fosse divulgado. Porque nada havia a esconder. A mulher de FHC, em suma, não tinha segredos a serem guardados por Dilma Rousseff.

Ruth tinha dois stents no coração. Era uma paciente cardíaca, o que pouca gente sabia porque ela jamais permitiu qualquer zona de ambigüidade entre a vida privada e a sua atuação pública. Ainda que fosse desprovida de todas as outras óbvias qualidades, tinha uma que faz uma falta imensa ao país: decoro. É isto: Ruth morreu, e o país ficou menos decoroso."

sábado, junho 21, 2008

No Brasil o Amanhã é Hoje

Como não tenho tido tempo de escrever, ao menos consigo ler coisas interessantes. Para quem lê em espanhol, publico abaixo um texto do jornalista Michael Reid, editor da Seção As Américas, do jornal The Economist. Normalmente os articulistas escrevem bobagens sobre o Brasil sempre cheias de preconceitos e idéias prontas, normalmente desconectadas de nossa realidade, experiência histórica, cultura e costumes. Dessa vez, no entanto, achei interessante esta análise político-econômica sobre como alguem que parece bem qualificado enxerga o país. Este exercício é interessante, pois serve, entre outras coisas, para um exercício de auto-crítica. O texto é em espanhol, traduzido por Jesús Cuéllar Menezo.
Quem preferir ler em inglês, basta acessar: http://www.economist.com/specialreports/la

Segue o texto em espanhol.

"Hace un par de meses, cuando Luiz Inácio Lula da Silva habló ante una Economist Conference reunida en Brasilia, estaba exultante. Durante más de una hora ofreció a una audiencia compuesta de hombres de negocios chistes y un verbo florido para transmitir un sencillo mensaje. Dijo que su fórmula política consistía en ser "conservador en economía" y "audaz en política social".

Es una fórmula que está dando sus frutos. Después de haberse librado de los escándalos de corrupción que afectaron a su Partido de los Trabajadores (PT) y que estuvieron a punto de costarle la reelección, Lula no sólo cabalga a lomos de la popularidad, sino que Brasil está comenzando a ser tomado en serio como nueva potencia económica y política. Cuando en 2003 los economistas del grupo Goldman Sachs juntaron a Brasil con Rusia, la India y China (el grupo "BRIC"), señalando que estos países dominarían la economía mundial alrededor de 2030, muchos rezongaron, apuntando que la aletargada economía brasileña no podía estar en ese club.

Sin embargo, su crecimiento alcanzó un respetable 5,5% el año pasado, su divisa y sus cuentas públicas se han fortalecido y la inversión exterior alcanza niveles sin precedentes. Dos organismos dedicados a la evaluación de riesgos crediticios concedieron hace poco un "grado inversión" a la deuda garantizada por el Estado brasileño. A diferencia de China y Rusia, Brasil cuenta con una democracia boyante, aunque caótica, mientras que su renta per cápita es siete veces mayor que la de la India. En la actualidad, muchos extranjeros ven en el país al líder de América Latina, que merecería estar presente en el Consejo de Seguridad de la ONU y en el G-8.

Hace tiempo que el potencial de Brasil está claro, pero el país rinde sistemáticamente por debajo de sus posibilidades. Se dice que Charles de Gaulle, después de una visita celebrada en 1960, declaró que había llegado a la conclusión de que Brasil "no era un país serio". O milagre brasileiro, el cuarto de siglo durante el cual Brasil creció al ritmo de China, principalmente con gobiernos militares, terminó con la crisis de la deuda de 1982. A continuación, Brasil perdió pie durante una década. En comparación con el resto de la región, su transición a la democracia se produjo con lentitud y a trompicones.
Sin embargo, a comienzos de la década de 1990 los gobiernos brasileños comenzaron a abrir su protegida economía, dominada por el Estado. El Plano Real de Fernando Henrique Cardoso domeñó finalmente la inflación, tras una épica batalla que precisó una profunda reforma de las cuentas públicas, difícil desde el punto de vista político.

Para sorpresa de algunos, Lula decidió partir de los éxitos de Cardoso. Ha concedido independencia completa al Banco Central do Brasil y, a pesar de las quejas del PT, no intervino cuando éste subió los tipos de interés para sofocar una escalada inflacionaria en 2003. Tampoco es probable que lo haga ahora, cuando el banco vuelve a subir los tipos para controlar una nueva arremetida de la inflación, originada por el incremento mundial de los precios de los alimentos y el combustible. El Gobierno se atiene a sus objetivos presupuestarios, reduciendo poco a poco la deuda pública.

Está claro que Brasil se beneficia enormemente del auge de los precios de las materias primas. Desde 2003, el alza del precio del hierro y de la soja ha ayudado a duplicar el valor total de sus exportaciones, pero gracias a la eliminación de las barreras arancelarias la industria brasileña se ha hecho mucho más competitiva. Las compañías del país se atreven a salir al extranjero. Embraer construye un avión en China, Vale se ha convertido en la segunda empresa minera del mundo y otras firmas brasileñas son líderes en el sector agroindustrial. Si en la actualidad China es el taller del mundo e India la oficina de su trastienda, Brasil es su granja.

También tiene posibilidades para ser una superpotencia energética. El etanol brasileño de caña de azúcar, a diferencia del subvencionado etanol de maíz producido en Estados Unidos, es eficiente en términos económicos y medioambientales. Brasil dispone de tierra más que suficiente para incrementar su producción tanto de etanol como de alimentos sin tocar la selva amazónica. Para colmo, Petrobras acaba de descubrir en las costas brasileñas enormes yacimientos de petróleo y de gas, aunque es cierto que se encuentran a gran profundidad.

La democracia ha reportado beneficios sociales y económicos. Aquí también Lula partió de las políticas sociales de Cardoso y amplió la Bolsa Família, gracias a la cual en la actualidad 11 millones de familias muy pobres reciben pequeñas subvenciones en metálico. Las cantidades se entregan a las madres, a condición de que se comprometan a que sus hijos vayan al colegio y se sometan a revisiones médicas. Gracias a un enorme incremento de los medios docentes todos los pequeños asisten a la escuela primaria, y ahora alrededor del 70%termina el ciclo de secundaria.

Estas iniciativas, unidas a una escasa inflación y a un rápido crecimiento, han reducido los índices de pobreza, que han pasado del 48% en 1990 al 33% en 2006. Hasta la distribución de la renta brasileña, tristemente famosa por su desigualdad, está mejorando. Según los cálculos de la asesoría McKinsey, entre 2000 y 2005 unos ocho millones de familias (alrededor de 40 millones de personas) se sumaron a las clases medias. La estabilidad económica conlleva que esa gente puede conseguir préstamos para comprarse una casa, un coche y otros productos de consumo duraderos, con frecuencia por primera vez.

Junto a todo este progreso, existen problemas muy arraigados. Entre ellos destacan los crímenes violentos, en algunos casos vinculados con el tráfico de drogas. El sistema judicial es lento e ineficiente. La normativa laboral que, basada en la Carta del Laboro mussoliniana, no se ha reformado desde que se implantó, constituye un elemento tremendamente disuasorio a la hora de contratar trabajadores, salvo en la burocracia federal, que Lula ha ampliado innecesariamente. La carga fiscal, que representa un 36% del PIB, es tan elevada como la de muchos países desarrollados, aunque los servicios públicos son mucho peores. Décadas de inversión estatal insuficiente significan que las infraestructuras, sobre todo los puertos y las carreteras, dejan bastante que desear. Por otra parte, la enseñanza básica es de mala calidad: según el Informe PISA, en las pruebas científicas los niños brasileños tuvieron resultados un 20% inferiores a los rusos.
Lo peor es que el sistema político dificulta la movilización de mayorías para impulsar cambios. En las elecciones de 2006 no menos de 21 partidos obtuvieron escaños en el Congreso Nacional. Durante la primera legislatura de Lula, el PT echó por tierra la promesa de hacer política de manera ética cuando sus líderes sobornaron a decenas de diputados para que les votaran. En ocasiones, Lula habla de reformas fiscales, políticas e incluso laborales, pero poco ha hecho por llevarlas a cabo. Para muchos economistas tendría que haber utilizado la bonanza generada por las materias primas para reducir con más decisión tanto la deuda pública como los impuestos.

La política exterior de Brasil también presenta claroscuros. El país se ha convertido en una gran potencia diplomática comercial, pero comparte con Estados Unidos y la UE el fracaso de la Ronda de Doha. Durante su primera legislatura, las políticas suramericanas de Lula fueron bastante ingenuas. A pesar de que Hugo Chávez le ganó la partida cuando acompañó a Evo Morales en su nacionalización de las operaciones de Petrobras en Bolivia, el Gobierno brasileño animó a Venezuela a unirse a Mercosur. En la segunda legislatura, Lula se ha mostrado más pragmático. Pero a muchos demócratas latinoamericanos les gustaría que Brasil apoyara con más decisión a la atribulada democracia colombiana.

El progreso de Brasil durante los últimos 15 años se ha basado en un paciente desarrollo de consensos democráticos y ésta es la razón por la que parece sostenible. El crecimiento brasileño, a diferencia del venezolano, se basa más en la inversión privada que en el gasto público. Al contrario que Argentina, Brasil no está permitiendo que la inflación ponga en peligro la estabilidad económica. Con sus múltiples defectos, en muchos sentidos, Brasil está comenzando a comportarse como un país serio.

Michael Reid es el editor de la sección de Las Américas de The Economist. Su libro El Continente olvidado: la lucha por el alma de América Latina será publicado en España por Editorial Belacqva. Traducción de Jesús Cuéllar Menezo.

terça-feira, junho 03, 2008

Barack Obama quer evitar racha entre democratas; ouça cientista político

Fonte: Folha de São Paulo

Barack Obama inaugurou uma nova frente de trabalho. A sua tentativa agora é de apaziguar os ânimos dentro de seu partido e selar algum tipo de pacto que possa evitar o racha definitivo entre os democratas, que entrarão combalidos, ainda que confiantes na disputa com John McCain.

As informações são do cientista político Luiz Renato Ribeiro Ferreira, professor das Faculdades Integradas Rio Branco, de São Paulo. Para saber mais e ouvir o Podcast, recorte e cole o link abaixo (não consegui incluir o link diretamente):
http://www1.folha.uol.com.br/folha/podcasts/ult10065u407948.shtml

Conheça também o especial da Folha sobre as eleições americanas:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/eleicoesnoseua/

sábado, maio 24, 2008

Jefferson Péres

Morreu nesta sexta-feira, por volta das 6 horas, em Manaus, o senador Jefferson Perez. Aos 76 anos o senador amazonense ainda lutava bravamente pela ética na política. Creio que a maioria de meus pequenos leitores não sabem nada sobre ele. Entendo que os dois discursos que postarei abaixo representam leitura obrigatória, principalmente para jovens descrentes na política. Ambos discursos, um de 2006 e o outro de 2008 (seu último discurso) são as melhores portas para adentrarmos o coração e a mente de um dos últimos políticos com espírito público do Brasil. Infelizmente, para quem ler seus discursos, a porta de entrada será a mesma da saída.

Discurso de Jefferson Péres (2006)

Pronunciamento do Sen. Jefferson Peres em 30.08.2006 no plenário do Senado Federal.

"Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, depois de uma longa ausência de algumas semanas, volto a esta Tribuna para manifestar o meu desalento com a vida pública deste País.

Gostaria de estar aqui discutindo, a respeito das riquezas naturais do Brasil, e não como falarei, sobre algo muito pior: a dilapidação do capital ético deste País.

Senador José Jorge, poderíamos não ter um barril de petróleo nem um metro cúbico de gás, mas poderíamos ser uma das potências mundiais em termos de desenvolvimento.

O Japão não tem nada. Não tem petróleo, gás ou riquezas minerais. A Coréia do Sul também não tem nada disso, e nos dá um banho em termos de desenvolvimento não apenas econômico, mas também humano.

O que está faltando mesmo a este País e sempre faltou é uma elite dirigente com compromisso com a coisa pública, capaz de fazer neste País o que precisaria ser feito: investimento em capital humano.

Vejam que País é este. Estamos aqui com seis Senadores em pleno mês de agosto, porque estamos em recesso branco. Por que não se reduz a campanha eleitoral a trinta dias e transfere-se o recesso de julho para setembro? Nós ficaríamos com o Congresso aberto, de Casa cheia, até 31 de agosto. Faríamos trinta dias de campanha em recesso oficial, remunerado.

Estamos aqui no faz-de-conta. Como disse o Ministro Marco Aurélio, este é o País do faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa sem trabalhar. Estou em Manaus há quase um mês, recebendo, sem fazer nada " para o Congresso Nacional, pelo menos. Como se ter animação em um País como este com um Presidente que, até poucos meses atrás, era sabidamente " como o é " um Presidente conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu neste País e este Presidente está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro turno? É desinformação da população? Não, não é. Se fizermos uma enquete em qualquer lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que o Presidente sabia de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A crise ética não é só da classe política, não. Parece que ela atinge grande parte da sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer que ele volte. Democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas inconformado. Esta será uma das eleições mais decepcionantes da minha vida. É a declaração pública, solene, histórica do povo brasileiro de que desvios éticos por parte de governantes não têm mais importância. Isso vem até da classe dos intelectuais, dos artistas. Que episódio deplorável aquele que aconteceu no Rio de Janeiro semana passada! Artistas, numa manifestação de solidariedade ao Presidente, com declarações cínicas, desavergonhadas! Um compositor dizer que "política é isso mesmo, fez o que deveria fazer", o outro dizer que "política é meter a mão na 'm...'"! Um artista, em qualquer país do mundo, é a consciência crítica de uma nação. Aqui é essa, é isso que é a classe artística brasileira, pelo menos uma grande parte dela, é o povo conivente com isso.

E pior, pior ainda: os artistas estão fazendo isso em interesse próprio, porque recebem de empresas públicas contratos milionários - isso é a putrefação moral deste País - , e o povo vai reconduzir o Presidente porque "política é isso mesmo".

Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Ele pode ser eleito com 99,9%. Eu estarei aí na tribuna dizendo que ele deveria ter sido mesmo destituído.

O que ele fez é muito grave. É muito grave. Curvo-me à vontade popular, mas não sem o sentimento de profunda indignação. A classe política já nem se fala, essa já apodreceu há muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o pior de que já participei. É a pior legislatura da qual já participei. Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível intelectual e moral tão baixo, eu nunca vi. O que se pode esperar disso aí? Não sei. Eu não vou mais perder o meu tempo. Vou continuar protestando sempre, cumprindo o meu dever. Não teria justificativa dizer que não vou fazer mais nada. Vou cumprir rigorosamente o meu dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá não quero mais voltar, não!

Um País que tem um Congresso desse, que tem uma classe política dessa, que tem um povo... dizem que político não deve falar mal do povo. Eu falo, eu falo. Parte da população que compactua com isso? É lamentável. E que sabe. Não é por desinformação, não. E que não é só o povão, não. É parte da elite, inclusive intelectual. Compactuam com isso é porque são iguais, se não piores. Vou continuar nessa vida pública? Para quê, para mim, chega!

Vou continuar pelejando pelos jornais e por todos os meios possíveis, mas, como ator na vida política e na vida pública deste País, depois de 2010, não quero mais! Elejam quem vocês quiserem! Podem chamar até o Fernandinho Beira-Mar e fazê-lo Presidente da República - ele não vai com o meu voto, mas, se quiserem, façam-no.

O meu desalento é profundo. Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso, perdendo ou não votos " pouco me importa". Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a quatro anos, profundamente desencantado com ela.
Muito obrigado, Sr. Presidente".

Discurso de Jefferson Péres (2008)

Este é o último discurso do Senador Jefferson Péres, antes de sua morte. Foi proferido na Tribuna do Senado Federal e seu objetivo era comentar uma matéria recentemente publicada pelo "The New York Times", sobre a Floresta Amazônica.

"Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, o correspondente no Rio de Janeiro do jornal The New York Times publicou uma matéria, ontem ou anteontem, com o título: “Amazônia, de quem é afinal?”

O texto insinua, levanta mais uma vez a tese da soberania relativa do Brasil sobre a região, que poderia no futuro ficar sob jurisdição internacional.
Normalmente eu não dou importância a essas manifestações, Sr. Presidente. Acho que muitos brasileiros sofrem de complexo de inferioridade e dão muita importância ao que é publicado nos jornais da Europa e dos Estados Unidos, uma atitude de quem ainda olha quase que com veneração os países mais desenvolvidos.

Pergunto-me se um membro do congresso americano subiria à tribuna para comentar matéria publicada em jornais do Brasil, seja O Globo seja a Folha de S.Paulo. Creio que não. Por que, então, eu subo à tribuna para comentar matéria do The New York Times? Porque vejo muitos brasileiros preocupados, mandando e-mails, pedindo uma resposta àquele jornal. Respondo por isto, apenas por isto, como satisfação a esses brasileiros, porque eu mesmo não dou maior importância ao que é publicado lá ou na Europa.

Por isso, creio que, longe de reagirmos enraivecidos ou mostrando medo de uma possível internacionalização da Amazônia, devemos replicar com bom humor, no mesmo tom, respondendo ao correspondente do jornal americano o que disse certa vez o Senador Cristovam Buarque numa universidade americana. Quando um universitário perguntou-lhe se a Amazônia, pela sua importância para o equilíbrio climático mundial, não deveria ser internacionalizada, o Senador Cristovam respondeu ao seu aparteante: “Eu até concordaria em debater a internacionalização da Amazônia se os Estados Unidos admitirem debater a internacionalização da Califórnia, por exemplo”.

A Califórnia é um Estado que está ameaçada por encontrar-se sobre a falha geológica de San Andreas e um dia pode sofrer um megaterremoto. Os Estados Unidos estarão cuidando bastante da Califórnia para evitar essa catástrofe? Quem sabe a ONU não poderia cuidar disso. Ou o Alasca? Esse Estado, em sua maior parte, está situado acima do Círculo Polar Ártico, onde se faz exploração de petróleo com risco de graves acidentes ambientais. Por que não se discutir a internacionalização do Alasca? A um francês se diria: “Paris é uma cidade importante demais para ficar apenas sob soberania francesa; uma cidade que, pela sua beleza, pelo seu patrimônio histórico e arquitetônico, deveria estar também sob jurisdição internacional.”

Assim poderíamos responder a todos, de qualquer país, nesse tom de deboche, Sr. Presidente, porque não se pode levar a sério a tese da internacionalização da Amazônia. Primeiro: por quem seria feita a internacionalização? Pela ONU? A Carta da ONU não dá poderes a essa organização para retirar território de nenhum país. Isso não encontra amparo jurídico. A ONU não pode fazer isso. Quem faria a internacionalização? Uma intervenção americana? Não seria internacionalização, seria uma invasão, seria um ato imperialista impensável, Senador Garibaldi Alves, e absolutamente impossível no contexto do mundo atual. O Brasil não é Iraque nem Afeganistão. O Brasil é um país com uma economia hoje pujante, com uma democracia consolidada, em pleno Ocidente, um país cada vez mais respeitado em todos os foros internacionais. Alguém imaginaria possível uma intervenção militar americana para retirar de nossa soberania a Amazônia? Isso é impensável, Senador Garibaldi Alves.

No entanto, essas manifestações com essa tese absurda, em defesa dessa tese absurda, nos devem levar a refletir sobre a nossa responsabilidade.
A Amazônia brasileira é nossa e continuará sendo sempre. Mas nós temos uma enorme responsabilidade sobre aquela região, da qual eu sou oriundo e que eu represento nesta Casa, Sr. Presidente.

Há três situações-limite que podem levar, sim, a comunidade internacional a ser muito cobradora do Brasil. A primeira situação-limite seria uma devastação florestal, um holocausto ecológico que chocaria o mundo inteiro.

A segunda situação-limite seria, como está acontecendo no Estado do Amazonas, um processo de pauperização que levará aquela população, fatalmente, se não houver um processo de desenvolvimento com eqüidade social, a ficar, logo, logo, refém do narcotráfico, situada ali na fronteira do Peru e da Colômbia, porque, à falta de meios de sobrevivência, será presa fácil das organizações criminosas que usam o Amazonas como rota de passagem. A terceira situação-limite seria nós realmente, com o nosso descaso habitual nas áreas de educação e pesquisa, sentarmos em cima da mais rica biodiversidade do Planeta, não pesquisarmos, e não deixarmos que pesquisem.

O Brasil, por ter soberania sobre a Amazônia, não tem o direito de não procurar investigar, pesquisar e aproveitar, em benefício da humanidade, toda a riqueza do bioma amazônico.
Se não fizermos isso, se não deixarmos que outros pesquisem, estaremos sendo irresponsáveis também.
Portanto, Sr. Presidente, é isso que pode acontecer de ruim para nossa região.

Quanto à proposta de internacionalização, Senador João Pedro, é sair para o deboche mesmo. Quando os americanos quiserem internacionalizar, vamos internacionalizar a Califórnia, a França; vamos internacionalizar Paris.
Concedo-lhe o aparte, Senador João Pedro.

O Sr. João Pedro (Bloco/PT – AM) – Senador Jefferson Péres, V. Exª faz uma reflexão sobre a Amazônia e sobre a importância do debate internacional. Venho dizendo que nós, do Brasil, precisamos cobiçar mais essa grande região, que é estratégica. Concordo com V. Exª: politicamente, não há hoje condições de haver uma intervenção territorial, internacional, de qualquer país. Politicamente, não há. Agora me preocupa – e por isso falo que precisamos cobiçar mais a Amazônia – a falta de investimento nas pesquisas. O nosso Inpa, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, precisa ter um orçamento mais robusto – e melhorou este ano! –, precisa de mais atenção, precisa cumprir uma função mais estratégica. Estou falando não só do Inpa, na Amazônia, mas das nossas universidades federais. A presença das Forças Armadas também faz parte desse contexto no sentido de ocupar a Amazônia, mas dando uma função social e estratégica para essa região. Outra questão que venho levantando é o fortalecimento da OTCA, organização que também é importante não só para o Brasil, mas para juntar todos os países que compõem a nossa Amazônia. Militarmente, politicamente, não há conjuntura para isso. Agora, há outra forma de ir ferindo, maculando a nossa Amazônia: a pirataria. Daí a importância de as nossas instituições de vigilância ali terem mais recursos; precisamos ampliá-las. O Sivam/Sipam foi uma conquista para a Amazônia. Há avanços importantes, mas precisamos ter mais recursos, mais planejamento, principalmente o planejamento entre os nossos Ministérios; uma ação mais coordenada com foco sobre os interesses da Amazônia. A Amazônia continua estratégica, é importante para o povo brasileiro, para os países amazônicos e para o mundo. Agora, ela é nossa! E concordo com as observações de V. Exª sobre essa coisa de ser patrimônio da humanidade. Ela é patrimônio brasileiro e pode servir, sim, à humanidade, com mais pesquisa, com mais conhecimento. Então, parabenizo V. Exª pela reflexão que faz sobre esse território tão bonito, tão importante, tão presente para o Brasil.

O SR. JEFFERSON PÉRES (PDT – AM) – Obrigado, Senador João Pedro. V. Exª tem razão nos três pontos que focalizou em seu aparte.
Em primeiro lugar, o Brasil precisa investir maciçamente em pesquisa. Agora mesmo recebi expediente do Ministro da Ciência e Tecnologia sobre o aumento de dotações para o nosso Inpa. Nós, a bancada, já temos uma reunião agendada com ele para pedir que o Inpa seja ainda mais prestigiado pelo Governo Federal. Não só o Inpa, mas os centros de biotecnologia, por exemplo, e as universidades federais.

O segundo ponto a que V. Exª se referiu é a presença maior e no sentido social das Forças Armadas.

Senador João Pedro, creio que – e já disse isso ao Ministro da Defesa, Nelson Jobim – os efetivos, principalmente do Exército, entre as três Armas, deveriam ser multiplicados na região, não apenas para a defesa do arco de fronteira, mas para se transformarem em agentes comunitários a percorrerem todos os beiradões, levando assistência às populações ribeirinhas.

Em terceiro lugar, a OTCA, Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, criada há 30 anos. Temos uma secretaria executiva aqui, em Brasília, Senador João Pedro, e a OTCA não sai do papel. Como se fala tanto em integração da América do Sul, tanto em desenvolvimento da Amazônia, e não se dá uma ação efetiva para fazer a integração, realmente, Senador Garibaldi Alves, da chamada Panamazônia?

Meus compatrícios, deixem de se assustar tanto com a suposta internacionalização da Amazônia. Isso não vai acontecer. Agora, por favor, acionem as autoridades brasileiras para cuidarem melhor da região. Não tenho tanto medo da cobiça internacional sobre a Amazônia. Tenho medo da cobiça nacional sobre a Amazônia, da ação de madeireiros, de pecuaristas e de outros que podem provocar, repito, o holocausto ecológico naquela região".

quarta-feira, maio 14, 2008

Crise dos Alimentos (Parte 3)

Alemanha


Família Melander de Bargteheide.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 500.07 (dólares americanos).

USA




Família Revis da Carolina do Norte
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 341,98 (dólares americanos).

ITÁLIA




Família Manzo da Sicília
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 260.11 (dólares americanos)

MÉXICO





Família Casales, de Cuernavaca.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 189.09 (dólares americanos).

POLÔNIA





Família Sobczynscy, de Konstancin-Jeziorna
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 151.27 (dólares americanos)

EGITO



Família Ahmed, do Cairo.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 68.53 (dólares americanos)

EQUADOR




Família Ayme, de Tingo.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$31.55 (dólares americanos)

BUTÃO




Família Namgay, da vila de Shingkhey.
Despesa com alimentação em 1 semana: US$ 5,03 (dólares americanos).

CHADE





Família Aboubakar, do campo de refugiados de Breidjing.
Despesa com alimentação por semana: US$ 1,23 (dólares americanos).

domingo, maio 04, 2008

Crise dos Alimentos (Parte1)

Já vou avisando: os textos serão longos.
A culpa pela falta de alimentos não é da Cana! É da incompetência e da hipocrisia generalizadas! Os preguiçosos podem parar por aqui, mas quem quiser realmente saber quais as bases que usarei para defender a frase anterior (em negrito), terá que ler a seqüência com os próximos três posts sobre o assunto.

Crise dos Alimentos (Parte 2)

Antes de debruçar-me sobre dados, pesquisas e números, farei uma ressalva utilizando como base uma teoria da Ciência Política chamada "Teoria da Escolha Pública". O que está acontecendo com a crise dos alimentos pode ser muito bem explicado com o uso dessa teoria, a qual demonstra como os grupos de interesse, cada qual defendendo suas demandas, podem, simultaneamente, perder todas as suas batalhas.

A crise dos alimentos é um exemplo bem acabado de como os interesses pelo Etanol, a pressão de agricultores europeus, a defesa de subsídios dos governos ricos, os programas de ajuda humanitária aos países pobres, os preços do petróleo e a dinâmica dos mercados agrícolas resultou em uma espécie de jogo de soma zero, em que no final o conjunto dos atores sai, todo ele, perdendo. Alguém poderia refutar esta afirmação dizendo que os países produtores de petróleo, por exemplo, nunca ganharam tanto dinheiro. Entretanto e apesar disso, se o cenário da crise dos alimentos se transformar em um problema sem controle, até mesmo os poderosos da indústria do petróleo perderão, ainda que menos, muito menos, do que aqueles que estão do outro lado da cadeia: os miseráveis que passam fome há muito tempo e que, diga-se de passagem, também perdem há muito tempo.

Vamos à teoria e certamente quem entender entenderá, se é que me entendem!

A Teoria da Escolha Pública , disciplina relativamente nova da Ciência Política (ou da economia), trabalha com o uso de conceitos e ferramentas próprias da economia como forma de análise para a política e os serviçoes públicos. É excessivamente simplista afirmar que na escolha pública, “um político é visto como mais um agente que tem como objectivo maximizar o seu bem estar, e não como um servidor altruísta dos interesses do público em geral.” Porém, esta definição pode ser um primeiro passo para delimitar o centro das atenções de seus teóricos.

Pensamento de cunho liberal, a Teoria da Escolha Pública trabalha com a “desromantização” da política, com as falhas de governo e com uma visão eminentemente economicista para assuntos diversos, tais como as políticas de bem-estar social promovidas pelos governos. Estudiosos dessa linha de pensamento mostraram que os governos não corrigem facilmente as falhas de mercado; eles normalmente tornam as coisas piores. “A razão fundamental é que informações e incentivos que permitem que os mercados coordenem as atividades e necessidades humanas não estão disponíveis para os governos. Assim, eleitores, políticos burocratas e ativistas que acreditam estar promovendo o interesse público são levados por uma mão invisível a promover outros tipos de interesses.”

Essa afirmação, ainda que com seu conteúdo de verdade o qual é impossível mensurar neste momento, não deve ser tratada como a realidade absoluta referente aos resultados finais das ações do setor público. É certo que devemos distinguir os graus de eficácia conforme as estratégias adotadas para a consecução dos objetivos, bem como por meio da análise dos processos utilizados para resolver problemáticas diferentes existentes na sociedade de modo geral. Portanto, decidir que a ação da burocracia é incompetente na mesma medida para solucionar o problema de evasão nas escolas públicas, para tratar do uso de drogas por parte da população adolescente e para oferecer equipamentos gratuitos de qualidade para os idosos é colocar em uma mesma seara todas as formas de gestão para assuntos tão diversos. Dessa forma, ao tratar de modo geral de algumas idéias dos teóricos da escolha pública temos que partir do pressuposto de que os resultados finais das intervenções dos governos são diferentes, principalmente se levarmos em conta a natureza dos problemas, os processos com que foram “resolvidos”, a estrutura (humana e material) utilizada para a consecução dos projetos e ações e até mesmo as convicções políticas dos governos, as quais podem ser diferentes dependendo do tipo de problema a ser enfrentado, como é o caso, por exemplo, da Dengue, a qual exige esforços dos governos federal, estaduais e municipais, os quais não são necessariamente alinhados ideológicamente uns com os outros.

O modelo de política e democracia da escolha pública presume que a política seja um sistema que consiste em quatro grupos de tomadores de decisões, quais sejam, os eleitores, os eleitos ou políticos, os burocratas e os grupos de interesse. Parte-se da presunção tácita de que cada grupo irá buscar seus interesses da melhor forma possível e que tal choque nem sempre soluciona o problema de todos, ao contrário, tende em algumas situações a fazer com que todos percam. Os políticos buscam votos, os burocratas buscam mais recursos por meio de orçamento e, ao mesmo tempo, maior segurança no trabalho e eleitores e grupos de interesse buscam mais riqueza e renda. Presume-se ainda que cada grupo busque algo que esteja em outro grupo como, por exemplo, políticos que buscam votos dos eleitores e grupos de interesse; eleitores que buscam serviços de políticos e burocratas; burocratas que procuram obter maiores receitas provenientes dos eleitores-contribuintes e dos políticos e assim sucessivamente. No modelo da escolha pública presume-se, também, que cada indivíduo controle um determinado tipo de ativo. “Cada um tem seu interesse pessoal e é orientado por um certo propósito, cada um se engaja em um processo decisório racional. Infelizmente e precisamente ao contrário de mercados com direitos de propriedade bem definidos e defensáveis, os processos políticos têm certas propriedades que diminuem a eficiência e desencorajam a harmonia entre os auto-interesses. Ao presumir agentes políticos auto-interessados, estamos simplesmente dizendo que a maioria das pessoas se identifica mais facilmente com suas próprias do que com as de outras pessoas.”

Contudo, o mundo não é um poço de egoísmo, onde as pessoas insensíveis e individualistas, busquem seu próprio bem indiscriminadamente e a qualquer custo. A sociedade, formada por sistemas e sub-sistemas, é uma imensa rede de relações muitas vezes afetivas, as quais promovem em situações distintas o pensamento da caridade, da troca, do afeto e do querer bem. Ocorre que normalmente tais sentimentos se restringem aos grupos isolados ou mesmo para pessoas muito próximas, em que as relações de afeto são mais intensas. É usual uma mãe despertar preocupada com o casamento de sua filha. Um amigo inventar uma maneira de agradar o outro por seu aniversário. Um marido tentando solucionar um problema de saúde de sua esposa ou mesmo colegas de trabalho se reunindo para emprestar dinheiro para aquele companheiro em situação difícil. Pouco usual é uma mãe despertar preocupada com o casamento do Presidente da República, dois amigos reunidos em uma festa de aniversário pensando em estratégias para aumentar as receitas correntes do Governo Federal, um homem comum buscando solucionar a problemática do atendimento do SUS ou um grupo de colegas criando alternativas para acabar com os conflitos pelo Petróleo no Oriente Médio.

O que defendem os teóricos da escolha pública basicamente é que a maioria das pessoas se identifica muito mais com suas próprias preocupações do que com as preocupações das outras pessoas. Nessa linha, temos que os grupos de interesse e seus sub-grupos acabam por defender seus auto-interesses em detrimento das necessidades e demandas da sociedade como um todo. É mais que certo que em sociedades democráticas nem todos os grupos serão contemplados quando da tomada de decisão por parte dos gestores. Mas também é certo que as regras estipuladas pelo sistema, tais como as maiorias simples e maiorias absolutas, por definição, implicam na existência de vencedores e perdedores, ou seja, aquele que perdeu deve, em respeito às normas e à regra do jogo, respeitar as decisões e ao mesmo tempo garantir a manutenção desse sistema.

Aliás, um dos problemas do sistema democrático é justamente o desequilíbrio dessas forças, pois quando apenas um grupo deve arcar com o ônus das decisões, este grupo tende a questionar os métodos utilizados pela democracia, deixando de apoiar o sistema em sua totalidade, simplesmente pela percepção de que jamais terá suas demandas atendidas pelo Estado.

Se realizarmos uma observação simples sobre a história do século XX nos países da América Latina e as relações de seus povos com a democracia, será facilmente perceptível o fato de que nos momentos de crise, os principais grupos e seus atores sociais viviam em excessivo estado de desequilíbrio de forças, o que gerou reações por parte dos perdedores e contra-reações por parte daqueles soberanos que, ao se sentirem ameaçados, recorreram aos golpes de Estado, aos métodos mais perversos e desumanos de perseguições e demais barbáries perpetradas contra seus inimigos.
Em um ambiente de estabilidade política institucional o jogo de forças dos grupos dominantes não cessa jamais, pois este movimento faz parte mesmo da dinâmica da vida social e política das nações. É pouco questionada atualmente a idéia de que são, de fato, algumas elites as responsáveis por todos os processos decisórios referentes ao bem público. A dúvida está no fato de como tais elites se organizam e como suas decisões são afetadas pelos grupos de interesses.

De qualquer forma, se você resistiu até o fim, já pode vislumbrar os parâmetros estabelecidos pela Teoria da Escolha Pública para entender como foi possível criar as condições para a existência dessa crise. No próximo post, utilizando números e dados estatísticos, poderemos vislumbrar melhor a idéia de que os efeitos alcançados das políticas em diferentes campos nem sempre são aqueles almejados por todos.

Obs.: Todas as citações feitas neste post vêm das obras:
- MITCHELL, Willian C. & SIMMONS, Randy T. Para Além da Política. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
- ALVES, André A. & MOREIRA, José M.: O Que é a Escolha Pública. 1ª Edição. Cascais. Principia. 2004.

terça-feira, abril 29, 2008

... mas agora está difícil

Quem conhece este blog há mais tempo já sabe: se eu passo uma semana sem postar é normal; se eu fico duas semanas é estranho; se eu fico três semanas é preocupante, mas quando chega a quase um mês é porque a situação está feia... muito feia para meu lado!
Mas quando passa de um mês, meus amigos, significa que está tudo (quase)perdido!
Tenho coisas a escrever sobre alguns temas e vou começar com "A Hipocrisia da Crise dos Alimentos". Estou reunindo um material interessante para vocês!

terça-feira, março 25, 2008

Assim Fica Fácil

No penúltimo post eu citei frases do autor moçambicano, Mia Couto. Disse que elas haviam sido enviadas para mim por uma amiga chamada Eva, repito, uma das mulheres mais interessantes e inteligentes que conheci em minha vida.
Sou um tipo sortudo! Amigos inteligentes é o que não me falta e por isso nossa vida intelectual vai ficando cada vez mais complicada de um lado, pois essas pessoas nos obrigam a ler muito ou ao menos o suficiente para que possamos trocar algumas palavras sem parecer desmiolados; enquanto que por outro lado, vamos aprendendo um pouco mais sobre o mundo e a existência e, neste aspecto, a vida fica muito mais fácil.
Nessa lista de gente inteligente que freqüento existe uma outra figura, por sinal engraçadíssima, que destaco neste post. Seu nome é Adauto Damásio. Historiador, o mestre e amigo Damásio nos diverte na hora do almoço no quiosque ao lado da piscina da matriz da Anhanguera Educacional, enquanto nos conta as maiores barbaridades sobre assuntos, digamos, aleatórios, para emprestar um termo utilizado por Jô Soares.
Adauto Damásio acaba de ter um texto seu publicado no Blog do Noblat, um dos melhores blogs de política do Brasil e o mais visitado. Coincidentemente, o texto trata da chegada da corte portuguesa ao Brasil, tema que estamos trabalhando no curso de Estudos Inter. Já pedi a ele que permitisse a publicação do texto em meu blog, o qual foi gentilmente autorizado.
Evidentemente também já fiz um convite para que ele possa fazer uma palestra na faculdade sobre o tema para vocês.
Segue o texto no próximo post.

A Corte Portuguesa e as eleições municipais em 2008

Fonte: Blog do Noblat
Autor: Adauto Damásio

O ano de 2008 marca o bicentenário da chegada da Família Real no Brasil. Mais do que um exemplo histórico que marcou o início do efetivo processo de independência brasileira, marca também o início da bandalheira nacional com o dinheiro público e o predomínio do poder executivo sobre os outros poderes.

Como sabemos, D. João VI, o governo e toda a corte portuguesa fixaram sua sede no Rio de Janeiro em função das pressões militares do governo napoleônico. Fugindo dos vendavais dos ideais liberais gerados na Revolução Francesa e consolidados no governo de Napoleão Bonaparte, o príncipe-regente português buscou refúgio na colônia para dar continuidade ao seu governo absolutista.

No período em que Dom João VI governou Portugal, Brasil e as outras possessões do império português a partir do Rio de Janeiro (1808-1821), foram instalados os pilares fundamentais do Estado Nacional que surgiria mais tarde (a partir de 1822) com a independência.

Quais eram as características desse Estado Absolutista, reproduzido no Brasil e herdado por D. Pedro I após a independência? Em primeiro lugar, o poder absoluto do rei era inquestionável, garantido pelo apoio do clero e nobreza com o apoio financeiro da burguesia comercial. Nos regimes políticos absolutistas, por princípio, não há parlamento.

Em segundo lugar, e não menos importante, o Estado absolutista português assentava seu poder a partir do apoio de uma vasta, cara e corrupta burocracia de Estado. Tal burocracia era recrutada a partir dos privilégios do nascimento ou a partir da simples compra dos cargos. O Estado não existia, no absolutismo, para resguardar qualquer direito da sociedade, mas sim os direitos de nascimento dos que possuíam o privilégio de estar próximos da corte.

Assim, foram preenchidos os cargos dos funcionários do Banco do Brasil, das Bibliotecas Públicas, das escolas superiores, entre tantas outras instituições públicas criadas no período joanino. Assim, nasceu um Estado que suga os recursos da sociedade e serve a si mesmo.

Em 1822, quando a independência política se apresentou como única solução para as elites agrárias brasileiras, o pacto com Dom Pedro assegura uma separação conservadora na qual nenhuma transformação significativa irá ocorrer: mantém-se a estrutura exportadora e a base escravista da produção agrícola. Mais do que isso, Dom Pedro I utiliza-se da já instalada máquina de Estado montada por seu pai.

A despeito de alguns espasmos liberais, as elites agrárias do país recém independente apoiaram as pretensões autoritárias de Dom Pedro I até o momento em que lhe foi conveniente, assegurando para si o poder político a partir de 1831, com a abdicação do rei. O interregno “republicano” entre 1831 e 1840 marca o período de grande tensão e guerras internas. Em 1840, a solução política pacificadora leva Dom Pedro II ao poder a partir de um rearranjo político.

Raimundo Faoro foi o mais brilhante analista do Estado brasileiro. Fugindo das mesmices e jargões comuns do marxismo dos anos 60 e 70, buscou inspiração em Max Weber para interpretar o Brasil a partir dos elementos da sua cultura política.

Assim, a tese principal no livro Os Donos do Poder é a de que o poder político na história do Brasil não foi exercido para atender os interesses das classes agrárias nem da burguesia, mas sim em causa própria por aqueles que dominavam a burocracia do Estado. Em outras palavras:

“Era, em termos de Weber, um “estamento burocrático”, que tinha se originado na formação do Estado português dos tempos dos descobrimentos, senão antes, e que se reencarnaria depois naquilo que ele chamaria de o “patronato político brasileiro”. 0 estamento burocrático tinha tido sua origem no que Weber denominava de “patrimonialismo”, uma forma de dominação política tradicional típica de sistemas centralizados que, na ausência de um contrapeso de descentralização política, evoluiria para formas modernas de patrimonialismo burocrático-autoritário, em contraposição às formas de dominação racional-legal que predominaram nos países capitalistas da Europa Ocidental. A contribuição de Faoro aqui vai além da utilização dos conceitos weberianos e da interpretação que deu do sistema político brasileiro: ela consiste, fundamentalmente, em chamar a atenção sobre a necessidade de examinar o sistema político nele mesmo, e não como simples manifestação dos interesses de classe, como no marxismo.”

(Simon Schwartzman, in: http://www.schwartzman.org.br/simon/faoro.htm)

Assim, a velha e carcomida tese de que o Estado representa em qualquer situação histórica os interesses da classe dominante deixa de ter preponderância na análise da história do Estado brasileiro, pois é preciso “examinar o sistema político nele mesmo”.

Examinando o sistema político brasileiro nele mesmo, durante todo o período republicano até nos dias de hoje, temos uma constatação trágica para a cidadania: o Estado continua com a mesma lógica de existência de seus primórdios de formação.

Tal lógica de um Estado voltado para si mesmo aparece de forma absoluta em suas estruturas, regulação e funcionamento. No Brasil, nada ou muito pouco das instituições que deveriam ser voltado para público, de fato o é.

Na terra de Cabral, os poderes legislativos e executivos, em todos os níveis da federação, existem para contemplar os interesses de seus integrantes, parlamentares e funcionários. O poder judiciário organiza-se mais para defender interesses coorporativos do que para aplicar a justiça. Sindicatos se organizam e agem apenas com o objetivo de garantir interesses políticos, seus projetos de poder e os interesses corporativos de seus afiliados. Associações de médicos servem para defender os interesses dos médicos. Eleitores votam em função de seus interesses particulares.

Na terra de Cabral, até as Organizações Não-Governamentais (ONGs) servem aos objetivos privados na promíscua relação com o Estado. Na terra de Cabral, a sociedade pouco se organiza e quando o faz, na maioria das vezes, é para o benefício próprio dos que constituem a “confraria dos espertos”. Dinheiro público continua a ser dinheiro de ninguém.

O caso do parlamento brasileiro é o mais notado pela mídia e discutido nas ruas. Afinal, para que serve uma Câmara de Vereadores ou uma Assembléia Legislativa? Sabemos que suas funções centrais giram em torno da produção das leis e da fiscalização dos atos do poder executivo. Mera teoria.

No Brasil, com eleitores e políticos irresponsáveis, o poder legislativo torna-se ora um grande balcão de negócios particulares, ora um poder subserviente ao executivo por conta das benesses oferecidas aos seus membros, ora uma grande empresa improdutiva montada para empregar os amigos e garantir a continuidade no poder por meio dos mecanismos de favor e do clientelismo.

Não importa a ideologia ou o partido político. As antigas facções de esquerda e direita, expressões horrorosas e inadequadas para o mundo contemporâneo, participam da mesma lógica no exercício do poder: ele existe para que seus ocupantes se locupletem de privilégios e garantam interesses particulares. Claro, usando o dinheiro público advindo do trabalho dos indivíduos que trabalham e geram riqueza.

Tomemos como exemplo as Câmaras Municipais. Tomemos como exemplo mais específico a Câmara Municipal de Valinhos/SP. Ela consumiu R$ 4.502.504,20 no ano de 2006. Tais recursos foram usados para a manutenção de 10 vereadores. Em média, cada vereador custou aos cofres públicos a quantia de 450.250,42 ao longo de um único ano parlamentar. Não há justificativa para tamanho descalabro. Não há motivação suficiente para que os gastos sejam tão escandalosos. E pasmem, os vereadores consideram os recursos insuficientes...

A Câmara Municipal de Valinhos pode realizar os seus trabalhos com toda a dignidade com metade dos recursos atuais. É inadmissível que a existência de uma carga tributária escandalosamente elevada como a que existe no Brasil sustente as benesses de 10 vereadores. Caso fossem 20 vereadores, também não seria justificável.

Os trabalhadores assalariados, camadas médias e empresariado do Brasil precisam ‘acordar’ nas eleições de 2006. Esse arremedo do que chamamos de sociedade precisa se organizar e exigir que o poder público (executivo e legislativo principalmente) se comprometa a reduzir gastos supérfluos e diminuir impostos.

É preciso que a Corte de Dom João VI vá embora para que possamos proclamar a república.


Adauto Damásio é Mestre em História pela Unicamp, professor do Colégio Anglo Campinas, Assessor Acadêmico da Anhanguera Educacional e amigo do Luiz Renato (hehehe).

Querem Boa Literatura? Então Leiam Esses!!!!

Esqueçam Dan Brown, Paulo Coelho e outros Best sellers espalhados por aí!
Querem boa literatura? De verdade? Então, para começar, experimentem Mia Couto e Stephen Zweig. Este, um austríaco genial que viveu a última parte de sua vida no Brasil e escolheu resumir sua existência material e terrena cometendo suicídio junto de sua mulher, em Petrópolis. Autor de fabulosas histórias, sua obra mais sensacional, na minha opinião, é o raríssimo "Momento Supremo". Muito difícil de achar (minha amada mulher presenteou-me com uma edição de 1940, após procurar durante meses e só conseguir comprar via internet, em um sêbo de Curitiba), porém deliciosamente bem escrito. A idéia do livro é contar episódios importantes da história de uma maneira precisa e ao mesmo tempo literata e sensível. É de chorar!
Separei essas duas frases do autor, apenas para ilustrar este post:

"Nada torna as pessoas mais desnaturadas e insubordinadas que uma longa e constante ociosidade."

"Todo conhecimento provém do sofrimento, que procura sempre a causa das coisas, enquanto o bem-estar tende à quietude e a não olhar para trás."

O outro autor que recomendo vigorosamente é Mia Couto. Esse é também um gênio: sensível, engraçado, erudito e acessível. Mia Couto nasceu em Moçambique, na cidade de Beira e é considerado um dos maiores escritores contemporâneos do continente africano e um dos melhores da língua portuguesa. É fácil encontrá-lo, pois no Brasil ele é publicado pela Companhia das Letras. Algumas frases do autor, também só para ilustrar (agradeço desde já a colaboração de minha amiga Eva, uma das mulheres mais inteligentes e interessantes que já conheci, pois foi ela quem me enviou esses trechos).

"Acreditaste em mim? Fizestes bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir."

"Não esqueças, patrão. A riqueza é como o sal, só serve para temperar."

"A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco."

"Isso não tem remédio, filho. Eu sei muito bem. Porque eu vivi num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida."

"O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?"

"A política é a arte de mentir tão mal que só pode ser desmentida por outros políticos."

"Dormir com alguém é a intimidade maior: não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de mulher e a sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas interioridades."

"No charco onde a noite se espelha, o sapo acredita voar entre as estrelas."

"O que ela mais lembrava de Mariano: as mãos. Não havia nada mais tangível que essas mãos, mãos de homem em corpo de mulher. Ela sentia o seu arrepio como se mudasse de estado, em vias de ser redesenhada. As mãos dele a derretiam, fogo liquescendo o ferro."

"Esse seu avô tem conversa de tal encanto que pode diminuir a idade de qualquer mulher."

"Ele já tinha visto os homens. E aqueles não eram diferentes dos que ele conhecera antes. Começamos por pensar que são heróis. Em seguida, aceitamos que são patriotas. Mais tarde, que são homens de negócios. Por fim, que não passam de ladrões."

sábado, março 22, 2008

Aqui nao tem acento...

Quero escrever uma coisa curiosa, mas aqui nao tem acento.
Estou em um lugar (longe) em que os teclados nao possuem acento e outros acessorios uteis e/ou inuteis de nosso idioma.
Escreverei mesmo assim. Por favor, me perdoem.
È que voltava caminhando vagarosamente pela rua, de madrugada, com a mao no bolso e do nada me deu vontade de cantar as cancoes dos Saltimbancos, de Chico Buarque que, apesar de petista, è de fato um genio da musica.
Tudo continua sem acento... me desculpem...
Apos chegar ao meu destino, sentei-me em frente ao computador para acessar a internet e, do lobby do hotel, eis que comeca a tocar... nos gatos ja nascemos pobre, porem ja nascemos livres...
SIM! Saltimbancos, de Chico Buarque! Exatamente a mesma musica que eu cantarolava numa rua escura, minutos antes. Logo pensei nas coincidencias, mas como sou um sonhador, imaginei que aquilo tivesse um sentido. Porque neste lugar, tao distante, tao inusitado - imaginem por exemplo que eventualmente eu poderia estar cantando esta musica em pleno frio da Praca Vermelha, em Moscou e, ao retornar ao hotel, a mesma musica comeca a tocar! Entao me levantei e desci para procurar de onde vinha aquele som... porque? Logo imaginei milhares de coisas:
1- um espiao da antiga KGB possuia um dossie sobre Lula e precisava sorrateiramente fazer contato com um brasileiro comum que entregaria tudo para a imprensa e, ao seguir-me e escutar-me cantando, ele tentou se comunicar comigo;
2- a musica foi colocada para que eu justamente encontrasse uma maleta de euros embaixo do piano do bar do hotel, a qual me deixaria milhonario para sempre;
3- ao sair em busca da musica, uma bomba colocada por membros da mafia russa explodiria ao lado da cadeira em que eu estava sentado e mataria Xong Ling Yiu, um importante magnata chines envolvido com o comercio ilegal de heroina para o Tibet e eu seria salvo pelo Chico Buarque! Hargh... talvez preferisse a bomba, ao inves de dever favor a um petista!
Mas nada... continuo neste exato momento procurando uma explicacao para tamanha coincidencia. Certamente nao dormirei esta noite e penso que tentar encontrar resposta e explicacao para tudo, no final, e algo muito cansativo.
Vou tentar me controlar e pensar que, de fato, coincidencias existem. Assim durmo tranquilo e deixo de aborrecer voces com essa bobagem. Sim... eu vou dormir.
Boa Noite!
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(ao sair de fininho e convencido de se tratar de uma coincidencia, observo uma maleta embaixo do piano do lobby do hotel, o qual està sendo dedilhado por um tipo parecido a um chines, enquanto um russo com cara de mafioso assobia uma cancao de chico buarque... Valha-me Deus!!!)