Já vou avisando: os textos serão longos.
A culpa pela falta de alimentos não é da Cana! É da incompetência e da hipocrisia generalizadas! Os preguiçosos podem parar por aqui, mas quem quiser realmente saber quais as bases que usarei para defender a frase anterior (em negrito), terá que ler a seqüência com os próximos três posts sobre o assunto.
domingo, maio 04, 2008
Crise dos Alimentos (Parte 2)
Antes de debruçar-me sobre dados, pesquisas e números, farei uma ressalva utilizando como base uma teoria da Ciência Política chamada "Teoria da Escolha Pública". O que está acontecendo com a crise dos alimentos pode ser muito bem explicado com o uso dessa teoria, a qual demonstra como os grupos de interesse, cada qual defendendo suas demandas, podem, simultaneamente, perder todas as suas batalhas.
A crise dos alimentos é um exemplo bem acabado de como os interesses pelo Etanol, a pressão de agricultores europeus, a defesa de subsídios dos governos ricos, os programas de ajuda humanitária aos países pobres, os preços do petróleo e a dinâmica dos mercados agrícolas resultou em uma espécie de jogo de soma zero, em que no final o conjunto dos atores sai, todo ele, perdendo. Alguém poderia refutar esta afirmação dizendo que os países produtores de petróleo, por exemplo, nunca ganharam tanto dinheiro. Entretanto e apesar disso, se o cenário da crise dos alimentos se transformar em um problema sem controle, até mesmo os poderosos da indústria do petróleo perderão, ainda que menos, muito menos, do que aqueles que estão do outro lado da cadeia: os miseráveis que passam fome há muito tempo e que, diga-se de passagem, também perdem há muito tempo.
Vamos à teoria e certamente quem entender entenderá, se é que me entendem!
A Teoria da Escolha Pública , disciplina relativamente nova da Ciência Política (ou da economia), trabalha com o uso de conceitos e ferramentas próprias da economia como forma de análise para a política e os serviçoes públicos. É excessivamente simplista afirmar que na escolha pública, “um político é visto como mais um agente que tem como objectivo maximizar o seu bem estar, e não como um servidor altruísta dos interesses do público em geral.” Porém, esta definição pode ser um primeiro passo para delimitar o centro das atenções de seus teóricos.
Pensamento de cunho liberal, a Teoria da Escolha Pública trabalha com a “desromantização” da política, com as falhas de governo e com uma visão eminentemente economicista para assuntos diversos, tais como as políticas de bem-estar social promovidas pelos governos. Estudiosos dessa linha de pensamento mostraram que os governos não corrigem facilmente as falhas de mercado; eles normalmente tornam as coisas piores. “A razão fundamental é que informações e incentivos que permitem que os mercados coordenem as atividades e necessidades humanas não estão disponíveis para os governos. Assim, eleitores, políticos burocratas e ativistas que acreditam estar promovendo o interesse público são levados por uma mão invisível a promover outros tipos de interesses.”
Essa afirmação, ainda que com seu conteúdo de verdade o qual é impossível mensurar neste momento, não deve ser tratada como a realidade absoluta referente aos resultados finais das ações do setor público. É certo que devemos distinguir os graus de eficácia conforme as estratégias adotadas para a consecução dos objetivos, bem como por meio da análise dos processos utilizados para resolver problemáticas diferentes existentes na sociedade de modo geral. Portanto, decidir que a ação da burocracia é incompetente na mesma medida para solucionar o problema de evasão nas escolas públicas, para tratar do uso de drogas por parte da população adolescente e para oferecer equipamentos gratuitos de qualidade para os idosos é colocar em uma mesma seara todas as formas de gestão para assuntos tão diversos. Dessa forma, ao tratar de modo geral de algumas idéias dos teóricos da escolha pública temos que partir do pressuposto de que os resultados finais das intervenções dos governos são diferentes, principalmente se levarmos em conta a natureza dos problemas, os processos com que foram “resolvidos”, a estrutura (humana e material) utilizada para a consecução dos projetos e ações e até mesmo as convicções políticas dos governos, as quais podem ser diferentes dependendo do tipo de problema a ser enfrentado, como é o caso, por exemplo, da Dengue, a qual exige esforços dos governos federal, estaduais e municipais, os quais não são necessariamente alinhados ideológicamente uns com os outros.
O modelo de política e democracia da escolha pública presume que a política seja um sistema que consiste em quatro grupos de tomadores de decisões, quais sejam, os eleitores, os eleitos ou políticos, os burocratas e os grupos de interesse. Parte-se da presunção tácita de que cada grupo irá buscar seus interesses da melhor forma possível e que tal choque nem sempre soluciona o problema de todos, ao contrário, tende em algumas situações a fazer com que todos percam. Os políticos buscam votos, os burocratas buscam mais recursos por meio de orçamento e, ao mesmo tempo, maior segurança no trabalho e eleitores e grupos de interesse buscam mais riqueza e renda. Presume-se ainda que cada grupo busque algo que esteja em outro grupo como, por exemplo, políticos que buscam votos dos eleitores e grupos de interesse; eleitores que buscam serviços de políticos e burocratas; burocratas que procuram obter maiores receitas provenientes dos eleitores-contribuintes e dos políticos e assim sucessivamente. No modelo da escolha pública presume-se, também, que cada indivíduo controle um determinado tipo de ativo. “Cada um tem seu interesse pessoal e é orientado por um certo propósito, cada um se engaja em um processo decisório racional. Infelizmente e precisamente ao contrário de mercados com direitos de propriedade bem definidos e defensáveis, os processos políticos têm certas propriedades que diminuem a eficiência e desencorajam a harmonia entre os auto-interesses. Ao presumir agentes políticos auto-interessados, estamos simplesmente dizendo que a maioria das pessoas se identifica mais facilmente com suas próprias do que com as de outras pessoas.”
Contudo, o mundo não é um poço de egoísmo, onde as pessoas insensíveis e individualistas, busquem seu próprio bem indiscriminadamente e a qualquer custo. A sociedade, formada por sistemas e sub-sistemas, é uma imensa rede de relações muitas vezes afetivas, as quais promovem em situações distintas o pensamento da caridade, da troca, do afeto e do querer bem. Ocorre que normalmente tais sentimentos se restringem aos grupos isolados ou mesmo para pessoas muito próximas, em que as relações de afeto são mais intensas. É usual uma mãe despertar preocupada com o casamento de sua filha. Um amigo inventar uma maneira de agradar o outro por seu aniversário. Um marido tentando solucionar um problema de saúde de sua esposa ou mesmo colegas de trabalho se reunindo para emprestar dinheiro para aquele companheiro em situação difícil. Pouco usual é uma mãe despertar preocupada com o casamento do Presidente da República, dois amigos reunidos em uma festa de aniversário pensando em estratégias para aumentar as receitas correntes do Governo Federal, um homem comum buscando solucionar a problemática do atendimento do SUS ou um grupo de colegas criando alternativas para acabar com os conflitos pelo Petróleo no Oriente Médio.
O que defendem os teóricos da escolha pública basicamente é que a maioria das pessoas se identifica muito mais com suas próprias preocupações do que com as preocupações das outras pessoas. Nessa linha, temos que os grupos de interesse e seus sub-grupos acabam por defender seus auto-interesses em detrimento das necessidades e demandas da sociedade como um todo. É mais que certo que em sociedades democráticas nem todos os grupos serão contemplados quando da tomada de decisão por parte dos gestores. Mas também é certo que as regras estipuladas pelo sistema, tais como as maiorias simples e maiorias absolutas, por definição, implicam na existência de vencedores e perdedores, ou seja, aquele que perdeu deve, em respeito às normas e à regra do jogo, respeitar as decisões e ao mesmo tempo garantir a manutenção desse sistema.
Aliás, um dos problemas do sistema democrático é justamente o desequilíbrio dessas forças, pois quando apenas um grupo deve arcar com o ônus das decisões, este grupo tende a questionar os métodos utilizados pela democracia, deixando de apoiar o sistema em sua totalidade, simplesmente pela percepção de que jamais terá suas demandas atendidas pelo Estado.
Se realizarmos uma observação simples sobre a história do século XX nos países da América Latina e as relações de seus povos com a democracia, será facilmente perceptível o fato de que nos momentos de crise, os principais grupos e seus atores sociais viviam em excessivo estado de desequilíbrio de forças, o que gerou reações por parte dos perdedores e contra-reações por parte daqueles soberanos que, ao se sentirem ameaçados, recorreram aos golpes de Estado, aos métodos mais perversos e desumanos de perseguições e demais barbáries perpetradas contra seus inimigos.
Em um ambiente de estabilidade política institucional o jogo de forças dos grupos dominantes não cessa jamais, pois este movimento faz parte mesmo da dinâmica da vida social e política das nações. É pouco questionada atualmente a idéia de que são, de fato, algumas elites as responsáveis por todos os processos decisórios referentes ao bem público. A dúvida está no fato de como tais elites se organizam e como suas decisões são afetadas pelos grupos de interesses.
De qualquer forma, se você resistiu até o fim, já pode vislumbrar os parâmetros estabelecidos pela Teoria da Escolha Pública para entender como foi possível criar as condições para a existência dessa crise. No próximo post, utilizando números e dados estatísticos, poderemos vislumbrar melhor a idéia de que os efeitos alcançados das políticas em diferentes campos nem sempre são aqueles almejados por todos.
Obs.: Todas as citações feitas neste post vêm das obras:
- MITCHELL, Willian C. & SIMMONS, Randy T. Para Além da Política. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
- ALVES, André A. & MOREIRA, José M.: O Que é a Escolha Pública. 1ª Edição. Cascais. Principia. 2004.
A crise dos alimentos é um exemplo bem acabado de como os interesses pelo Etanol, a pressão de agricultores europeus, a defesa de subsídios dos governos ricos, os programas de ajuda humanitária aos países pobres, os preços do petróleo e a dinâmica dos mercados agrícolas resultou em uma espécie de jogo de soma zero, em que no final o conjunto dos atores sai, todo ele, perdendo. Alguém poderia refutar esta afirmação dizendo que os países produtores de petróleo, por exemplo, nunca ganharam tanto dinheiro. Entretanto e apesar disso, se o cenário da crise dos alimentos se transformar em um problema sem controle, até mesmo os poderosos da indústria do petróleo perderão, ainda que menos, muito menos, do que aqueles que estão do outro lado da cadeia: os miseráveis que passam fome há muito tempo e que, diga-se de passagem, também perdem há muito tempo.
Vamos à teoria e certamente quem entender entenderá, se é que me entendem!
A Teoria da Escolha Pública , disciplina relativamente nova da Ciência Política (ou da economia), trabalha com o uso de conceitos e ferramentas próprias da economia como forma de análise para a política e os serviçoes públicos. É excessivamente simplista afirmar que na escolha pública, “um político é visto como mais um agente que tem como objectivo maximizar o seu bem estar, e não como um servidor altruísta dos interesses do público em geral.” Porém, esta definição pode ser um primeiro passo para delimitar o centro das atenções de seus teóricos.
Pensamento de cunho liberal, a Teoria da Escolha Pública trabalha com a “desromantização” da política, com as falhas de governo e com uma visão eminentemente economicista para assuntos diversos, tais como as políticas de bem-estar social promovidas pelos governos. Estudiosos dessa linha de pensamento mostraram que os governos não corrigem facilmente as falhas de mercado; eles normalmente tornam as coisas piores. “A razão fundamental é que informações e incentivos que permitem que os mercados coordenem as atividades e necessidades humanas não estão disponíveis para os governos. Assim, eleitores, políticos burocratas e ativistas que acreditam estar promovendo o interesse público são levados por uma mão invisível a promover outros tipos de interesses.”
Essa afirmação, ainda que com seu conteúdo de verdade o qual é impossível mensurar neste momento, não deve ser tratada como a realidade absoluta referente aos resultados finais das ações do setor público. É certo que devemos distinguir os graus de eficácia conforme as estratégias adotadas para a consecução dos objetivos, bem como por meio da análise dos processos utilizados para resolver problemáticas diferentes existentes na sociedade de modo geral. Portanto, decidir que a ação da burocracia é incompetente na mesma medida para solucionar o problema de evasão nas escolas públicas, para tratar do uso de drogas por parte da população adolescente e para oferecer equipamentos gratuitos de qualidade para os idosos é colocar em uma mesma seara todas as formas de gestão para assuntos tão diversos. Dessa forma, ao tratar de modo geral de algumas idéias dos teóricos da escolha pública temos que partir do pressuposto de que os resultados finais das intervenções dos governos são diferentes, principalmente se levarmos em conta a natureza dos problemas, os processos com que foram “resolvidos”, a estrutura (humana e material) utilizada para a consecução dos projetos e ações e até mesmo as convicções políticas dos governos, as quais podem ser diferentes dependendo do tipo de problema a ser enfrentado, como é o caso, por exemplo, da Dengue, a qual exige esforços dos governos federal, estaduais e municipais, os quais não são necessariamente alinhados ideológicamente uns com os outros.
O modelo de política e democracia da escolha pública presume que a política seja um sistema que consiste em quatro grupos de tomadores de decisões, quais sejam, os eleitores, os eleitos ou políticos, os burocratas e os grupos de interesse. Parte-se da presunção tácita de que cada grupo irá buscar seus interesses da melhor forma possível e que tal choque nem sempre soluciona o problema de todos, ao contrário, tende em algumas situações a fazer com que todos percam. Os políticos buscam votos, os burocratas buscam mais recursos por meio de orçamento e, ao mesmo tempo, maior segurança no trabalho e eleitores e grupos de interesse buscam mais riqueza e renda. Presume-se ainda que cada grupo busque algo que esteja em outro grupo como, por exemplo, políticos que buscam votos dos eleitores e grupos de interesse; eleitores que buscam serviços de políticos e burocratas; burocratas que procuram obter maiores receitas provenientes dos eleitores-contribuintes e dos políticos e assim sucessivamente. No modelo da escolha pública presume-se, também, que cada indivíduo controle um determinado tipo de ativo. “Cada um tem seu interesse pessoal e é orientado por um certo propósito, cada um se engaja em um processo decisório racional. Infelizmente e precisamente ao contrário de mercados com direitos de propriedade bem definidos e defensáveis, os processos políticos têm certas propriedades que diminuem a eficiência e desencorajam a harmonia entre os auto-interesses. Ao presumir agentes políticos auto-interessados, estamos simplesmente dizendo que a maioria das pessoas se identifica mais facilmente com suas próprias do que com as de outras pessoas.”
Contudo, o mundo não é um poço de egoísmo, onde as pessoas insensíveis e individualistas, busquem seu próprio bem indiscriminadamente e a qualquer custo. A sociedade, formada por sistemas e sub-sistemas, é uma imensa rede de relações muitas vezes afetivas, as quais promovem em situações distintas o pensamento da caridade, da troca, do afeto e do querer bem. Ocorre que normalmente tais sentimentos se restringem aos grupos isolados ou mesmo para pessoas muito próximas, em que as relações de afeto são mais intensas. É usual uma mãe despertar preocupada com o casamento de sua filha. Um amigo inventar uma maneira de agradar o outro por seu aniversário. Um marido tentando solucionar um problema de saúde de sua esposa ou mesmo colegas de trabalho se reunindo para emprestar dinheiro para aquele companheiro em situação difícil. Pouco usual é uma mãe despertar preocupada com o casamento do Presidente da República, dois amigos reunidos em uma festa de aniversário pensando em estratégias para aumentar as receitas correntes do Governo Federal, um homem comum buscando solucionar a problemática do atendimento do SUS ou um grupo de colegas criando alternativas para acabar com os conflitos pelo Petróleo no Oriente Médio.
O que defendem os teóricos da escolha pública basicamente é que a maioria das pessoas se identifica muito mais com suas próprias preocupações do que com as preocupações das outras pessoas. Nessa linha, temos que os grupos de interesse e seus sub-grupos acabam por defender seus auto-interesses em detrimento das necessidades e demandas da sociedade como um todo. É mais que certo que em sociedades democráticas nem todos os grupos serão contemplados quando da tomada de decisão por parte dos gestores. Mas também é certo que as regras estipuladas pelo sistema, tais como as maiorias simples e maiorias absolutas, por definição, implicam na existência de vencedores e perdedores, ou seja, aquele que perdeu deve, em respeito às normas e à regra do jogo, respeitar as decisões e ao mesmo tempo garantir a manutenção desse sistema.
Aliás, um dos problemas do sistema democrático é justamente o desequilíbrio dessas forças, pois quando apenas um grupo deve arcar com o ônus das decisões, este grupo tende a questionar os métodos utilizados pela democracia, deixando de apoiar o sistema em sua totalidade, simplesmente pela percepção de que jamais terá suas demandas atendidas pelo Estado.
Se realizarmos uma observação simples sobre a história do século XX nos países da América Latina e as relações de seus povos com a democracia, será facilmente perceptível o fato de que nos momentos de crise, os principais grupos e seus atores sociais viviam em excessivo estado de desequilíbrio de forças, o que gerou reações por parte dos perdedores e contra-reações por parte daqueles soberanos que, ao se sentirem ameaçados, recorreram aos golpes de Estado, aos métodos mais perversos e desumanos de perseguições e demais barbáries perpetradas contra seus inimigos.
Em um ambiente de estabilidade política institucional o jogo de forças dos grupos dominantes não cessa jamais, pois este movimento faz parte mesmo da dinâmica da vida social e política das nações. É pouco questionada atualmente a idéia de que são, de fato, algumas elites as responsáveis por todos os processos decisórios referentes ao bem público. A dúvida está no fato de como tais elites se organizam e como suas decisões são afetadas pelos grupos de interesses.
De qualquer forma, se você resistiu até o fim, já pode vislumbrar os parâmetros estabelecidos pela Teoria da Escolha Pública para entender como foi possível criar as condições para a existência dessa crise. No próximo post, utilizando números e dados estatísticos, poderemos vislumbrar melhor a idéia de que os efeitos alcançados das políticas em diferentes campos nem sempre são aqueles almejados por todos.
Obs.: Todas as citações feitas neste post vêm das obras:
- MITCHELL, Willian C. & SIMMONS, Randy T. Para Além da Política. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
- ALVES, André A. & MOREIRA, José M.: O Que é a Escolha Pública. 1ª Edição. Cascais. Principia. 2004.
terça-feira, abril 29, 2008
... mas agora está difícil
Quem conhece este blog há mais tempo já sabe: se eu passo uma semana sem postar é normal; se eu fico duas semanas é estranho; se eu fico três semanas é preocupante, mas quando chega a quase um mês é porque a situação está feia... muito feia para meu lado!
Mas quando passa de um mês, meus amigos, significa que está tudo (quase)perdido!
Tenho coisas a escrever sobre alguns temas e vou começar com "A Hipocrisia da Crise dos Alimentos". Estou reunindo um material interessante para vocês!
Mas quando passa de um mês, meus amigos, significa que está tudo (quase)perdido!
Tenho coisas a escrever sobre alguns temas e vou começar com "A Hipocrisia da Crise dos Alimentos". Estou reunindo um material interessante para vocês!
terça-feira, março 25, 2008
Assim Fica Fácil
No penúltimo post eu citei frases do autor moçambicano, Mia Couto. Disse que elas haviam sido enviadas para mim por uma amiga chamada Eva, repito, uma das mulheres mais interessantes e inteligentes que conheci em minha vida.
Sou um tipo sortudo! Amigos inteligentes é o que não me falta e por isso nossa vida intelectual vai ficando cada vez mais complicada de um lado, pois essas pessoas nos obrigam a ler muito ou ao menos o suficiente para que possamos trocar algumas palavras sem parecer desmiolados; enquanto que por outro lado, vamos aprendendo um pouco mais sobre o mundo e a existência e, neste aspecto, a vida fica muito mais fácil.
Nessa lista de gente inteligente que freqüento existe uma outra figura, por sinal engraçadíssima, que destaco neste post. Seu nome é Adauto Damásio. Historiador, o mestre e amigo Damásio nos diverte na hora do almoço no quiosque ao lado da piscina da matriz da Anhanguera Educacional, enquanto nos conta as maiores barbaridades sobre assuntos, digamos, aleatórios, para emprestar um termo utilizado por Jô Soares.
Adauto Damásio acaba de ter um texto seu publicado no Blog do Noblat, um dos melhores blogs de política do Brasil e o mais visitado. Coincidentemente, o texto trata da chegada da corte portuguesa ao Brasil, tema que estamos trabalhando no curso de Estudos Inter. Já pedi a ele que permitisse a publicação do texto em meu blog, o qual foi gentilmente autorizado.
Evidentemente também já fiz um convite para que ele possa fazer uma palestra na faculdade sobre o tema para vocês.
Segue o texto no próximo post.
Sou um tipo sortudo! Amigos inteligentes é o que não me falta e por isso nossa vida intelectual vai ficando cada vez mais complicada de um lado, pois essas pessoas nos obrigam a ler muito ou ao menos o suficiente para que possamos trocar algumas palavras sem parecer desmiolados; enquanto que por outro lado, vamos aprendendo um pouco mais sobre o mundo e a existência e, neste aspecto, a vida fica muito mais fácil.
Nessa lista de gente inteligente que freqüento existe uma outra figura, por sinal engraçadíssima, que destaco neste post. Seu nome é Adauto Damásio. Historiador, o mestre e amigo Damásio nos diverte na hora do almoço no quiosque ao lado da piscina da matriz da Anhanguera Educacional, enquanto nos conta as maiores barbaridades sobre assuntos, digamos, aleatórios, para emprestar um termo utilizado por Jô Soares.
Adauto Damásio acaba de ter um texto seu publicado no Blog do Noblat, um dos melhores blogs de política do Brasil e o mais visitado. Coincidentemente, o texto trata da chegada da corte portuguesa ao Brasil, tema que estamos trabalhando no curso de Estudos Inter. Já pedi a ele que permitisse a publicação do texto em meu blog, o qual foi gentilmente autorizado.
Evidentemente também já fiz um convite para que ele possa fazer uma palestra na faculdade sobre o tema para vocês.
Segue o texto no próximo post.
A Corte Portuguesa e as eleições municipais em 2008
Fonte: Blog do Noblat
Autor: Adauto Damásio
O ano de 2008 marca o bicentenário da chegada da Família Real no Brasil. Mais do que um exemplo histórico que marcou o início do efetivo processo de independência brasileira, marca também o início da bandalheira nacional com o dinheiro público e o predomínio do poder executivo sobre os outros poderes.
Como sabemos, D. João VI, o governo e toda a corte portuguesa fixaram sua sede no Rio de Janeiro em função das pressões militares do governo napoleônico. Fugindo dos vendavais dos ideais liberais gerados na Revolução Francesa e consolidados no governo de Napoleão Bonaparte, o príncipe-regente português buscou refúgio na colônia para dar continuidade ao seu governo absolutista.
No período em que Dom João VI governou Portugal, Brasil e as outras possessões do império português a partir do Rio de Janeiro (1808-1821), foram instalados os pilares fundamentais do Estado Nacional que surgiria mais tarde (a partir de 1822) com a independência.
Quais eram as características desse Estado Absolutista, reproduzido no Brasil e herdado por D. Pedro I após a independência? Em primeiro lugar, o poder absoluto do rei era inquestionável, garantido pelo apoio do clero e nobreza com o apoio financeiro da burguesia comercial. Nos regimes políticos absolutistas, por princípio, não há parlamento.
Em segundo lugar, e não menos importante, o Estado absolutista português assentava seu poder a partir do apoio de uma vasta, cara e corrupta burocracia de Estado. Tal burocracia era recrutada a partir dos privilégios do nascimento ou a partir da simples compra dos cargos. O Estado não existia, no absolutismo, para resguardar qualquer direito da sociedade, mas sim os direitos de nascimento dos que possuíam o privilégio de estar próximos da corte.
Assim, foram preenchidos os cargos dos funcionários do Banco do Brasil, das Bibliotecas Públicas, das escolas superiores, entre tantas outras instituições públicas criadas no período joanino. Assim, nasceu um Estado que suga os recursos da sociedade e serve a si mesmo.
Em 1822, quando a independência política se apresentou como única solução para as elites agrárias brasileiras, o pacto com Dom Pedro assegura uma separação conservadora na qual nenhuma transformação significativa irá ocorrer: mantém-se a estrutura exportadora e a base escravista da produção agrícola. Mais do que isso, Dom Pedro I utiliza-se da já instalada máquina de Estado montada por seu pai.
A despeito de alguns espasmos liberais, as elites agrárias do país recém independente apoiaram as pretensões autoritárias de Dom Pedro I até o momento em que lhe foi conveniente, assegurando para si o poder político a partir de 1831, com a abdicação do rei. O interregno “republicano” entre 1831 e 1840 marca o período de grande tensão e guerras internas. Em 1840, a solução política pacificadora leva Dom Pedro II ao poder a partir de um rearranjo político.
Raimundo Faoro foi o mais brilhante analista do Estado brasileiro. Fugindo das mesmices e jargões comuns do marxismo dos anos 60 e 70, buscou inspiração em Max Weber para interpretar o Brasil a partir dos elementos da sua cultura política.
Assim, a tese principal no livro Os Donos do Poder é a de que o poder político na história do Brasil não foi exercido para atender os interesses das classes agrárias nem da burguesia, mas sim em causa própria por aqueles que dominavam a burocracia do Estado. Em outras palavras:
“Era, em termos de Weber, um “estamento burocrático”, que tinha se originado na formação do Estado português dos tempos dos descobrimentos, senão antes, e que se reencarnaria depois naquilo que ele chamaria de o “patronato político brasileiro”. 0 estamento burocrático tinha tido sua origem no que Weber denominava de “patrimonialismo”, uma forma de dominação política tradicional típica de sistemas centralizados que, na ausência de um contrapeso de descentralização política, evoluiria para formas modernas de patrimonialismo burocrático-autoritário, em contraposição às formas de dominação racional-legal que predominaram nos países capitalistas da Europa Ocidental. A contribuição de Faoro aqui vai além da utilização dos conceitos weberianos e da interpretação que deu do sistema político brasileiro: ela consiste, fundamentalmente, em chamar a atenção sobre a necessidade de examinar o sistema político nele mesmo, e não como simples manifestação dos interesses de classe, como no marxismo.”
(Simon Schwartzman, in: http://www.schwartzman.org.br/simon/faoro.htm)
Assim, a velha e carcomida tese de que o Estado representa em qualquer situação histórica os interesses da classe dominante deixa de ter preponderância na análise da história do Estado brasileiro, pois é preciso “examinar o sistema político nele mesmo”.
Examinando o sistema político brasileiro nele mesmo, durante todo o período republicano até nos dias de hoje, temos uma constatação trágica para a cidadania: o Estado continua com a mesma lógica de existência de seus primórdios de formação.
Tal lógica de um Estado voltado para si mesmo aparece de forma absoluta em suas estruturas, regulação e funcionamento. No Brasil, nada ou muito pouco das instituições que deveriam ser voltado para público, de fato o é.
Na terra de Cabral, os poderes legislativos e executivos, em todos os níveis da federação, existem para contemplar os interesses de seus integrantes, parlamentares e funcionários. O poder judiciário organiza-se mais para defender interesses coorporativos do que para aplicar a justiça. Sindicatos se organizam e agem apenas com o objetivo de garantir interesses políticos, seus projetos de poder e os interesses corporativos de seus afiliados. Associações de médicos servem para defender os interesses dos médicos. Eleitores votam em função de seus interesses particulares.
Na terra de Cabral, até as Organizações Não-Governamentais (ONGs) servem aos objetivos privados na promíscua relação com o Estado. Na terra de Cabral, a sociedade pouco se organiza e quando o faz, na maioria das vezes, é para o benefício próprio dos que constituem a “confraria dos espertos”. Dinheiro público continua a ser dinheiro de ninguém.
O caso do parlamento brasileiro é o mais notado pela mídia e discutido nas ruas. Afinal, para que serve uma Câmara de Vereadores ou uma Assembléia Legislativa? Sabemos que suas funções centrais giram em torno da produção das leis e da fiscalização dos atos do poder executivo. Mera teoria.
No Brasil, com eleitores e políticos irresponsáveis, o poder legislativo torna-se ora um grande balcão de negócios particulares, ora um poder subserviente ao executivo por conta das benesses oferecidas aos seus membros, ora uma grande empresa improdutiva montada para empregar os amigos e garantir a continuidade no poder por meio dos mecanismos de favor e do clientelismo.
Não importa a ideologia ou o partido político. As antigas facções de esquerda e direita, expressões horrorosas e inadequadas para o mundo contemporâneo, participam da mesma lógica no exercício do poder: ele existe para que seus ocupantes se locupletem de privilégios e garantam interesses particulares. Claro, usando o dinheiro público advindo do trabalho dos indivíduos que trabalham e geram riqueza.
Tomemos como exemplo as Câmaras Municipais. Tomemos como exemplo mais específico a Câmara Municipal de Valinhos/SP. Ela consumiu R$ 4.502.504,20 no ano de 2006. Tais recursos foram usados para a manutenção de 10 vereadores. Em média, cada vereador custou aos cofres públicos a quantia de 450.250,42 ao longo de um único ano parlamentar. Não há justificativa para tamanho descalabro. Não há motivação suficiente para que os gastos sejam tão escandalosos. E pasmem, os vereadores consideram os recursos insuficientes...
A Câmara Municipal de Valinhos pode realizar os seus trabalhos com toda a dignidade com metade dos recursos atuais. É inadmissível que a existência de uma carga tributária escandalosamente elevada como a que existe no Brasil sustente as benesses de 10 vereadores. Caso fossem 20 vereadores, também não seria justificável.
Os trabalhadores assalariados, camadas médias e empresariado do Brasil precisam ‘acordar’ nas eleições de 2006. Esse arremedo do que chamamos de sociedade precisa se organizar e exigir que o poder público (executivo e legislativo principalmente) se comprometa a reduzir gastos supérfluos e diminuir impostos.
É preciso que a Corte de Dom João VI vá embora para que possamos proclamar a república.
Adauto Damásio é Mestre em História pela Unicamp, professor do Colégio Anglo Campinas, Assessor Acadêmico da Anhanguera Educacional e amigo do Luiz Renato (hehehe).
Autor: Adauto Damásio
O ano de 2008 marca o bicentenário da chegada da Família Real no Brasil. Mais do que um exemplo histórico que marcou o início do efetivo processo de independência brasileira, marca também o início da bandalheira nacional com o dinheiro público e o predomínio do poder executivo sobre os outros poderes.
Como sabemos, D. João VI, o governo e toda a corte portuguesa fixaram sua sede no Rio de Janeiro em função das pressões militares do governo napoleônico. Fugindo dos vendavais dos ideais liberais gerados na Revolução Francesa e consolidados no governo de Napoleão Bonaparte, o príncipe-regente português buscou refúgio na colônia para dar continuidade ao seu governo absolutista.
No período em que Dom João VI governou Portugal, Brasil e as outras possessões do império português a partir do Rio de Janeiro (1808-1821), foram instalados os pilares fundamentais do Estado Nacional que surgiria mais tarde (a partir de 1822) com a independência.
Quais eram as características desse Estado Absolutista, reproduzido no Brasil e herdado por D. Pedro I após a independência? Em primeiro lugar, o poder absoluto do rei era inquestionável, garantido pelo apoio do clero e nobreza com o apoio financeiro da burguesia comercial. Nos regimes políticos absolutistas, por princípio, não há parlamento.
Em segundo lugar, e não menos importante, o Estado absolutista português assentava seu poder a partir do apoio de uma vasta, cara e corrupta burocracia de Estado. Tal burocracia era recrutada a partir dos privilégios do nascimento ou a partir da simples compra dos cargos. O Estado não existia, no absolutismo, para resguardar qualquer direito da sociedade, mas sim os direitos de nascimento dos que possuíam o privilégio de estar próximos da corte.
Assim, foram preenchidos os cargos dos funcionários do Banco do Brasil, das Bibliotecas Públicas, das escolas superiores, entre tantas outras instituições públicas criadas no período joanino. Assim, nasceu um Estado que suga os recursos da sociedade e serve a si mesmo.
Em 1822, quando a independência política se apresentou como única solução para as elites agrárias brasileiras, o pacto com Dom Pedro assegura uma separação conservadora na qual nenhuma transformação significativa irá ocorrer: mantém-se a estrutura exportadora e a base escravista da produção agrícola. Mais do que isso, Dom Pedro I utiliza-se da já instalada máquina de Estado montada por seu pai.
A despeito de alguns espasmos liberais, as elites agrárias do país recém independente apoiaram as pretensões autoritárias de Dom Pedro I até o momento em que lhe foi conveniente, assegurando para si o poder político a partir de 1831, com a abdicação do rei. O interregno “republicano” entre 1831 e 1840 marca o período de grande tensão e guerras internas. Em 1840, a solução política pacificadora leva Dom Pedro II ao poder a partir de um rearranjo político.
Raimundo Faoro foi o mais brilhante analista do Estado brasileiro. Fugindo das mesmices e jargões comuns do marxismo dos anos 60 e 70, buscou inspiração em Max Weber para interpretar o Brasil a partir dos elementos da sua cultura política.
Assim, a tese principal no livro Os Donos do Poder é a de que o poder político na história do Brasil não foi exercido para atender os interesses das classes agrárias nem da burguesia, mas sim em causa própria por aqueles que dominavam a burocracia do Estado. Em outras palavras:
“Era, em termos de Weber, um “estamento burocrático”, que tinha se originado na formação do Estado português dos tempos dos descobrimentos, senão antes, e que se reencarnaria depois naquilo que ele chamaria de o “patronato político brasileiro”. 0 estamento burocrático tinha tido sua origem no que Weber denominava de “patrimonialismo”, uma forma de dominação política tradicional típica de sistemas centralizados que, na ausência de um contrapeso de descentralização política, evoluiria para formas modernas de patrimonialismo burocrático-autoritário, em contraposição às formas de dominação racional-legal que predominaram nos países capitalistas da Europa Ocidental. A contribuição de Faoro aqui vai além da utilização dos conceitos weberianos e da interpretação que deu do sistema político brasileiro: ela consiste, fundamentalmente, em chamar a atenção sobre a necessidade de examinar o sistema político nele mesmo, e não como simples manifestação dos interesses de classe, como no marxismo.”
(Simon Schwartzman, in: http://www.schwartzman.org.br/simon/faoro.htm)
Assim, a velha e carcomida tese de que o Estado representa em qualquer situação histórica os interesses da classe dominante deixa de ter preponderância na análise da história do Estado brasileiro, pois é preciso “examinar o sistema político nele mesmo”.
Examinando o sistema político brasileiro nele mesmo, durante todo o período republicano até nos dias de hoje, temos uma constatação trágica para a cidadania: o Estado continua com a mesma lógica de existência de seus primórdios de formação.
Tal lógica de um Estado voltado para si mesmo aparece de forma absoluta em suas estruturas, regulação e funcionamento. No Brasil, nada ou muito pouco das instituições que deveriam ser voltado para público, de fato o é.
Na terra de Cabral, os poderes legislativos e executivos, em todos os níveis da federação, existem para contemplar os interesses de seus integrantes, parlamentares e funcionários. O poder judiciário organiza-se mais para defender interesses coorporativos do que para aplicar a justiça. Sindicatos se organizam e agem apenas com o objetivo de garantir interesses políticos, seus projetos de poder e os interesses corporativos de seus afiliados. Associações de médicos servem para defender os interesses dos médicos. Eleitores votam em função de seus interesses particulares.
Na terra de Cabral, até as Organizações Não-Governamentais (ONGs) servem aos objetivos privados na promíscua relação com o Estado. Na terra de Cabral, a sociedade pouco se organiza e quando o faz, na maioria das vezes, é para o benefício próprio dos que constituem a “confraria dos espertos”. Dinheiro público continua a ser dinheiro de ninguém.
O caso do parlamento brasileiro é o mais notado pela mídia e discutido nas ruas. Afinal, para que serve uma Câmara de Vereadores ou uma Assembléia Legislativa? Sabemos que suas funções centrais giram em torno da produção das leis e da fiscalização dos atos do poder executivo. Mera teoria.
No Brasil, com eleitores e políticos irresponsáveis, o poder legislativo torna-se ora um grande balcão de negócios particulares, ora um poder subserviente ao executivo por conta das benesses oferecidas aos seus membros, ora uma grande empresa improdutiva montada para empregar os amigos e garantir a continuidade no poder por meio dos mecanismos de favor e do clientelismo.
Não importa a ideologia ou o partido político. As antigas facções de esquerda e direita, expressões horrorosas e inadequadas para o mundo contemporâneo, participam da mesma lógica no exercício do poder: ele existe para que seus ocupantes se locupletem de privilégios e garantam interesses particulares. Claro, usando o dinheiro público advindo do trabalho dos indivíduos que trabalham e geram riqueza.
Tomemos como exemplo as Câmaras Municipais. Tomemos como exemplo mais específico a Câmara Municipal de Valinhos/SP. Ela consumiu R$ 4.502.504,20 no ano de 2006. Tais recursos foram usados para a manutenção de 10 vereadores. Em média, cada vereador custou aos cofres públicos a quantia de 450.250,42 ao longo de um único ano parlamentar. Não há justificativa para tamanho descalabro. Não há motivação suficiente para que os gastos sejam tão escandalosos. E pasmem, os vereadores consideram os recursos insuficientes...
A Câmara Municipal de Valinhos pode realizar os seus trabalhos com toda a dignidade com metade dos recursos atuais. É inadmissível que a existência de uma carga tributária escandalosamente elevada como a que existe no Brasil sustente as benesses de 10 vereadores. Caso fossem 20 vereadores, também não seria justificável.
Os trabalhadores assalariados, camadas médias e empresariado do Brasil precisam ‘acordar’ nas eleições de 2006. Esse arremedo do que chamamos de sociedade precisa se organizar e exigir que o poder público (executivo e legislativo principalmente) se comprometa a reduzir gastos supérfluos e diminuir impostos.
É preciso que a Corte de Dom João VI vá embora para que possamos proclamar a república.
Adauto Damásio é Mestre em História pela Unicamp, professor do Colégio Anglo Campinas, Assessor Acadêmico da Anhanguera Educacional e amigo do Luiz Renato (hehehe).
Querem Boa Literatura? Então Leiam Esses!!!!
Esqueçam Dan Brown, Paulo Coelho e outros Best sellers espalhados por aí!
Querem boa literatura? De verdade? Então, para começar, experimentem Mia Couto e Stephen Zweig. Este, um austríaco genial que viveu a última parte de sua vida no Brasil e escolheu resumir sua existência material e terrena cometendo suicídio junto de sua mulher, em Petrópolis. Autor de fabulosas histórias, sua obra mais sensacional, na minha opinião, é o raríssimo "Momento Supremo". Muito difícil de achar (minha amada mulher presenteou-me com uma edição de 1940, após procurar durante meses e só conseguir comprar via internet, em um sêbo de Curitiba), porém deliciosamente bem escrito. A idéia do livro é contar episódios importantes da história de uma maneira precisa e ao mesmo tempo literata e sensível. É de chorar!
Separei essas duas frases do autor, apenas para ilustrar este post:
"Nada torna as pessoas mais desnaturadas e insubordinadas que uma longa e constante ociosidade."
"Todo conhecimento provém do sofrimento, que procura sempre a causa das coisas, enquanto o bem-estar tende à quietude e a não olhar para trás."
O outro autor que recomendo vigorosamente é Mia Couto. Esse é também um gênio: sensível, engraçado, erudito e acessível. Mia Couto nasceu em Moçambique, na cidade de Beira e é considerado um dos maiores escritores contemporâneos do continente africano e um dos melhores da língua portuguesa. É fácil encontrá-lo, pois no Brasil ele é publicado pela Companhia das Letras. Algumas frases do autor, também só para ilustrar (agradeço desde já a colaboração de minha amiga Eva, uma das mulheres mais inteligentes e interessantes que já conheci, pois foi ela quem me enviou esses trechos).
"Acreditaste em mim? Fizestes bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir."
"Não esqueças, patrão. A riqueza é como o sal, só serve para temperar."
"A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco."
"Isso não tem remédio, filho. Eu sei muito bem. Porque eu vivi num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida."
"O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?"
"A política é a arte de mentir tão mal que só pode ser desmentida por outros políticos."
"Dormir com alguém é a intimidade maior: não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de mulher e a sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas interioridades."
"No charco onde a noite se espelha, o sapo acredita voar entre as estrelas."
"O que ela mais lembrava de Mariano: as mãos. Não havia nada mais tangível que essas mãos, mãos de homem em corpo de mulher. Ela sentia o seu arrepio como se mudasse de estado, em vias de ser redesenhada. As mãos dele a derretiam, fogo liquescendo o ferro."
"Esse seu avô tem conversa de tal encanto que pode diminuir a idade de qualquer mulher."
"Ele já tinha visto os homens. E aqueles não eram diferentes dos que ele conhecera antes. Começamos por pensar que são heróis. Em seguida, aceitamos que são patriotas. Mais tarde, que são homens de negócios. Por fim, que não passam de ladrões."
Querem boa literatura? De verdade? Então, para começar, experimentem Mia Couto e Stephen Zweig. Este, um austríaco genial que viveu a última parte de sua vida no Brasil e escolheu resumir sua existência material e terrena cometendo suicídio junto de sua mulher, em Petrópolis. Autor de fabulosas histórias, sua obra mais sensacional, na minha opinião, é o raríssimo "Momento Supremo". Muito difícil de achar (minha amada mulher presenteou-me com uma edição de 1940, após procurar durante meses e só conseguir comprar via internet, em um sêbo de Curitiba), porém deliciosamente bem escrito. A idéia do livro é contar episódios importantes da história de uma maneira precisa e ao mesmo tempo literata e sensível. É de chorar!
Separei essas duas frases do autor, apenas para ilustrar este post:
"Nada torna as pessoas mais desnaturadas e insubordinadas que uma longa e constante ociosidade."
"Todo conhecimento provém do sofrimento, que procura sempre a causa das coisas, enquanto o bem-estar tende à quietude e a não olhar para trás."
O outro autor que recomendo vigorosamente é Mia Couto. Esse é também um gênio: sensível, engraçado, erudito e acessível. Mia Couto nasceu em Moçambique, na cidade de Beira e é considerado um dos maiores escritores contemporâneos do continente africano e um dos melhores da língua portuguesa. É fácil encontrá-lo, pois no Brasil ele é publicado pela Companhia das Letras. Algumas frases do autor, também só para ilustrar (agradeço desde já a colaboração de minha amiga Eva, uma das mulheres mais inteligentes e interessantes que já conheci, pois foi ela quem me enviou esses trechos).
"Acreditaste em mim? Fizestes bem. Te dou um conselho: não confies em homem que não sabe mentir."
"Não esqueças, patrão. A riqueza é como o sal, só serve para temperar."
"A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco."
"Isso não tem remédio, filho. Eu sei muito bem. Porque eu vivi num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é uma coisa estúpida."
"O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?"
"A política é a arte de mentir tão mal que só pode ser desmentida por outros políticos."
"Dormir com alguém é a intimidade maior: não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo. Um homem dorme nos braços de mulher e a sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas interioridades."
"No charco onde a noite se espelha, o sapo acredita voar entre as estrelas."
"O que ela mais lembrava de Mariano: as mãos. Não havia nada mais tangível que essas mãos, mãos de homem em corpo de mulher. Ela sentia o seu arrepio como se mudasse de estado, em vias de ser redesenhada. As mãos dele a derretiam, fogo liquescendo o ferro."
"Esse seu avô tem conversa de tal encanto que pode diminuir a idade de qualquer mulher."
"Ele já tinha visto os homens. E aqueles não eram diferentes dos que ele conhecera antes. Começamos por pensar que são heróis. Em seguida, aceitamos que são patriotas. Mais tarde, que são homens de negócios. Por fim, que não passam de ladrões."
sábado, março 22, 2008
Aqui nao tem acento...
Quero escrever uma coisa curiosa, mas aqui nao tem acento.
Estou em um lugar (longe) em que os teclados nao possuem acento e outros acessorios uteis e/ou inuteis de nosso idioma.
Escreverei mesmo assim. Por favor, me perdoem.
È que voltava caminhando vagarosamente pela rua, de madrugada, com a mao no bolso e do nada me deu vontade de cantar as cancoes dos Saltimbancos, de Chico Buarque que, apesar de petista, è de fato um genio da musica.
Tudo continua sem acento... me desculpem...
Apos chegar ao meu destino, sentei-me em frente ao computador para acessar a internet e, do lobby do hotel, eis que comeca a tocar... nos gatos ja nascemos pobre, porem ja nascemos livres...
SIM! Saltimbancos, de Chico Buarque! Exatamente a mesma musica que eu cantarolava numa rua escura, minutos antes. Logo pensei nas coincidencias, mas como sou um sonhador, imaginei que aquilo tivesse um sentido. Porque neste lugar, tao distante, tao inusitado - imaginem por exemplo que eventualmente eu poderia estar cantando esta musica em pleno frio da Praca Vermelha, em Moscou e, ao retornar ao hotel, a mesma musica comeca a tocar! Entao me levantei e desci para procurar de onde vinha aquele som... porque? Logo imaginei milhares de coisas:
1- um espiao da antiga KGB possuia um dossie sobre Lula e precisava sorrateiramente fazer contato com um brasileiro comum que entregaria tudo para a imprensa e, ao seguir-me e escutar-me cantando, ele tentou se comunicar comigo;
2- a musica foi colocada para que eu justamente encontrasse uma maleta de euros embaixo do piano do bar do hotel, a qual me deixaria milhonario para sempre;
3- ao sair em busca da musica, uma bomba colocada por membros da mafia russa explodiria ao lado da cadeira em que eu estava sentado e mataria Xong Ling Yiu, um importante magnata chines envolvido com o comercio ilegal de heroina para o Tibet e eu seria salvo pelo Chico Buarque! Hargh... talvez preferisse a bomba, ao inves de dever favor a um petista!
Mas nada... continuo neste exato momento procurando uma explicacao para tamanha coincidencia. Certamente nao dormirei esta noite e penso que tentar encontrar resposta e explicacao para tudo, no final, e algo muito cansativo.
Vou tentar me controlar e pensar que, de fato, coincidencias existem. Assim durmo tranquilo e deixo de aborrecer voces com essa bobagem. Sim... eu vou dormir.
Boa Noite!
.
.
.
.
.
.
(ao sair de fininho e convencido de se tratar de uma coincidencia, observo uma maleta embaixo do piano do lobby do hotel, o qual està sendo dedilhado por um tipo parecido a um chines, enquanto um russo com cara de mafioso assobia uma cancao de chico buarque... Valha-me Deus!!!)
Estou em um lugar (longe) em que os teclados nao possuem acento e outros acessorios uteis e/ou inuteis de nosso idioma.
Escreverei mesmo assim. Por favor, me perdoem.
È que voltava caminhando vagarosamente pela rua, de madrugada, com a mao no bolso e do nada me deu vontade de cantar as cancoes dos Saltimbancos, de Chico Buarque que, apesar de petista, è de fato um genio da musica.
Tudo continua sem acento... me desculpem...
Apos chegar ao meu destino, sentei-me em frente ao computador para acessar a internet e, do lobby do hotel, eis que comeca a tocar... nos gatos ja nascemos pobre, porem ja nascemos livres...
SIM! Saltimbancos, de Chico Buarque! Exatamente a mesma musica que eu cantarolava numa rua escura, minutos antes. Logo pensei nas coincidencias, mas como sou um sonhador, imaginei que aquilo tivesse um sentido. Porque neste lugar, tao distante, tao inusitado - imaginem por exemplo que eventualmente eu poderia estar cantando esta musica em pleno frio da Praca Vermelha, em Moscou e, ao retornar ao hotel, a mesma musica comeca a tocar! Entao me levantei e desci para procurar de onde vinha aquele som... porque? Logo imaginei milhares de coisas:
1- um espiao da antiga KGB possuia um dossie sobre Lula e precisava sorrateiramente fazer contato com um brasileiro comum que entregaria tudo para a imprensa e, ao seguir-me e escutar-me cantando, ele tentou se comunicar comigo;
2- a musica foi colocada para que eu justamente encontrasse uma maleta de euros embaixo do piano do bar do hotel, a qual me deixaria milhonario para sempre;
3- ao sair em busca da musica, uma bomba colocada por membros da mafia russa explodiria ao lado da cadeira em que eu estava sentado e mataria Xong Ling Yiu, um importante magnata chines envolvido com o comercio ilegal de heroina para o Tibet e eu seria salvo pelo Chico Buarque! Hargh... talvez preferisse a bomba, ao inves de dever favor a um petista!
Mas nada... continuo neste exato momento procurando uma explicacao para tamanha coincidencia. Certamente nao dormirei esta noite e penso que tentar encontrar resposta e explicacao para tudo, no final, e algo muito cansativo.
Vou tentar me controlar e pensar que, de fato, coincidencias existem. Assim durmo tranquilo e deixo de aborrecer voces com essa bobagem. Sim... eu vou dormir.
Boa Noite!
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(ao sair de fininho e convencido de se tratar de uma coincidencia, observo uma maleta embaixo do piano do lobby do hotel, o qual està sendo dedilhado por um tipo parecido a um chines, enquanto um russo com cara de mafioso assobia uma cancao de chico buarque... Valha-me Deus!!!)
terça-feira, março 11, 2008
Amor e Gastronomia (Parte 2): Uma Gôndola no Brasil
Quando desembarcou do navio que o trouxe da Itália, o jovem imigrante logo imaginou que morreria neste país, provavelmente em algum bairro da cidade de São Paulo. Seu primeiro trabalho fora o de vendedor de roupas, mas às vezes a vida nos dá sinais que sequer imaginamos ou os entendemos. Dessa forma, o jovem italiano, nascido na cidade de Cremona, teve nas cozinhas sua primeira forma realmente rentável de sustento.
Ele vendia fogões.
Mais tarde, os sinais teimaram em aparecer, quando ele se transferiu para a cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde trocou os fogões pelo gás. Assim, anos depois, tornou-se o maior distribuidor da cidade, porém desejava mais. Depois de muito tempo separado, apaixonou-se por sua antiga melhor amiga. Tinham outros laços afetivos, pois a forte amizade de outrora fez dele o padrinho de batismo do único menino dela, o terceiro filho nascido em um verdadeiro clã feminino.
Já passava dos sessenta anos. Estava naquela idade em que a maioria dos viventes pensa em “descansar”, “curtir a aposentadoria” e outras estratégias que as pessoas inventam para morrer devagar. Porém, sua nova companheira acreditava que ainda existia muito tempo para se realizar sonhos e assim incentivou-o a abrir um restaurante para que pudesse concretizar um antigo projeto: cozinhar as receitas de sua mãe e treinar seus próprios dotes culinários. E assim, depois de vender fogões e gás, decidiu que usaria ambos para esquentar panelas com coisas gostosas dentro.
Alugou um espaço, fez pequenas reformas e mandou pintar. Resolveu inaugurar seu restaurante antes que estivesse pronto. A vida era uma ansiedade. E desde o dia em que abriu seu restaurante, ainda com cheiro de tinta, uma escada de pintor encostada na parede e aquele monte de jornal espalhado pelo chão, “La Cucina di Tullio” se enche de vorazes clientes, ávidos para navegar nas gôndolas, pastas e temperos do lugar.
Pouco tempo depois começou a receber seu reconhecimento: uma estrela no Guia Quatro Rodas por cinco anos consecutivos, Melhor Chef da Cidade e a Stella d’Identità Italiana (Estrela de Identidade Italiana), uma honraria que é merecidamente ofertada a restaurantes em funcionamento fora da Itália, que preservam a arte da culinária italiana, respeitando sua verdadeira tradição gastronômica.
E enquanto tanta gente lhe rende honrarias, Tullio gosta mesmo é de homenagear a sua companheira. A mulher que com todo aquele amor estimulou sua criatividade e coragem para arriscar-se em um empreendimento misteriosamente complexo. Ao menino, aprendiz de cozinheiro, seu padrinho lhe proporcionava a oportunidade de provar suas invenções nas refeições familiares. Foi ele quem, já adulto, ajoelhou ao provar a Gôndola, que seria mais tarde o prato mais famoso do restaurante. A Gôndola é aquele barquinho que leva os casais apaixonados pelas águas de Veneza. Foi ela que inspirou essa história e para ninguém ficar com vontade, uma das receitas de Gôndola eu apresento no link abaixo.
Já o menino sortudo... bem, esse menino sou eu!
http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM420395-7822-N-GONDOLA+IMPERATORE,00.html
Ele vendia fogões.
Mais tarde, os sinais teimaram em aparecer, quando ele se transferiu para a cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde trocou os fogões pelo gás. Assim, anos depois, tornou-se o maior distribuidor da cidade, porém desejava mais. Depois de muito tempo separado, apaixonou-se por sua antiga melhor amiga. Tinham outros laços afetivos, pois a forte amizade de outrora fez dele o padrinho de batismo do único menino dela, o terceiro filho nascido em um verdadeiro clã feminino.
Já passava dos sessenta anos. Estava naquela idade em que a maioria dos viventes pensa em “descansar”, “curtir a aposentadoria” e outras estratégias que as pessoas inventam para morrer devagar. Porém, sua nova companheira acreditava que ainda existia muito tempo para se realizar sonhos e assim incentivou-o a abrir um restaurante para que pudesse concretizar um antigo projeto: cozinhar as receitas de sua mãe e treinar seus próprios dotes culinários. E assim, depois de vender fogões e gás, decidiu que usaria ambos para esquentar panelas com coisas gostosas dentro.
Alugou um espaço, fez pequenas reformas e mandou pintar. Resolveu inaugurar seu restaurante antes que estivesse pronto. A vida era uma ansiedade. E desde o dia em que abriu seu restaurante, ainda com cheiro de tinta, uma escada de pintor encostada na parede e aquele monte de jornal espalhado pelo chão, “La Cucina di Tullio” se enche de vorazes clientes, ávidos para navegar nas gôndolas, pastas e temperos do lugar.
Pouco tempo depois começou a receber seu reconhecimento: uma estrela no Guia Quatro Rodas por cinco anos consecutivos, Melhor Chef da Cidade e a Stella d’Identità Italiana (Estrela de Identidade Italiana), uma honraria que é merecidamente ofertada a restaurantes em funcionamento fora da Itália, que preservam a arte da culinária italiana, respeitando sua verdadeira tradição gastronômica.
E enquanto tanta gente lhe rende honrarias, Tullio gosta mesmo é de homenagear a sua companheira. A mulher que com todo aquele amor estimulou sua criatividade e coragem para arriscar-se em um empreendimento misteriosamente complexo. Ao menino, aprendiz de cozinheiro, seu padrinho lhe proporcionava a oportunidade de provar suas invenções nas refeições familiares. Foi ele quem, já adulto, ajoelhou ao provar a Gôndola, que seria mais tarde o prato mais famoso do restaurante. A Gôndola é aquele barquinho que leva os casais apaixonados pelas águas de Veneza. Foi ela que inspirou essa história e para ninguém ficar com vontade, uma das receitas de Gôndola eu apresento no link abaixo.
Já o menino sortudo... bem, esse menino sou eu!
http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM420395-7822-N-GONDOLA+IMPERATORE,00.html
segunda-feira, março 03, 2008
Amor e Gastronomia (Parte 1): O Índio Feliz
Haviam se conhecido em Paris.
Ele, um “sous chef” dedicado, aprendiz em diversos bons restaurantes da capital e de seus arredores. Ela, uma imigrante peruana, cuja família morava em um pequeno “pueblo”, apaixonada por gastronomia e tentando uma oportunidade para melhorar a sua vida.
A paixão apareceu rapidamente e pouco tempo depois eles resolveram se casar. Para ele, uma grande companheira, cúmplice, amiga e destemida. Para ela, o parceiro leal, amigo, trabalhador e carinhoso. Seus problemas com a imigração não mais existiam e a felicidade repentina não se desfez com o tempo. Aliás, a felicidade, teimosa, persistia em abraçá-los todas as manhãs e jamais se cansava de fazê-los sorrir, fosse ao longo do interminável dia de trabalho, fosse no romântico passeio de mãos dadas pelo “Parc Monceau”, onde gostavam de sentar para olhar as pessoas e se inspirar com a beleza do lugar.
Curiosamente, este parque, criado no século XVIII, foi desenhado pelo primo de Luiz XVI, chamado Philippe Égalite. A curiosidade está justamente no fato de que o único problema que persistia em atrapalhar a vida do casal era justamente a falta de “égalité”. Não me refiro à falta de igualdade entre ambos, aquilo que se vê em muitos casais hoje em dia, mas sim àquela que faz falta à maioria dos imigrantes que vivem na França: “la égalité de droits”.
Ainda que regularizada na França, a bela morena de olhinhos puxados e sorriso fácil sofria da falta de igualdade de seus direitos, traduzidos na indiferença ou maledicência dos franceses que a “confundiam” com todo o tipo de pessoa, menos com aquilo que de fato ela era. E dessa forma foram sendo perdidas oportunidades de emprego, chances de novas amizades e substituindo a paz vieram os choros, a raiva e aquela sensação de injustiça alimentada pela intolerância racial e religiosa, pela qual passam milhões de pessoas em todo o mundo.
Inconformado com os constrangimentos por que passava sua mulher, o jovem francês, em mais um ato de amor, decidiu abandonar a promissora carreira nas cozinhas parisienses e migrar para o Peru, a terra natal de sua mulher amada. Para ele, era insuportável vê-la sofrer e então decidiu que a única forma de conter suas lágrimas era levá-la de volta ao seu país.
Como seu único ofício era cozinhar, reuniu suas economias e montou um cenário de amor, onde coincidentemente também se serve comida. Sim, em Águas Calientes, uma vila ao pé de Machu Picchu, o jovem casal abriu um restaurante com capacidade para 30 pessoas, toalhas coloridas bordadas, cadeiras com corações entalhados e um pequeno cardápio, em que se mesclam temperos peruanos com a culinária francesa.
Quando estive lá com meu amigo Rafa, em julho de 1998, eles estavam começando o negócio. Hoje, a cozinha do “El Índio Feliz” é reconhecida como uma das mais modernas formas de fusão entre a culinária peruana e francesa.
Jamais me esqueci da “Truta al Mango" que lá provei. Tive o privilégio de entrar na cozinha e anotar tudo enquanto pacientemente o chef me ensinava a receita. Até hoje eu reproduzo o prato. Os bons chefs não têm medo de compartilhar seus segredos, desde que tenham certeza de que serão utilizados com todo o respeito. O mesmo aconteceu comigo em um restaurante em Granada, sul da Espanha, onde o chef Manolo me ensinou como se cria um belo “filet al limone”.
E por falar em limão, percebo que “El Índio Feliz´” é o produto final de uma história de amor que a intolerância racial tentou azedar, mas não conseguiu. Para a felicidade do índio, minha e do Rafa também!
Ele, um “sous chef” dedicado, aprendiz em diversos bons restaurantes da capital e de seus arredores. Ela, uma imigrante peruana, cuja família morava em um pequeno “pueblo”, apaixonada por gastronomia e tentando uma oportunidade para melhorar a sua vida.
A paixão apareceu rapidamente e pouco tempo depois eles resolveram se casar. Para ele, uma grande companheira, cúmplice, amiga e destemida. Para ela, o parceiro leal, amigo, trabalhador e carinhoso. Seus problemas com a imigração não mais existiam e a felicidade repentina não se desfez com o tempo. Aliás, a felicidade, teimosa, persistia em abraçá-los todas as manhãs e jamais se cansava de fazê-los sorrir, fosse ao longo do interminável dia de trabalho, fosse no romântico passeio de mãos dadas pelo “Parc Monceau”, onde gostavam de sentar para olhar as pessoas e se inspirar com a beleza do lugar.
Curiosamente, este parque, criado no século XVIII, foi desenhado pelo primo de Luiz XVI, chamado Philippe Égalite. A curiosidade está justamente no fato de que o único problema que persistia em atrapalhar a vida do casal era justamente a falta de “égalité”. Não me refiro à falta de igualdade entre ambos, aquilo que se vê em muitos casais hoje em dia, mas sim àquela que faz falta à maioria dos imigrantes que vivem na França: “la égalité de droits”.
Ainda que regularizada na França, a bela morena de olhinhos puxados e sorriso fácil sofria da falta de igualdade de seus direitos, traduzidos na indiferença ou maledicência dos franceses que a “confundiam” com todo o tipo de pessoa, menos com aquilo que de fato ela era. E dessa forma foram sendo perdidas oportunidades de emprego, chances de novas amizades e substituindo a paz vieram os choros, a raiva e aquela sensação de injustiça alimentada pela intolerância racial e religiosa, pela qual passam milhões de pessoas em todo o mundo.
Inconformado com os constrangimentos por que passava sua mulher, o jovem francês, em mais um ato de amor, decidiu abandonar a promissora carreira nas cozinhas parisienses e migrar para o Peru, a terra natal de sua mulher amada. Para ele, era insuportável vê-la sofrer e então decidiu que a única forma de conter suas lágrimas era levá-la de volta ao seu país.
Como seu único ofício era cozinhar, reuniu suas economias e montou um cenário de amor, onde coincidentemente também se serve comida. Sim, em Águas Calientes, uma vila ao pé de Machu Picchu, o jovem casal abriu um restaurante com capacidade para 30 pessoas, toalhas coloridas bordadas, cadeiras com corações entalhados e um pequeno cardápio, em que se mesclam temperos peruanos com a culinária francesa.
Quando estive lá com meu amigo Rafa, em julho de 1998, eles estavam começando o negócio. Hoje, a cozinha do “El Índio Feliz” é reconhecida como uma das mais modernas formas de fusão entre a culinária peruana e francesa.
Jamais me esqueci da “Truta al Mango" que lá provei. Tive o privilégio de entrar na cozinha e anotar tudo enquanto pacientemente o chef me ensinava a receita. Até hoje eu reproduzo o prato. Os bons chefs não têm medo de compartilhar seus segredos, desde que tenham certeza de que serão utilizados com todo o respeito. O mesmo aconteceu comigo em um restaurante em Granada, sul da Espanha, onde o chef Manolo me ensinou como se cria um belo “filet al limone”.
E por falar em limão, percebo que “El Índio Feliz´” é o produto final de uma história de amor que a intolerância racial tentou azedar, mas não conseguiu. Para a felicidade do índio, minha e do Rafa também!
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Vou Confessar Uma Coisa
Todos sabem que adoro política! Aliás, adoro tudo o que faço, o que estudo, em que trabalho, enfim, sou um daqueles otimistas na vida, ainda que "estressado" com tantas coisas: aluno folgado, vitória do Corinthians, garçom displicente, motorista mal educado, imposto de renda, TV aos domingos e comida mal feita.
Pois bem, ando tão irritado com a política que darei um tempo, sei lá, de uns três ou quatro posts (hehehe) sobre o assunto.
É que faz alguns dias que tento escrever sobre Fidel, Cuba e o socialismo, mas eu não consigo passar de dois parágrafos. Querem saber? É muita hipocrisia e manipulação de dados, números e informações. De um lado aqueles que atestam os ganhos sociais do governo cubano, de outro aqueles que contestam os dados e tentam provar que a qualidade de vida em Cuba é muito baixa. Na minha opinião, não consigo pensar em outra coisa: comparar um ditador facínora e assassino a um herói da resistência contra o "Grande Império" é uma baita estupidez.
Creio que o mais importante não é fazer o que se gosta, mas sim gostar do que se faz. Portanto, se ando impaciente em escrever sobre política e eu gosto demais deste "exercício blogueiro", então me permitam escrever coisas amenas. Peço desculpas, porém minhas próximas mensagens serão sobre textos interessantes, literatura, vinhos e gastronomia... boa gastronomia! Depois eu volto com os pratos indigestos.
Pois bem, ando tão irritado com a política que darei um tempo, sei lá, de uns três ou quatro posts (hehehe) sobre o assunto.
É que faz alguns dias que tento escrever sobre Fidel, Cuba e o socialismo, mas eu não consigo passar de dois parágrafos. Querem saber? É muita hipocrisia e manipulação de dados, números e informações. De um lado aqueles que atestam os ganhos sociais do governo cubano, de outro aqueles que contestam os dados e tentam provar que a qualidade de vida em Cuba é muito baixa. Na minha opinião, não consigo pensar em outra coisa: comparar um ditador facínora e assassino a um herói da resistência contra o "Grande Império" é uma baita estupidez.
Creio que o mais importante não é fazer o que se gosta, mas sim gostar do que se faz. Portanto, se ando impaciente em escrever sobre política e eu gosto demais deste "exercício blogueiro", então me permitam escrever coisas amenas. Peço desculpas, porém minhas próximas mensagens serão sobre textos interessantes, literatura, vinhos e gastronomia... boa gastronomia! Depois eu volto com os pratos indigestos.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Eu Estava Certo!
Tempos atrás escrevi um post sobre o filme Tropa de Elite. Tratava-se de um breve comentário sobre a forma com que muitos profissionais de comunicação utilizam certos termos técnicos de maneira equivocada. Pois bem: o Urso de Ouro recebido pelo prêmio de Melhor Filme do Festival de Berlim é uma das provas de que eu estava certo. Tropa de Elite não é um filme fascista! Jamais um crítico, um cineasta ou um júri alemão daria um prêmio tão importante para um filme fascista ou nazista. Desse assunto eles entendem bem, mas hoje preferem ser vistos como um povo que combate a teoria que outrora alimentou suas esperanças em uma vida melhor. A ilusão que começou efetivamente a desmoronar quando os primeiros britânicos e americanos desembarcaram nas praias da Normandia, durou apenas alguns anos e o resultado todos conhecem.
Dessa forma, tomo a liberdade de publicar novamente aquele post apenas para confirmar um dos aspectos que tanto critico na imprensa brasileira e que em sala de aula luto para implementar junto aos meus alunos: a preocupação com o correto e adequado uso de determinados termos para cada situação.
O texto segue abaixo, em itálico.
"As vezes me cansa certas discussões que a mídia gosta de fazer. A do momento é sobre o filme Tropa de Elite. Um filme tão bom que obrigarei todos os meus alunos a reservar um horário no fim de semana para assistir a uma sessão.
Aluno Entediado: “Mas como assim, vai me obrigar? Eu vou se eu quiser!”
Professor resignado: “Tudo bem, se não quiser ir não tem problema. Mas vai ter que fazer trabalho sobre o filme e quem não fizer fica com zero, entendeu?”
Aluno resignado: “Sim, entendi, mas não concordo com esta obrigação. Você é um Fascista!!!”
Se quiserem me chamar de fascista, tudo bem, mas antes é preciso entender que diabos significa isso, certo?! Pois é justamente este o problema das discussões em torno de Tropa de Elite. Não há um só dia em que eu não leia alguém dizendo que o filme é Fascista. Um colunista de um famoso jornal escreveu nesta manhã que o filme não é fascista, mas sim o BOPE, Batalhão de Operações Policiais Especiais, da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Na verdade, nem um nem outro.
Os colunistas escrevem e a patuléia repete. Ao ler esse monte de matérias sobre o filme de José Padilha me lembrei de um tempo em que tinha fixação por Torta Holandesa. Isso mesmo, Torta Holandesa, o doce com creminho branco e bolachas em volta.
Naquela época eu rodava a cidade em busca de uma espécime legítima e bem feita da bendita. Não havia um recinto gastronômico (restaurante, padaria, cantina de escola, botequim, casa da avó...) que não entrasse e fosse logo espichando os olhos em volta para encontrar a famosa Torta Holandesa. E lá vinha ela, sempre de um jeito diferente. Ora com um creme cheirando à manteiga grosseira, outra com o creme pastoso e molenga, outra com os biscoitos murchos, ou então com o chocolate sem gosto; algumas vezes ultra-congelada e outras derretendo; dependendo do lugar eram servidas em um prato de louça riscado, num pote de plástico transparente, num recipiente de sorvete, enfim, era tudo, menos Torta Holandesa bem servida. Claro, haviam as exceções. Mas também eu não posso reclamar. Afinal, Torta Holandesa nem é holandesa mesmo, assim como o fascismo atribuido ao filme não tem nada a ver com o fascismo em sua acepção original.
O Fascismo é um regime de massas caracterizado pelo forte espírito de negação. Exceto pela defesa do nacionalismo, os fascistas negavam o socialismo, o comunismo, o liberalismo, a burguesia industrial e financeira, bem como os proletariados. Notem, leitores, que a negação é a palavra de ordem para o movimento.
Para colocar em prática sua estratégia, os fascistas criaram um movimento partidário e ao mesmo tempo parecido com uma mílicia, o qual proporcionava aos seus seguidores a possibilidade de perseguir seus rivais de maneira bastante eficaz, utilizando de um lado o terror como tática de ação em busca do monopólio do poder político e, de outro, os mitos, símbolos e rituais para angariar simpatizantes via o uso intensivo do apelo estético.
O fascismo é fruto de uma crise moral que prevaleceu no período do pós-guerra (me refiro à I Grande Guerra) convertido em ação política policialesca, antidemocrática, com forte intervenção do Estado nos campos econômico e social, com uma rigorosa hierarquia, traduzidos em uma figura carismática e de grande eloqüência, denominada Il Duce, o chefe.
Dessa forma, o recurso à violência e à dominação, desrespeitando-se o Estado democrático de direito, faz de uma parte do fascismo algo que possa lembrar as ações de grupos estatais, cuja ação se desprende das normas constitucionais, sob o pretexto de maior eficácia dos resultados pretendidos. E seria por isso que alguns jornalistas emprestam o termo “Fascismo”, seja ao filme de Padilha, seja ao BOPE, para explicar o ambiente de violência e desrespeito aos Direitos Humanos e à legalidade.
No entanto, com uma singela “forçada de barra”, poderíamos relacionar “Tropa de Elite” com outras correntes ideológicas ou práticas políticas registradas na história, as quais não representam os ideais fascistas. Tudo isso porque os termos do campo político são tratados sem qualquer parcimônia ou vergonha pelos intrépidos jornalistas, assim como o fazem com outros termos como “maquiavelismo”, “esquerda”, “direita”, “neo-liberal” e por aí vai.
Basicamente, tratam os conceitos políticos como os confeiteiros tratam a Torta Holandesa. Pegam uma receita qualquer, adaptam às necessidades, misturam tudo, enfeitam como podem e entregam ao público para que engulam acreditando que aquela é a verdade. Dessa forma, se Torta Holandesa não é da Holanda e cada um faz do jeito que lhe aprouver, Tropa de Elite não é fascista, mesmo que cada qual o defina como quiser. Enfim, o mau uso dos termos políticos é “osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”
Dessa forma, tomo a liberdade de publicar novamente aquele post apenas para confirmar um dos aspectos que tanto critico na imprensa brasileira e que em sala de aula luto para implementar junto aos meus alunos: a preocupação com o correto e adequado uso de determinados termos para cada situação.
O texto segue abaixo, em itálico.
"As vezes me cansa certas discussões que a mídia gosta de fazer. A do momento é sobre o filme Tropa de Elite. Um filme tão bom que obrigarei todos os meus alunos a reservar um horário no fim de semana para assistir a uma sessão.
Aluno Entediado: “Mas como assim, vai me obrigar? Eu vou se eu quiser!”
Professor resignado: “Tudo bem, se não quiser ir não tem problema. Mas vai ter que fazer trabalho sobre o filme e quem não fizer fica com zero, entendeu?”
Aluno resignado: “Sim, entendi, mas não concordo com esta obrigação. Você é um Fascista!!!”
Se quiserem me chamar de fascista, tudo bem, mas antes é preciso entender que diabos significa isso, certo?! Pois é justamente este o problema das discussões em torno de Tropa de Elite. Não há um só dia em que eu não leia alguém dizendo que o filme é Fascista. Um colunista de um famoso jornal escreveu nesta manhã que o filme não é fascista, mas sim o BOPE, Batalhão de Operações Policiais Especiais, da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Na verdade, nem um nem outro.
Os colunistas escrevem e a patuléia repete. Ao ler esse monte de matérias sobre o filme de José Padilha me lembrei de um tempo em que tinha fixação por Torta Holandesa. Isso mesmo, Torta Holandesa, o doce com creminho branco e bolachas em volta.
Naquela época eu rodava a cidade em busca de uma espécime legítima e bem feita da bendita. Não havia um recinto gastronômico (restaurante, padaria, cantina de escola, botequim, casa da avó...) que não entrasse e fosse logo espichando os olhos em volta para encontrar a famosa Torta Holandesa. E lá vinha ela, sempre de um jeito diferente. Ora com um creme cheirando à manteiga grosseira, outra com o creme pastoso e molenga, outra com os biscoitos murchos, ou então com o chocolate sem gosto; algumas vezes ultra-congelada e outras derretendo; dependendo do lugar eram servidas em um prato de louça riscado, num pote de plástico transparente, num recipiente de sorvete, enfim, era tudo, menos Torta Holandesa bem servida. Claro, haviam as exceções. Mas também eu não posso reclamar. Afinal, Torta Holandesa nem é holandesa mesmo, assim como o fascismo atribuido ao filme não tem nada a ver com o fascismo em sua acepção original.
O Fascismo é um regime de massas caracterizado pelo forte espírito de negação. Exceto pela defesa do nacionalismo, os fascistas negavam o socialismo, o comunismo, o liberalismo, a burguesia industrial e financeira, bem como os proletariados. Notem, leitores, que a negação é a palavra de ordem para o movimento.
Para colocar em prática sua estratégia, os fascistas criaram um movimento partidário e ao mesmo tempo parecido com uma mílicia, o qual proporcionava aos seus seguidores a possibilidade de perseguir seus rivais de maneira bastante eficaz, utilizando de um lado o terror como tática de ação em busca do monopólio do poder político e, de outro, os mitos, símbolos e rituais para angariar simpatizantes via o uso intensivo do apelo estético.
O fascismo é fruto de uma crise moral que prevaleceu no período do pós-guerra (me refiro à I Grande Guerra) convertido em ação política policialesca, antidemocrática, com forte intervenção do Estado nos campos econômico e social, com uma rigorosa hierarquia, traduzidos em uma figura carismática e de grande eloqüência, denominada Il Duce, o chefe.
Dessa forma, o recurso à violência e à dominação, desrespeitando-se o Estado democrático de direito, faz de uma parte do fascismo algo que possa lembrar as ações de grupos estatais, cuja ação se desprende das normas constitucionais, sob o pretexto de maior eficácia dos resultados pretendidos. E seria por isso que alguns jornalistas emprestam o termo “Fascismo”, seja ao filme de Padilha, seja ao BOPE, para explicar o ambiente de violência e desrespeito aos Direitos Humanos e à legalidade.
No entanto, com uma singela “forçada de barra”, poderíamos relacionar “Tropa de Elite” com outras correntes ideológicas ou práticas políticas registradas na história, as quais não representam os ideais fascistas. Tudo isso porque os termos do campo político são tratados sem qualquer parcimônia ou vergonha pelos intrépidos jornalistas, assim como o fazem com outros termos como “maquiavelismo”, “esquerda”, “direita”, “neo-liberal” e por aí vai.
Basicamente, tratam os conceitos políticos como os confeiteiros tratam a Torta Holandesa. Pegam uma receita qualquer, adaptam às necessidades, misturam tudo, enfeitam como podem e entregam ao público para que engulam acreditando que aquela é a verdade. Dessa forma, se Torta Holandesa não é da Holanda e cada um faz do jeito que lhe aprouver, Tropa de Elite não é fascista, mesmo que cada qual o defina como quiser. Enfim, o mau uso dos termos políticos é “osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Voltei!!!!

Já estava na hora e a pauta é longa:
- Cartões Corporativos
- Eleições Americanas
- Perdiz Trufada
- Jornalismo de Quinta Categoria
- Servilismo e Sabujice
- Notícias Curiosas...
Nossa... por onde começo???
Com uma piadinha que o deputado Eduardo Gomes do PSDB de Tocantins gosta de dizer no início de cada um de seus telefonemas para amigos pessoais e colegas de Câmara:
"Jantar no Fasano com os Amigos... dois mil reais
BMW X5... 500 mil reais
Cartão Corporativo... não tem preço!"
Até amanhã!
domingo, dezembro 23, 2007
Notas do Exame Lançadas
As notas do exame de Política e Economia já estão no sistema.
A partir de hoje este blog entra de férias. Vai dormir até depois do Carnaval!
A partir de hoje este blog entra de férias. Vai dormir até depois do Carnaval!
sexta-feira, dezembro 14, 2007
Substitutivas I e II
Caros alunos,
As notas das substitutivas foram lançadas. Peço que me escrevam caso identifiquem algum problema ou tenham dúvidas sobre o Exame ou sobre os resultados.
As notas das substitutivas foram lançadas. Peço que me escrevam caso identifiquem algum problema ou tenham dúvidas sobre o Exame ou sobre os resultados.
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Notas de Política Lançadas
Acabei de lançar as notas de Política no sistema. Acrescentei 0,5 ponto para alunos que fizeram ao menos uma das três coisas listadas abaixo:
1- escreveram um bom trabalho sobre o caso Renan Calheiros;
2- responderam alguma questão corretamente no dia da apresentação dos trabalhos e,
3- alunos que, a meu critério, contribuíram com participações interessantes ao longo do curso.
São eles:
- Aline Morais
- Celso Tokusato
- Débora Araújo
- Luciana Gomes
- Juliane Deodata
- Pryscila Iglesias
- Daniele Gimenes
- Natália Bezute
- Newton Fabro
- Daiane Benelli
- Danilo Roberto
- Juliana Pessanha
- Bruna Domingos
- Eteni Barbosa
- Fernanda Souza Cruz
- Fernando Verdasca
- Daiane Cabral
1- escreveram um bom trabalho sobre o caso Renan Calheiros;
2- responderam alguma questão corretamente no dia da apresentação dos trabalhos e,
3- alunos que, a meu critério, contribuíram com participações interessantes ao longo do curso.
São eles:
- Aline Morais
- Celso Tokusato
- Débora Araújo
- Luciana Gomes
- Juliane Deodata
- Pryscila Iglesias
- Daniele Gimenes
- Natália Bezute
- Newton Fabro
- Daiane Benelli
- Danilo Roberto
- Juliana Pessanha
- Bruna Domingos
- Eteni Barbosa
- Fernanda Souza Cruz
- Fernando Verdasca
- Daiane Cabral
Notas de Economia Lançadas
Já estão no sistema as notas da avaliação II de Teoria Econômica.
As notas de Política serão lançadas nas próximas horas. Estou apenas fazendo os ajustes para somar alguns pontos extras obtidos por alguns alunos.
Os temas do Exame de Economia serão publicados brevemente.
As notas de Política serão lançadas nas próximas horas. Estou apenas fazendo os ajustes para somar alguns pontos extras obtidos por alguns alunos.
Os temas do Exame de Economia serão publicados brevemente.
sábado, dezembro 08, 2007
Resultado de Marketing Político
CONFIRMADO!
Alunos de Marketing Político, os resultados da campanha eleitoral (todos os trabalhos do semestre: outdoor, estratégia, santinho, jingle, programa de rádio e programa de TV) serão divulgados no churrasco, o qual fui gentilmente convidado a participar.
Um abraço a todos e até domingo!!!
Alunos de Marketing Político, os resultados da campanha eleitoral (todos os trabalhos do semestre: outdoor, estratégia, santinho, jingle, programa de rádio e programa de TV) serão divulgados no churrasco, o qual fui gentilmente convidado a participar.
Um abraço a todos e até domingo!!!
quarta-feira, novembro 14, 2007
Sobrevivi!
Passei maus bocados nos últimos dias. Meu corpo disse: "Ou, bixão, assim não dá!!!"
E eu ignorei seus sinais e decidi pagar pra ver quem podia mais. Perdi.
No meio da semana passada, já na minha aula de Marketing Político, tive que dispensar os alunos 40 minutos antes. Uma festa!
Depois fui ao médico e ele queria me internar.
Médico: Terei que interná-lo.
Meu Corpo: Heeeeeee!!!
Consciência: Nem pensar!
Meu Corpo: Nem pensar porquê? Quero comer sopinha de hospital!
Consciência: Harghh...
Médico: Bem... só existe uma forma de você não ser internado. Terá que tomar uma medicação forte e mais cinco Benzetacil num intervalo de dois dias.
Meu Corpo: Não creio...
Consciência: Hahahahahaha... vai doer, heim!
Meu Corpo: ... hpf... sem graça...
Bem... e daí fui eu, ficar de repouso, asssitir televisão, filmes, enfim, ficar de bobeira enquanto esperava passar. E assim fiquei desde sexta-feira, até que na noite de terça para quarta-feira eu percebi que precisava voltar urgentemente para minha vida (a)normal. Nesta noite eu tive um sonho. Sonhei que estava trabalhando!
Isso mesmo, fiz reuniões, resolvi um monte de coisas e, pasmem, dei aulas!!! Curiosamente tratei de assuntos que só apareceriam no dia seguinte. Inclusive tomei até decisões!!! Sim, tomei decisões, sendo que na quarta-feira bastou eu repetir as decisões que já havia tomado no sonho da terça! Assim foi fácil!
Também dei aula, reclamei que os alunos não liam e que precisavam aprimorar o senso crítico. No final, pedi para o Diego parar de conversar. E ele parou.
Sim, era somente um sonho.
PS.: Obrigado, do fundo do meu coração, aos queridos que me escreveram desejando melhoras.
E eu ignorei seus sinais e decidi pagar pra ver quem podia mais. Perdi.
No meio da semana passada, já na minha aula de Marketing Político, tive que dispensar os alunos 40 minutos antes. Uma festa!
Depois fui ao médico e ele queria me internar.
Médico: Terei que interná-lo.
Meu Corpo: Heeeeeee!!!
Consciência: Nem pensar!
Meu Corpo: Nem pensar porquê? Quero comer sopinha de hospital!
Consciência: Harghh...
Médico: Bem... só existe uma forma de você não ser internado. Terá que tomar uma medicação forte e mais cinco Benzetacil num intervalo de dois dias.
Meu Corpo: Não creio...
Consciência: Hahahahahaha... vai doer, heim!
Meu Corpo: ... hpf... sem graça...
Bem... e daí fui eu, ficar de repouso, asssitir televisão, filmes, enfim, ficar de bobeira enquanto esperava passar. E assim fiquei desde sexta-feira, até que na noite de terça para quarta-feira eu percebi que precisava voltar urgentemente para minha vida (a)normal. Nesta noite eu tive um sonho. Sonhei que estava trabalhando!
Isso mesmo, fiz reuniões, resolvi um monte de coisas e, pasmem, dei aulas!!! Curiosamente tratei de assuntos que só apareceriam no dia seguinte. Inclusive tomei até decisões!!! Sim, tomei decisões, sendo que na quarta-feira bastou eu repetir as decisões que já havia tomado no sonho da terça! Assim foi fácil!
Também dei aula, reclamei que os alunos não liam e que precisavam aprimorar o senso crítico. No final, pedi para o Diego parar de conversar. E ele parou.
Sim, era somente um sonho.
PS.: Obrigado, do fundo do meu coração, aos queridos que me escreveram desejando melhoras.
quarta-feira, outubro 31, 2007
Copa do Mundo: começa a "Guerra Civil"
Fonte: Portal do Estadão
por Marcos Guterman
Seção: Todo mundo, América Latina 19:17:50.
"O Brasil acaba de ser escolhido como sede da Copa de 2014. Até o pontapé inicial, porém, serão sete anos em que uma espécie de “guerra civil” terá lugar no país: de um lado, o grupo dos que acham que o Brasil dos corruptos e dos assassinos não tem a menor condição de sediar uma Copa; do outro, o exército daqueles que vêem a competição como uma catarse pátrio-religiosa de proporções cósmicas.
A turma do contra argumenta que o futebol, como expressão popular de enorme envergadura no Brasil, é usado de forma cafajeste por políticos inescrupulosos para angariar simpatia e votos. O exemplo que costuma ser invocado a esse respeito é o da Copa de 70 – cujo triunfo brasileiro, de acordo com os críticos, teria servido para catapultar os projetos megalomaníacos do governo Médici ao mesmo tempo em que desviava a atenção pública da violenta repressão à oposição. Há vários vergonhosos subprodutos desse fenômeno, e o mais famoso deles é o caso do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, que presenteou os tricampeões do mundo com Fuscas pagos com dinheiro público.
Jango e os campeões de 1962: a esquerda também manipula
Mas a manipulação do futebol no mundo da política brasileira não é uma exclusividade de regimes de exceção ou de políticos calhordas de direita. João Goulart, que presidia o Brasil quando a seleção foi campeã do mundo no Chile, explorou o quanto pôde a conquista, e estranhamente isso não costuma ser objeto de crítica. FHC, presidente habitualmente reputado como um dos mais corretos da história republicana, fez questão de segurar a taça obtida pelos pentacampeões do mundo em 2002, em pose de capitão do time.
Assim, Lula, ao jogar suas fichas na cerimônia que oficializou o Brasil como sede da Copa, nada mais fez do que seguir o script de qualquer presidente em situação semelhante. Criticá-lo por explorar o momento é achar que política é coisa de monges beneditinos.
Do outro lado da trincheira estarão os arautos da brasilidade, os mensageiros do evangelho canarinho e os voluntários da pátria em chuteiras. Para esses guerreiros, não será permitido duvidar do valor que a Copa do Mundo tem para o Brasil nem levantar questionamentos mesquinhos, como a insegurança do país, o estado lastimável dos estádios de futebol, a falta de transporte público adequado para uma competição como essa, entre outras heresias. Falar disso é “torcer contra o Brasil”, e provavelmente o discurso negativo será abafado, sempre que necessário, pelo tradicional ufanismo que cerca mobilizações nacionais desse gênero.
O problema do fundamentalismo futebolístico verde-amarelo é que ele efetivamente colabora para que eventuais desvios criminosos no processo de adequação do Brasil às necessidades da Copa sejam vistos como uma espécie de “mal menor” diante da grandeza do evento. Tudo isso, claro, considerando-se como certo que o Brasil ganhará a Copa. Se perder... Bem, a derrota, neste caso, como em 1950, deverá ter o devastador efeito de dizimar utopias – e é difícil dizer que Brasil emergiria desse novo Maracanazo, mas certamente será um país mais cético, mais dividido e mais triste."
por Marcos Guterman
Seção: Todo mundo, América Latina 19:17:50.
"O Brasil acaba de ser escolhido como sede da Copa de 2014. Até o pontapé inicial, porém, serão sete anos em que uma espécie de “guerra civil” terá lugar no país: de um lado, o grupo dos que acham que o Brasil dos corruptos e dos assassinos não tem a menor condição de sediar uma Copa; do outro, o exército daqueles que vêem a competição como uma catarse pátrio-religiosa de proporções cósmicas.
A turma do contra argumenta que o futebol, como expressão popular de enorme envergadura no Brasil, é usado de forma cafajeste por políticos inescrupulosos para angariar simpatia e votos. O exemplo que costuma ser invocado a esse respeito é o da Copa de 70 – cujo triunfo brasileiro, de acordo com os críticos, teria servido para catapultar os projetos megalomaníacos do governo Médici ao mesmo tempo em que desviava a atenção pública da violenta repressão à oposição. Há vários vergonhosos subprodutos desse fenômeno, e o mais famoso deles é o caso do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, que presenteou os tricampeões do mundo com Fuscas pagos com dinheiro público.
Jango e os campeões de 1962: a esquerda também manipula
Mas a manipulação do futebol no mundo da política brasileira não é uma exclusividade de regimes de exceção ou de políticos calhordas de direita. João Goulart, que presidia o Brasil quando a seleção foi campeã do mundo no Chile, explorou o quanto pôde a conquista, e estranhamente isso não costuma ser objeto de crítica. FHC, presidente habitualmente reputado como um dos mais corretos da história republicana, fez questão de segurar a taça obtida pelos pentacampeões do mundo em 2002, em pose de capitão do time.
Assim, Lula, ao jogar suas fichas na cerimônia que oficializou o Brasil como sede da Copa, nada mais fez do que seguir o script de qualquer presidente em situação semelhante. Criticá-lo por explorar o momento é achar que política é coisa de monges beneditinos.
Do outro lado da trincheira estarão os arautos da brasilidade, os mensageiros do evangelho canarinho e os voluntários da pátria em chuteiras. Para esses guerreiros, não será permitido duvidar do valor que a Copa do Mundo tem para o Brasil nem levantar questionamentos mesquinhos, como a insegurança do país, o estado lastimável dos estádios de futebol, a falta de transporte público adequado para uma competição como essa, entre outras heresias. Falar disso é “torcer contra o Brasil”, e provavelmente o discurso negativo será abafado, sempre que necessário, pelo tradicional ufanismo que cerca mobilizações nacionais desse gênero.
O problema do fundamentalismo futebolístico verde-amarelo é que ele efetivamente colabora para que eventuais desvios criminosos no processo de adequação do Brasil às necessidades da Copa sejam vistos como uma espécie de “mal menor” diante da grandeza do evento. Tudo isso, claro, considerando-se como certo que o Brasil ganhará a Copa. Se perder... Bem, a derrota, neste caso, como em 1950, deverá ter o devastador efeito de dizimar utopias – e é difícil dizer que Brasil emergiria desse novo Maracanazo, mas certamente será um país mais cético, mais dividido e mais triste."
sábado, outubro 27, 2007
Estudar pra quê?
Ao entregar mais uma, das inúmeras notas baixas de um aluno da faculdade, chamei-o de canto e perguntei: porque você nunca estuda para as provas? Porque você sempre chega atrasado e por quais razões você não parece nem um pouco preocupado? Ao que ele, sorridente e confiante, respondeu: Professor! Eu não preciso estudar. Eu sou criativo!!!
A vida de um professor está repleta dessas histórias. Contou-me uma amiga, professora também, que outro dia, em uma aula de matemática, do curso de Marketing e Vendas, uma aluna levantou-se e disse: "mas "prófi", eu comprei (sic) um curso de Marketing e Vendas, mas até agora não tive nenhuma aula sobre isso!" Ao que a professora respondeu: "como não? Você já teve disciplinas sobre marketing, planejamento, orçamento, estatística, mercado..."
"Então "prófi"! E eu ainda nem sei vender!!!"
A realidade é que eu percebo que tem muito aluno que não entende muito bem o que significa um Curso de Graduação. A vida universitária representa a primeira etapa da fase efetivamente adulta. A partir da faculdade os jovens já pensam (ou deveriam pensar) nos estágios, no futuro trabalho, mas principalmente em sua preparação intelectual e no início da construção daquilo que ele pretende ser enquanto adulto e profissional produtivo.
Mas é difícil competir. Há alguns dias uma grande editora lançou uma revista com nome de batom melado com sabor e brilhinho. Antes do lançamento, naturalmente foi feita uma série de comerciais. Me chamou a atenção o da TV, em que aparecia uma menininha linda, inteligente e estudiosa. A menina cresce, entra na faculdade e a primeira imagem que aparece é ela beijando loucamente na boca enquanto o namorado ou ficante ou sabe-se lá quem, vai levantando a blusa da moça embaixo da escada da faculdade, em plena luz do dia. Em seguida vem o slogan, "a revista para os melhores anos da sua vida". É evidente que o público a qual se destina está na faixa dos 18 aos 28 anos, ou seja, segundo o IBGE, uma faixa que representa cerca de 20 milhões de mulheres brasileiras. A maior parte das minhas alunas está nesta faixa, mas não acredito que elas representam o público-alvo, afinal, jamais vi alguma sendo malhada no corredor da faculdade enquanto tem sua blusa levantada sem escrúpulos.
O problema está na mania que a publicidade, os programas de TV e a mídia têm em tratar certos assuntos com superficialidade, valorizando o hedonismo, o consumo e a matéria, em detrimento da essência.
Outra propaganda que me chamou a atenção foi do lançamento de um carro. O slogan é: "Ou você anda na linha ou você anda no novo Vectra GT". Na mídia impressa, aparece a foto do veículo convidando o leitor a "sair da linha", traduzindo, comprar o carro, cujo valor está entre 60 e 78 mil reais. Curioso notar que embaixo do veículo existia uma espécie de box que incluia palavras como Pós-graduação, Mestrado ou coisas parecidas, o que para o pacóvio que a criou, supõe pertencer ao campo daqueles que andam na linha. Pensei comigo: ora, para ter 78 mil reais para gastar em um carro, penso que é preciso que o sujeito tenha andado muito "na linha" (leia artigo que publiquei abaixo para entender porque "andar na linha" dá dinheiro). Exceto para traficantes, ladrões ou membros do alto comando petista, além de mensaleiros em geral, deve ser bastante difícil dispor dessa quantia sem antes ter trabalhado muito e estudado idem. Um amigo, gerente de um banco, que gosta de carro e estudou bastante durante toda sua vida ficou indignado. "Não compro por causa da propaganda". Acabou ficando com um Volvo C30.
A despeito da forte campanha viral, das inovações técnicas e do "teaser" bem original, o conteúdo e a mensagem acabam sempre caindo naquela velha monotonia do "tipo assim, vamos curtir a vida pra c..." Chatinho isso. Como sempre, tudo bem superficial. Diferente da propaganda da Ford, cujo slogan de seu sedan de luxo é: "quem dirige um Ford Fusion fez por merecer". Esse faz mais sentido.
De qualquer forma este não é um post sobre propaganda, mas sobre como a propaganda pode ajudar a transformar as pessoas em gente cada vez mais sem graça.
Seja a propaganda do carro ou a revista, cujo primeiro número ofereceu mais de 400 dicas de beleza, ensinou como transar na casa dos pais sem dar bobeira, como juntar uma grana para ficar rica... enfim, segundo uma leitora que escreveu elogiando a publicação, "a revista tem tudo que uma mulher prescisa (sic)". Escrevendo assim, talvez ela precise, também, de algumas dicas de gramática. O pior de tudo é que muitos jovens, incluindo alunos meus, acreditam na propaganda e dessa forma juram que para ter sucesso basta ser criativo.
É verdade. Estudar pra quê? Vamos consumir!!!
A vida de um professor está repleta dessas histórias. Contou-me uma amiga, professora também, que outro dia, em uma aula de matemática, do curso de Marketing e Vendas, uma aluna levantou-se e disse: "mas "prófi", eu comprei (sic) um curso de Marketing e Vendas, mas até agora não tive nenhuma aula sobre isso!" Ao que a professora respondeu: "como não? Você já teve disciplinas sobre marketing, planejamento, orçamento, estatística, mercado..."
"Então "prófi"! E eu ainda nem sei vender!!!"
A realidade é que eu percebo que tem muito aluno que não entende muito bem o que significa um Curso de Graduação. A vida universitária representa a primeira etapa da fase efetivamente adulta. A partir da faculdade os jovens já pensam (ou deveriam pensar) nos estágios, no futuro trabalho, mas principalmente em sua preparação intelectual e no início da construção daquilo que ele pretende ser enquanto adulto e profissional produtivo.
Mas é difícil competir. Há alguns dias uma grande editora lançou uma revista com nome de batom melado com sabor e brilhinho. Antes do lançamento, naturalmente foi feita uma série de comerciais. Me chamou a atenção o da TV, em que aparecia uma menininha linda, inteligente e estudiosa. A menina cresce, entra na faculdade e a primeira imagem que aparece é ela beijando loucamente na boca enquanto o namorado ou ficante ou sabe-se lá quem, vai levantando a blusa da moça embaixo da escada da faculdade, em plena luz do dia. Em seguida vem o slogan, "a revista para os melhores anos da sua vida". É evidente que o público a qual se destina está na faixa dos 18 aos 28 anos, ou seja, segundo o IBGE, uma faixa que representa cerca de 20 milhões de mulheres brasileiras. A maior parte das minhas alunas está nesta faixa, mas não acredito que elas representam o público-alvo, afinal, jamais vi alguma sendo malhada no corredor da faculdade enquanto tem sua blusa levantada sem escrúpulos.
O problema está na mania que a publicidade, os programas de TV e a mídia têm em tratar certos assuntos com superficialidade, valorizando o hedonismo, o consumo e a matéria, em detrimento da essência.
Outra propaganda que me chamou a atenção foi do lançamento de um carro. O slogan é: "Ou você anda na linha ou você anda no novo Vectra GT". Na mídia impressa, aparece a foto do veículo convidando o leitor a "sair da linha", traduzindo, comprar o carro, cujo valor está entre 60 e 78 mil reais. Curioso notar que embaixo do veículo existia uma espécie de box que incluia palavras como Pós-graduação, Mestrado ou coisas parecidas, o que para o pacóvio que a criou, supõe pertencer ao campo daqueles que andam na linha. Pensei comigo: ora, para ter 78 mil reais para gastar em um carro, penso que é preciso que o sujeito tenha andado muito "na linha" (leia artigo que publiquei abaixo para entender porque "andar na linha" dá dinheiro). Exceto para traficantes, ladrões ou membros do alto comando petista, além de mensaleiros em geral, deve ser bastante difícil dispor dessa quantia sem antes ter trabalhado muito e estudado idem. Um amigo, gerente de um banco, que gosta de carro e estudou bastante durante toda sua vida ficou indignado. "Não compro por causa da propaganda". Acabou ficando com um Volvo C30.
A despeito da forte campanha viral, das inovações técnicas e do "teaser" bem original, o conteúdo e a mensagem acabam sempre caindo naquela velha monotonia do "tipo assim, vamos curtir a vida pra c..." Chatinho isso. Como sempre, tudo bem superficial. Diferente da propaganda da Ford, cujo slogan de seu sedan de luxo é: "quem dirige um Ford Fusion fez por merecer". Esse faz mais sentido.
De qualquer forma este não é um post sobre propaganda, mas sobre como a propaganda pode ajudar a transformar as pessoas em gente cada vez mais sem graça.
Seja a propaganda do carro ou a revista, cujo primeiro número ofereceu mais de 400 dicas de beleza, ensinou como transar na casa dos pais sem dar bobeira, como juntar uma grana para ficar rica... enfim, segundo uma leitora que escreveu elogiando a publicação, "a revista tem tudo que uma mulher prescisa (sic)". Escrevendo assim, talvez ela precise, também, de algumas dicas de gramática. O pior de tudo é que muitos jovens, incluindo alunos meus, acreditam na propaganda e dessa forma juram que para ter sucesso basta ser criativo.
É verdade. Estudar pra quê? Vamos consumir!!!
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