Escrevi em meu post anterior (leiam abaixo) que a baixaria homofóbica escondida na propaganda da candidata Marta não passava de um gesto grotesco e vil do comando da campanha petista e que tais ações servem somente para reverter contra a imagem da própria candidata petista. Publico uma notícia da Folha de São Paulo que foi ao ar esta manhã, no site do Jornal, em que o comando da campanha continua achando a peça "normal", mas que, apesar disso, vão retirá-la do ar.
É pra rir ou pra chorar?!
Segue o texto.
Fonte: Folha de São Paulo
Data: 14/10/2008
"A campanha da petista Marta Suplicy em São Paulo deixou de veicular nesta terça-feira a propaganda que questiona a vida pessoal do prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição.
Segundo o coordenador da campanha de Marta, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), é normal a rotatividade de propagandas. Já a assessoria da petista afirmou que a propaganda pode voltar a circular.
A inserção na TV mostra a foto do democrata e pergunta se o eleitor sabe quem é Kassab, se ele é casado, se tem filhos.
A coordenação da campanha de Kassab já entrou com sete representações no TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral) de São Paulo contra a campanha da petista.
A campanha de Kassab reivindica o direito de resposta à inserção da campanha da adversária que questiona sua vida pessoal. As ações na Justiça, no entanto, referem-se à acusação de que o democrata teria enriquecido desde que iniciou sua carreira política.
"Você sabe mesmo quem é o Kassab? [...] Se já teve problemas com a Justiça? Se melhorou de vida depois da política?", questiona o locutor.
Para a campanha do democrata, a pergunta deixa de ser uma insinuação e torna-se uma acusação, daí o pedido de direito de resposta.
Ontem, Marta foi questionada por jornalistas sobre uma possível invasão à privacidade do prefeito. Marta disse que é uma questão sobre a biografia de Kassab, não da vida pessoal. "Isso é vida pública, faz parte da biografia e está escrito em qualquer documento", afirmou.
A petista disse também que sofreu muito por ter tido sua vida vasculhada --quando se separou do senador Eduardo Suplicy (PT)-- e que é a primeira a ser contra qualquer interferência em questões de foro íntimo.
Segundo a ex-prefeita, a imprensa está sendo responsável por polemizar a propaganda. "Estão fazendo insinuações que não fazem parte da campanha, não fazem parte do meu discurso [...] nunca saiu da minha boca coisa nenhuma", afirmou."
terça-feira, outubro 14, 2008
segunda-feira, outubro 13, 2008
Perdeu "Preibói"!!!
Conhecem aquela palavrinha que assaltante faz para suas vítimas quando as pega de surpresa?
PERDEU!!!
Pois foi exatamente isso que aconteceu com a campanha de Marta Suplicy ao colocar no ar aquela "beleza" de peça em que faz insinuações maldosas sobre a vida privada de seu adversário Gilberto Kassab. Há poucos dias comentei num podcast da Folha (vejam uns posts abaixo, mas não consigo colocar o áudio!) que o eleitor não suporta mais as baixarias que alguns candidatos insistem em fazer. Isso pega mal e só demonstra uma mistura de desespero com falta de caráter dos responsáveis.
Mesmo assim, o coordenador da campanha da candidata Marta, o deputado petista Carlos Zarattini, achou normal e disse que os questionamentos feitos "não são nada demais", o que dá uma boa idéia da categoria ética que este "gênio" da coordenação política se enquadra. Talvez ele esteja pensando que a diferença dos 17% nas pesquisas a favor de Kassab também não são nada demais.
Por enquanto, o feitiço virou contra o feiticeiro (desculpem o clichê!) e os assaltantes da moralidade é que ao invés de dizer, terão mesmo que ouvir: PERDEU!!!
PERDEU!!!
Pois foi exatamente isso que aconteceu com a campanha de Marta Suplicy ao colocar no ar aquela "beleza" de peça em que faz insinuações maldosas sobre a vida privada de seu adversário Gilberto Kassab. Há poucos dias comentei num podcast da Folha (vejam uns posts abaixo, mas não consigo colocar o áudio!) que o eleitor não suporta mais as baixarias que alguns candidatos insistem em fazer. Isso pega mal e só demonstra uma mistura de desespero com falta de caráter dos responsáveis.
Mesmo assim, o coordenador da campanha da candidata Marta, o deputado petista Carlos Zarattini, achou normal e disse que os questionamentos feitos "não são nada demais", o que dá uma boa idéia da categoria ética que este "gênio" da coordenação política se enquadra. Talvez ele esteja pensando que a diferença dos 17% nas pesquisas a favor de Kassab também não são nada demais.
Por enquanto, o feitiço virou contra o feiticeiro (desculpem o clichê!) e os assaltantes da moralidade é que ao invés de dizer, terão mesmo que ouvir: PERDEU!!!
quinta-feira, outubro 09, 2008
Vou Morar na Itália!!!
Peço desculpas e dou uma pausa nas notícias sobre as eleições para anunciar a todos, em primeira mão, que vou me mudar para a Itália!
Tomei esta decisão depois de pensar muito... pouco.
Por enquanto ficarei na cidade de Marino e pretendo ali instalar-me durante pelo menos um ano, quando ocorrerá a próxima festa da uva da cidade.
Neste ano, na abertura da 84° edição da festa os moradores da cidade foram surpreendidos com o que parecia ser um milagre: das torneiras de suas casas começou a jorrar vinho branco, em vez de água.
Segundo texto da BBC, "tradicionalmente, para marcar o início da Festa, milhares de moradores fazem uma contagem regressiva ao redor da Fonte dei Quattro Mori, no centro da cidade, para ver a "transformação da água em vinho", quando a fonte passa a jorrar, ao invés de água, uma boa qualidade de vinho branco.
Todos os anos, a Fonte é abastecida com barris de três mil litros de vinho para garantir o sucesso das celebrações. No entanto, os responsáveis pelo abastecimento das fontes de água espalhadas pelas ruas da cidade giraram a alavanca errada no momento da abertura da Festa e, em vez de enviarem vinho para a Fonte, mandaram a bebida para casas da cidade."
Está decidido: vou me mudar para a Itália, refazer minha vida amorosa e, para economizar, só beberei água da torneira!
Tomei esta decisão depois de pensar muito... pouco.
Por enquanto ficarei na cidade de Marino e pretendo ali instalar-me durante pelo menos um ano, quando ocorrerá a próxima festa da uva da cidade.
Neste ano, na abertura da 84° edição da festa os moradores da cidade foram surpreendidos com o que parecia ser um milagre: das torneiras de suas casas começou a jorrar vinho branco, em vez de água.
Segundo texto da BBC, "tradicionalmente, para marcar o início da Festa, milhares de moradores fazem uma contagem regressiva ao redor da Fonte dei Quattro Mori, no centro da cidade, para ver a "transformação da água em vinho", quando a fonte passa a jorrar, ao invés de água, uma boa qualidade de vinho branco.
Todos os anos, a Fonte é abastecida com barris de três mil litros de vinho para garantir o sucesso das celebrações. No entanto, os responsáveis pelo abastecimento das fontes de água espalhadas pelas ruas da cidade giraram a alavanca errada no momento da abertura da Festa e, em vez de enviarem vinho para a Fonte, mandaram a bebida para casas da cidade."
Está decidido: vou me mudar para a Itália, refazer minha vida amorosa e, para economizar, só beberei água da torneira!
Classe Média Abandonou o PT em São Paulo
Qui, 09 Out, 12h59
Fonte: Agência Estado
"A candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, inicia o segundo turno dessas eleições com um grande desafio: rever o planejamento de sua campanha a fim de obter os votos necessários do eleitorado de classe média, que continua apostando na reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM). A avaliação é do cientista político e pesquisador da PUC e FGV de São Paulo Marco Antonio Carvalho Teixeira, ao analisar a vantagem de 17 pontos porcentuais de Kassab sobre Marta na pesquisa Datafolha divulgada hoje. "A classe média abandonou o PT em São Paulo", afirmou.
Para o cientista político, "a situação da campanha petista na capital é extremamente delicada" e pode repetir, inclusive, o "fenômeno" ocorrido com Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006, candidato derrotado à Presidência da República que obteve menos votos no segundo turno em relação aos que teve no primeiro. "O efeito da pesquisa é terrível para os ânimos da campanha de Marta, que começa o segundo turno nocauteada e com um partido dividido. Daí a importância de se encontrar, rapidamente, um novo foco."
Carvalho Teixeira avalia também que a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de Marta na capital não deverá mudar o atual cenário. "O presidente já agregou o que tinha de agregar e eu acredito que a presença dele não irá alterar a rota." O pesquisador diz que os votos de Alckmin e do candidato derrotado Paulo Maluf (PP) estão migrando "majoritariamente" para a campanha de Kassab. Por isso, ele classifica de "hercúleo" o trabalho que a campanha petista terá de fazer para tentar reverter o quadro."
Fonte: Agência Estado
"A candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, inicia o segundo turno dessas eleições com um grande desafio: rever o planejamento de sua campanha a fim de obter os votos necessários do eleitorado de classe média, que continua apostando na reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM). A avaliação é do cientista político e pesquisador da PUC e FGV de São Paulo Marco Antonio Carvalho Teixeira, ao analisar a vantagem de 17 pontos porcentuais de Kassab sobre Marta na pesquisa Datafolha divulgada hoje. "A classe média abandonou o PT em São Paulo", afirmou.
Para o cientista político, "a situação da campanha petista na capital é extremamente delicada" e pode repetir, inclusive, o "fenômeno" ocorrido com Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006, candidato derrotado à Presidência da República que obteve menos votos no segundo turno em relação aos que teve no primeiro. "O efeito da pesquisa é terrível para os ânimos da campanha de Marta, que começa o segundo turno nocauteada e com um partido dividido. Daí a importância de se encontrar, rapidamente, um novo foco."
Carvalho Teixeira avalia também que a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de Marta na capital não deverá mudar o atual cenário. "O presidente já agregou o que tinha de agregar e eu acredito que a presença dele não irá alterar a rota." O pesquisador diz que os votos de Alckmin e do candidato derrotado Paulo Maluf (PP) estão migrando "majoritariamente" para a campanha de Kassab. Por isso, ele classifica de "hercúleo" o trabalho que a campanha petista terá de fazer para tentar reverter o quadro."
quarta-feira, outubro 08, 2008
Vereadores mal avaliados são reeleitos em SP
Fonte: Portal da Revista Veja
Autor: André Pontes
Os eleitores paulistanos reelegeram neste domingo 38 vereadores. Avaliação do trabalho dos 52 postulantes à reeleição feita por VEJA São Paulo mostrou que o desempenho da maioria foi medíocre nos últimos quatro anos. Apenas oito tiveram nota acima de 7, sendo que seis deles foram reeleitos. Os últimos quatro da lista, com as notas mais baixas, também venceram a eleição.
O vereador José Roberto Tripoli (PV), com uma nota de 2,6, ficou em último lugar na lista feita por VEJA São Paulo. Tripoli foi eleito com 45.750 votos, ficando entre os vinte candidatos mais votados. Em 2007, das 53 votações a que deveria ter comparecido, Tripoli esteve presente em catorze.
Outro candidato que apareceu entre os últimos na lista e foi reeleito com votação considerável foi Milton Leite (DEM). Com uma nota de 3,8, Milton Leite teve 80.051 votos, sendo o quarto candidato mais votado em São Paulo. Dos treze projetos apresentados pelo democrata no atual mandato, oito eram para nomear ruas.
Acesse o site da Veja e conheça a lista dos 38 candidatos reeleitos, com seus respectivos votos e notas da avaliação.
Autor: André Pontes
Os eleitores paulistanos reelegeram neste domingo 38 vereadores. Avaliação do trabalho dos 52 postulantes à reeleição feita por VEJA São Paulo mostrou que o desempenho da maioria foi medíocre nos últimos quatro anos. Apenas oito tiveram nota acima de 7, sendo que seis deles foram reeleitos. Os últimos quatro da lista, com as notas mais baixas, também venceram a eleição.
O vereador José Roberto Tripoli (PV), com uma nota de 2,6, ficou em último lugar na lista feita por VEJA São Paulo. Tripoli foi eleito com 45.750 votos, ficando entre os vinte candidatos mais votados. Em 2007, das 53 votações a que deveria ter comparecido, Tripoli esteve presente em catorze.
Outro candidato que apareceu entre os últimos na lista e foi reeleito com votação considerável foi Milton Leite (DEM). Com uma nota de 3,8, Milton Leite teve 80.051 votos, sendo o quarto candidato mais votado em São Paulo. Dos treze projetos apresentados pelo democrata no atual mandato, oito eram para nomear ruas.
Acesse o site da Veja e conheça a lista dos 38 candidatos reeleitos, com seus respectivos votos e notas da avaliação.
segunda-feira, outubro 06, 2008
Sobre os Resultados Eleitorais
Filtrarei algumas notícias e informações a respeito das eleições municipais para vocês, buscando publicar textos mais analíticos do que textos sobre os números, quanto cada candidato teve de votos e onde ocorrerão os segundos turnos.
Seguem alguns posts que publicarei ao longo da semana.
Seguem alguns posts que publicarei ao longo da semana.
Primeiras Impressões dos Resultados das Eleições
Autor: Jairo Nicolau (Cientista Político)
Fonte: Portal da Revista Veja
As pesquisas e seus erros
Na próxima coluna vou analisar cuidadosamente os erros e acertos dos institutos de pesquisa nas principais cidades do Brasil. Mas uma rápida comparação entre as pesquisas publicadas no domingo da eleição e os resultados das urnas em algumas cidades já revela alguns erros dos institutos. Por exemplo, eles subestimaram a votação de Gabeira no Rio, de Kassab em São Paulo e Quintão em Belo Horizonte.
A justificativa dos institutos para esses erros é sempre a mesma. O trabalho de campo termina no sábado e, por isso, não é possível capturar as ondas eleitorais que acontecem entre sábado e domingo.
O problema é que como as ondas tem acontecido sempre nas grandes cidades, a última pesquisa tem sido uma péssima preditora do que vai acontecer nas urnas.
Precisamos lembrar os eleitores desses detalhes na próxima eleição.
A onda que se ergueu do mar
Falta ver o mapa da impressionante votação de Fernando Gabeira. Ao contrário dos comentaristas de televisão de outros estados imaginam, a votação de Gabeira não foi uma grande surpresa para os cariocas. Ele vinha subindo lentamente desde o começo do horário eleitoral gratuito. A onda começou da zona sul, área mais rica da cidade e se espraiou para os subúrbios da cidade. Sua votação entre os jovens foi impressionante.
O que Alckmin não entendeu
Todo mundo quer saber se 2008 ajuda a explicar 2010. Ninguém se perguntou se 2006 poderia explicar 2008. O candidato do PSDB em São Paulo aprendeu uma dura lição: no Brasil, cada eleição tem as suas circunstâncias. Dois anos depois de seu belo desempenho eleitoral na cidade de São Paulo, viu seus votos reduzirem-se a menos da metade.
Pouca gente lembra, mas o ex-governador Leonel Brizola concorreu a prefeito na cidade do Rio de Janeiro em 2000. Chegou em quarto lugar com apenas 9% dos votos.
A melancólica estréia do DEM
Depois de um resultado ruim nas eleições de 2004 e 2006, o PFL trocou de nome e renovou seus postos de comando. Decidiu apresentar candidatos no maior número de municípios possível. Ainda é cedo para um balanço minucioso do desempenho do partido. Excluindo a cidade de São Paulo, o desempenho do partido nas capitais foi bem abaixo do esperado. No Rio de Janeiro, a candidata do prefeito César Maia, Solange Amaral, chegou em sexto lugar com 4% dos votos. Em Salvador, Antonio Carlos Magalhães Neto ficou de fora do segundo turno. No Recife, Mendonça Filho perdeu já no primeiro turno. Em Belém e Porto Alegre, dois de seus jovens líderes chegaram muito mal.
O PFL vinha encolhendo eleição após eleição e a "reformatação" da legenda parece não ter revertido essa tendência.
A logística das eleições
Não me canso de dizer: os sistemas de votação e apuração inventados no Brasil são um sucesso. Não conheço nada do gênero em nenhum lugar do mundo. Mais de 100 milhões de brasileiros votando em nove horas (de 8h às 17h). Cinco horas depois, mais de 100 milhões de votos apurados.
Fonte: Portal da Revista Veja
As pesquisas e seus erros
Na próxima coluna vou analisar cuidadosamente os erros e acertos dos institutos de pesquisa nas principais cidades do Brasil. Mas uma rápida comparação entre as pesquisas publicadas no domingo da eleição e os resultados das urnas em algumas cidades já revela alguns erros dos institutos. Por exemplo, eles subestimaram a votação de Gabeira no Rio, de Kassab em São Paulo e Quintão em Belo Horizonte.
A justificativa dos institutos para esses erros é sempre a mesma. O trabalho de campo termina no sábado e, por isso, não é possível capturar as ondas eleitorais que acontecem entre sábado e domingo.
O problema é que como as ondas tem acontecido sempre nas grandes cidades, a última pesquisa tem sido uma péssima preditora do que vai acontecer nas urnas.
Precisamos lembrar os eleitores desses detalhes na próxima eleição.
A onda que se ergueu do mar
Falta ver o mapa da impressionante votação de Fernando Gabeira. Ao contrário dos comentaristas de televisão de outros estados imaginam, a votação de Gabeira não foi uma grande surpresa para os cariocas. Ele vinha subindo lentamente desde o começo do horário eleitoral gratuito. A onda começou da zona sul, área mais rica da cidade e se espraiou para os subúrbios da cidade. Sua votação entre os jovens foi impressionante.
O que Alckmin não entendeu
Todo mundo quer saber se 2008 ajuda a explicar 2010. Ninguém se perguntou se 2006 poderia explicar 2008. O candidato do PSDB em São Paulo aprendeu uma dura lição: no Brasil, cada eleição tem as suas circunstâncias. Dois anos depois de seu belo desempenho eleitoral na cidade de São Paulo, viu seus votos reduzirem-se a menos da metade.
Pouca gente lembra, mas o ex-governador Leonel Brizola concorreu a prefeito na cidade do Rio de Janeiro em 2000. Chegou em quarto lugar com apenas 9% dos votos.
A melancólica estréia do DEM
Depois de um resultado ruim nas eleições de 2004 e 2006, o PFL trocou de nome e renovou seus postos de comando. Decidiu apresentar candidatos no maior número de municípios possível. Ainda é cedo para um balanço minucioso do desempenho do partido. Excluindo a cidade de São Paulo, o desempenho do partido nas capitais foi bem abaixo do esperado. No Rio de Janeiro, a candidata do prefeito César Maia, Solange Amaral, chegou em sexto lugar com 4% dos votos. Em Salvador, Antonio Carlos Magalhães Neto ficou de fora do segundo turno. No Recife, Mendonça Filho perdeu já no primeiro turno. Em Belém e Porto Alegre, dois de seus jovens líderes chegaram muito mal.
O PFL vinha encolhendo eleição após eleição e a "reformatação" da legenda parece não ter revertido essa tendência.
A logística das eleições
Não me canso de dizer: os sistemas de votação e apuração inventados no Brasil são um sucesso. Não conheço nada do gênero em nenhum lugar do mundo. Mais de 100 milhões de brasileiros votando em nove horas (de 8h às 17h). Cinco horas depois, mais de 100 milhões de votos apurados.
Debates Eleitorais - Podcast na Folha
04/10/2008 - 10h59
Vence debate quem transmite melhor imagem com melhor conteúdo; ouça
da Folha Online
Os candidatos a prefeito de São Paulo participaram de debates de primeiro turno transmitidos pela Bandeirantes e pela Record. A TV Globo cancelou a edição do confronto deste ano, que seria o último antes da data da eleição.
O cientista político Luiz Renato Ribeira Ferreira, professor das Faculdades Integradas Rio Branco e da Anhanguera Educacional, diz que o formato do debate segue o padrão estabelecido na década de 60. Segundo ele, esse modelo não teria sofrido muitas modificações até os tempos atuais. "São regras estabelecidas anteriormente, dois ou mais candidatos, com os mesmos tempos, e um mediador", comenta.
Luiz Renato Ribeira Ferreira
Ele afirma que os debates televisivos foram fundamentais para determinar o resultado final em algumas eleições. Já em outros períodos eleitorais, as defesas de idéias entre os políticos não foram relevantes para a decisão do eleitor.
O professor diz que em 26 de setembro de 1960, foi transmitido, nos EUA, o primeiro debate televisivo. O marco foi protagonizado pelos candidatos à Presidência Richard Nixon e John Kennedy.
De acordo com Ferreira, na mesma data, Nixon cumpriu sua agenda e passou o dia em campanha. Kennedy se resguardou, pois acreditava que aquele evento era algo muito importante.
Na hora do confronto, Nixon estava com a expressão cansada, a barba por fazer e com a roupa amassada. Em um terno alinhado e com o rosto bem cuidado, Kennedy passava ao telespectador uma imagem de segurança, relata Ferreira.
"Os eleitores que ouviram o debate pelo rádio, deram a vitória para Nixon, enquanto aqueles que assistiram pela televisão, deram a vitória para o Kennedy. O vencedor foi aquele que entendeu a importância da imagem na TV", explica.
De acordo com o cientista político, vence aquele que transmite a melhor imagem com o melhor conteúdo. Atualmente, estão embutidos outros aspectos nesse conceito de imagem e eles não se restringem à aparência física e a uma roupa bem cortada.
Ele fala que gestos, que representam algum tipo de insegurança durante o debate, podem comprometer a aceitação do político por parte do eleitor. Por isso, os assessores dos candidatos realizam ensaios simulando perguntas constrangedoras que possam ser feitas ao concorrente durante o programa.
"Um candidato perfeito em um debate é aquele que fala como o Nixon e se apresenta como o Kennedy", conclui.
Vence debate quem transmite melhor imagem com melhor conteúdo; ouça
da Folha Online
Os candidatos a prefeito de São Paulo participaram de debates de primeiro turno transmitidos pela Bandeirantes e pela Record. A TV Globo cancelou a edição do confronto deste ano, que seria o último antes da data da eleição.
O cientista político Luiz Renato Ribeira Ferreira, professor das Faculdades Integradas Rio Branco e da Anhanguera Educacional, diz que o formato do debate segue o padrão estabelecido na década de 60. Segundo ele, esse modelo não teria sofrido muitas modificações até os tempos atuais. "São regras estabelecidas anteriormente, dois ou mais candidatos, com os mesmos tempos, e um mediador", comenta.
Luiz Renato Ribeira Ferreira
Ele afirma que os debates televisivos foram fundamentais para determinar o resultado final em algumas eleições. Já em outros períodos eleitorais, as defesas de idéias entre os políticos não foram relevantes para a decisão do eleitor.
O professor diz que em 26 de setembro de 1960, foi transmitido, nos EUA, o primeiro debate televisivo. O marco foi protagonizado pelos candidatos à Presidência Richard Nixon e John Kennedy.
De acordo com Ferreira, na mesma data, Nixon cumpriu sua agenda e passou o dia em campanha. Kennedy se resguardou, pois acreditava que aquele evento era algo muito importante.
Na hora do confronto, Nixon estava com a expressão cansada, a barba por fazer e com a roupa amassada. Em um terno alinhado e com o rosto bem cuidado, Kennedy passava ao telespectador uma imagem de segurança, relata Ferreira.
"Os eleitores que ouviram o debate pelo rádio, deram a vitória para Nixon, enquanto aqueles que assistiram pela televisão, deram a vitória para o Kennedy. O vencedor foi aquele que entendeu a importância da imagem na TV", explica.
De acordo com o cientista político, vence aquele que transmite a melhor imagem com o melhor conteúdo. Atualmente, estão embutidos outros aspectos nesse conceito de imagem e eles não se restringem à aparência física e a uma roupa bem cortada.
Ele fala que gestos, que representam algum tipo de insegurança durante o debate, podem comprometer a aceitação do político por parte do eleitor. Por isso, os assessores dos candidatos realizam ensaios simulando perguntas constrangedoras que possam ser feitas ao concorrente durante o programa.
"Um candidato perfeito em um debate é aquele que fala como o Nixon e se apresenta como o Kennedy", conclui.
quinta-feira, outubro 02, 2008
Cuidado com as Pesquisas!
Já é pública e notória a manipulação das pesquisas eleitorais por parte de institutos de fundo de quintal, as quais são contratadas por determinados candidatos com o objetivo de confundir os eleitores, prejudicar a arrecadação financeira da campanha dos adversários e desanimar os partidários daquele que artificialmente "cai" nas pesquisas. Inúmeros truques são utilizados para isso, mas o principal deles é realizar as pesquisas sem que existam quaisquer critérios técnicos que possam garantir sua cientificidade. Normalmente, este tipo de tramóia é feita pelos institutos de pesquisa, como eu afirmei acima, de fundo de quintal.
No entanto, como a ocasião faz o ladrão e a fiscalização e repressão são ineficientes, agora até mesmo renomados institutos estão sendo investigados pela mesma prática.
O IBOPE serve como exemplo. Em cidades do sul de Minas já foram protocolados e estão sob investigação várias pesquisas eleitorais. Na cidade de Maringá, no Paraná, o Juiz eleitoral da cidade impugnou todas as tentativas de divulgação das duas pesquisas IBOPE para as eleições. Em Campinas, o Juíz eleitoral local também proibiu, numa medida cautelar, a divulgação da pesquisa IBOPE para a prefeitura local, uma vez que foram encontrados claros indícios de manipulação em favor do atual prefeito que é candidato à reeleição.
No Rio de Janeiro uma curiosa divulgação de duas pesquisas, uma do IBOPE e outra do DATAFOLHA (realizadas praticamente nas mesmas datas) poderá demonstrar se o IBOPE está sendo vítima de perseguição ou se de fato está vendido para interesses escusos.
Vejam as diferenças:
Eduardo Paes, candidato do PMDB, aparece com 29% das intenções de voto em ambas pesquisas. Até aí, tudo normal. Já o candidato Marcelo Crivella, do PRB, aparece na pesquisa DATAFOLHA com 18% e na do IBOPE com 24%. Algo parecido ocorre com o candidato do PV, Fernando Gabeira que tem 15% no DATAFOLHA e 10% no IBOPE.
Ora, meus alunos que já sabem muito bem ler e interpretar pesquisas de opinião, pois trabalhamos isso incansavelmente no curso de Teoria da Opinião Pública, devem fazer uma observação cuidadosa para, após os resultados eleitorais, observar quanto que cada instituto se aproximou ou se distanciou dos resultados verdadeiros.
Uma dica: não vale se basear na pesquisa de boca de urna, aquela feita nas portas das escolas no dia da eleição, pois nesse dia todos os institutos acertam porque não são bobos, uma vez que precisam dizer na TV (após o final da apuração) que acertaram todos os resultados previstos. Observem os números anteriores e o desenvolvimento de cada candidato. Pesquisa de boca de urna de instituto de fundo de quintal é feita para que os "analistas" reafirmem que não ocorreu erro, mas sim algo como "uma surpreendente virada nos últimos dias antes do pleito", ou então "uma reviravolta nas intenções de voto", ou qualquer outra frase com pseudo conteúdo técnico para que possam se credenciar para as próximas eleições e faturar ainda mais. Se quiserem, convido para um concurso cultural, em que vocês poderão encontrar a melhor frase de efeito para explicar "a surpreendente virada de última hora" nas eleições municipais.
No entanto, como a ocasião faz o ladrão e a fiscalização e repressão são ineficientes, agora até mesmo renomados institutos estão sendo investigados pela mesma prática.
O IBOPE serve como exemplo. Em cidades do sul de Minas já foram protocolados e estão sob investigação várias pesquisas eleitorais. Na cidade de Maringá, no Paraná, o Juiz eleitoral da cidade impugnou todas as tentativas de divulgação das duas pesquisas IBOPE para as eleições. Em Campinas, o Juíz eleitoral local também proibiu, numa medida cautelar, a divulgação da pesquisa IBOPE para a prefeitura local, uma vez que foram encontrados claros indícios de manipulação em favor do atual prefeito que é candidato à reeleição.
No Rio de Janeiro uma curiosa divulgação de duas pesquisas, uma do IBOPE e outra do DATAFOLHA (realizadas praticamente nas mesmas datas) poderá demonstrar se o IBOPE está sendo vítima de perseguição ou se de fato está vendido para interesses escusos.
Vejam as diferenças:
Eduardo Paes, candidato do PMDB, aparece com 29% das intenções de voto em ambas pesquisas. Até aí, tudo normal. Já o candidato Marcelo Crivella, do PRB, aparece na pesquisa DATAFOLHA com 18% e na do IBOPE com 24%. Algo parecido ocorre com o candidato do PV, Fernando Gabeira que tem 15% no DATAFOLHA e 10% no IBOPE.
Ora, meus alunos que já sabem muito bem ler e interpretar pesquisas de opinião, pois trabalhamos isso incansavelmente no curso de Teoria da Opinião Pública, devem fazer uma observação cuidadosa para, após os resultados eleitorais, observar quanto que cada instituto se aproximou ou se distanciou dos resultados verdadeiros.
Uma dica: não vale se basear na pesquisa de boca de urna, aquela feita nas portas das escolas no dia da eleição, pois nesse dia todos os institutos acertam porque não são bobos, uma vez que precisam dizer na TV (após o final da apuração) que acertaram todos os resultados previstos. Observem os números anteriores e o desenvolvimento de cada candidato. Pesquisa de boca de urna de instituto de fundo de quintal é feita para que os "analistas" reafirmem que não ocorreu erro, mas sim algo como "uma surpreendente virada nos últimos dias antes do pleito", ou então "uma reviravolta nas intenções de voto", ou qualquer outra frase com pseudo conteúdo técnico para que possam se credenciar para as próximas eleições e faturar ainda mais. Se quiserem, convido para um concurso cultural, em que vocês poderão encontrar a melhor frase de efeito para explicar "a surpreendente virada de última hora" nas eleições municipais.
Mais Uma Comissão Imprescindível Para o Desenvolvimento do Brasil !!!
O Governo Federal acaba de criar uma Comissão para discutir a padronização de Porcelanas de Mesa para as embaixadas instaladas em Brasília.
Acho que "despensa" comentários!
Leiam abaixo o ato da Subsecretária-Geral do Serviço Exterior do Ministério das Relações Exteriores, publicado na edição do Diário Oficial da União do último dia 30:
"A SUBSECRETÁRIA - GERAL DO SERVIÇO EXTERIOR, no uso de sua competência,estabelecida no art. 161 do Regimento Interno da Secretaria de Estado das Relações Exteriores, e com fulcro no art. 15 da Lei n. 8.666, de 21 de junho de 1993, resolve:
I - Criar Comissão de Padronização de Porcelanas Finas de Mesa, material de uso exclusivo das sedes das Missões Diplomáticas brasileiras, composta por três servidores do Quadro Permanente do Ministério das Relações Exteriores.
II - Designar para a Comissão de Comissão de Padronização de Porcelanas Finas de Mesa os servidores:
CONSELHEIRO PAULINO FRANCO DE CARVALHO NETO - Chefe de Gabinete da Subsecretaria-Geral do Serviço Exterior;
OFICIAL DE CHANCELARIA VANESSA SOUTO MAIOR DE MEDEIROS TORRES- lotada no Consulado-Geral do Brasil em Roma;
- OFICIAL DE CHANCELARIA SANDRA MYRIAM AMORIM DANTAS - lotada no Departamento de Administração.
Assinado: Maria Stela Pompeu Brasil Frota"
Acho que "despensa" comentários!
Leiam abaixo o ato da Subsecretária-Geral do Serviço Exterior do Ministério das Relações Exteriores, publicado na edição do Diário Oficial da União do último dia 30:
"A SUBSECRETÁRIA - GERAL DO SERVIÇO EXTERIOR, no uso de sua competência,estabelecida no art. 161 do Regimento Interno da Secretaria de Estado das Relações Exteriores, e com fulcro no art. 15 da Lei n. 8.666, de 21 de junho de 1993, resolve:
I - Criar Comissão de Padronização de Porcelanas Finas de Mesa, material de uso exclusivo das sedes das Missões Diplomáticas brasileiras, composta por três servidores do Quadro Permanente do Ministério das Relações Exteriores.
II - Designar para a Comissão de Comissão de Padronização de Porcelanas Finas de Mesa os servidores:
CONSELHEIRO PAULINO FRANCO DE CARVALHO NETO - Chefe de Gabinete da Subsecretaria-Geral do Serviço Exterior;
OFICIAL DE CHANCELARIA VANESSA SOUTO MAIOR DE MEDEIROS TORRES- lotada no Consulado-Geral do Brasil em Roma;
- OFICIAL DE CHANCELARIA SANDRA MYRIAM AMORIM DANTAS - lotada no Departamento de Administração.
Assinado: Maria Stela Pompeu Brasil Frota"
terça-feira, setembro 16, 2008
Abrindo Caminho Para a Política Moderna- Maquiavel
Nota Importante: Os posts da série “Abrindo o Caminho da Política Moderna” foram criados com o objetivo de facilitar o acesso dos leitores pouco acostumados às obras do pensamento político moderno, para que possam se sentir mais confortáveis no momento de ler os originais dos autores aqui citados. Não tem, portanto, a intenção de ser um texto que contemple todas as idéias e teorias dos clássicos, mas que possa, de alguma forma, oferecer os elementos cruciais para que, ao ler a obra original, a essência do pensamento de cada um seja imediatamente captada.
Parte 1: Maquiavel
Se a “chave” para compreender o pensamento maquiavélico é a idéia das inúmeras rupturas promovidas por seu pensamento e a “chave” para compreender o pensamento hobesiano é a idéia do estado de natureza, o caminho para definir o pensamento de Locke é o conceito da propriedade privada.
Já afirmei diversas vezes que todos os teóricos e filósofos importantes da Ciência Política eram observadores de seu tempo e faziam desta ação seu ofício. Observar, analisar e criticar eram as principais etapas na construção de suas teorias. Dessa forma, se Maquiavel antecipou-se ao criar o homem de virtù, sabedor da decadência do poder da Igreja Católica Romana que defendia o “mundo das verdades reveladas”, tanto Hobbes, quanto Locke atreveram-se a explicar certas particularidades promovidas pelo fim do feudalismo e início do capitalismo. Devemos recordar que a Inglaterra de Locke fora transformada em um império mercantil a partir da segunda metade do século XVI e que as alterações nas relações de força promovidas pelas novas relações políticas e comerciais da época contribuíram para a construção do pensamento político do período.
Recordemos, pois, desde o início da Ciência Política Moderna, o processo de construção do pensamento político a partir de Maquiavel.
Como disse, Maquiavel é marcado pelas inúmeras rupturas propostas em sua obra fundamental “O Príncipe”. A moral versus a política, a igreja versus a ciência, a virtù versus a fortuna; todas elas são dicotomias apresentadas para reforçar a negação de tudo aquilo que fizesse parte das influências da Igreja e da religião no campo político.
Lembrem-se de Bobbio, ao analisar Maquiavel, o qual afirmou que “Aquilo que é obrigatório em moral nem sempre é obrigatório na política, e aquilo que é licito na política nem sempre é licito na moral. Podem existir ações morais que são apolíticas e ações políticas que são imorais.” A objeção de Maquiavel às influências da igreja no campo político ocorrem ao mesmo tempo em que, nas palavras de Marco Mondaini, a legitimidade de uma sociedade hierarquizada, fundada em privilégios de nascença perdeu força. Agora, a questão não era mais como alcançar o Poder, mas sim, como mantê-lo após conquistado; em outras palavras, é possível estabelecer relações de força e aplicar a violência para vencer e conquistar, mas este mesmo procedimento se tornou ineficaz para fazê-lo subsistir.
Nos tempos em que o homem passa a dominar a natureza, a explicar seus principais fenômenos e a promover o pensamento científico em detrimento dos dogmas religiosos, a descoberta da verdade não mais dependia de forças espirituais, mas sim do esforço criativo do homem. Nessa linha, persistir com as teses de que o Poder era uma bênção para afortunados escolhidos por Deus tornou-se algo tão anacrônico quanto imaginar que a proteção divina destes líderes políticos justificaria suas ineficácias e arbitrariedades cometidas contra seus súditos.
Ao romper com o paradigma da legitimidade da posse do Poder baseada em princípios divinos, Maquiavel percorre, na política, um caminho irreversível cujos passos foram seguidos por outros pensadores dos séculos seguintes. O rompimento de Maquiavel proporcionou a autonomia que a política necessitava para se desenvolver e se transformar. Este processo de “libertação” do pensamento político também se revela nas diferentes formas de organização social, cujo marco simbólico pode ter sido o momento em que os indivíduos deixaram de ser súditos e transformaram-se em cidadãos.
Parte 1: Maquiavel
Se a “chave” para compreender o pensamento maquiavélico é a idéia das inúmeras rupturas promovidas por seu pensamento e a “chave” para compreender o pensamento hobesiano é a idéia do estado de natureza, o caminho para definir o pensamento de Locke é o conceito da propriedade privada.
Já afirmei diversas vezes que todos os teóricos e filósofos importantes da Ciência Política eram observadores de seu tempo e faziam desta ação seu ofício. Observar, analisar e criticar eram as principais etapas na construção de suas teorias. Dessa forma, se Maquiavel antecipou-se ao criar o homem de virtù, sabedor da decadência do poder da Igreja Católica Romana que defendia o “mundo das verdades reveladas”, tanto Hobbes, quanto Locke atreveram-se a explicar certas particularidades promovidas pelo fim do feudalismo e início do capitalismo. Devemos recordar que a Inglaterra de Locke fora transformada em um império mercantil a partir da segunda metade do século XVI e que as alterações nas relações de força promovidas pelas novas relações políticas e comerciais da época contribuíram para a construção do pensamento político do período.
Recordemos, pois, desde o início da Ciência Política Moderna, o processo de construção do pensamento político a partir de Maquiavel.
Como disse, Maquiavel é marcado pelas inúmeras rupturas propostas em sua obra fundamental “O Príncipe”. A moral versus a política, a igreja versus a ciência, a virtù versus a fortuna; todas elas são dicotomias apresentadas para reforçar a negação de tudo aquilo que fizesse parte das influências da Igreja e da religião no campo político.
Lembrem-se de Bobbio, ao analisar Maquiavel, o qual afirmou que “Aquilo que é obrigatório em moral nem sempre é obrigatório na política, e aquilo que é licito na política nem sempre é licito na moral. Podem existir ações morais que são apolíticas e ações políticas que são imorais.” A objeção de Maquiavel às influências da igreja no campo político ocorrem ao mesmo tempo em que, nas palavras de Marco Mondaini, a legitimidade de uma sociedade hierarquizada, fundada em privilégios de nascença perdeu força. Agora, a questão não era mais como alcançar o Poder, mas sim, como mantê-lo após conquistado; em outras palavras, é possível estabelecer relações de força e aplicar a violência para vencer e conquistar, mas este mesmo procedimento se tornou ineficaz para fazê-lo subsistir.
Nos tempos em que o homem passa a dominar a natureza, a explicar seus principais fenômenos e a promover o pensamento científico em detrimento dos dogmas religiosos, a descoberta da verdade não mais dependia de forças espirituais, mas sim do esforço criativo do homem. Nessa linha, persistir com as teses de que o Poder era uma bênção para afortunados escolhidos por Deus tornou-se algo tão anacrônico quanto imaginar que a proteção divina destes líderes políticos justificaria suas ineficácias e arbitrariedades cometidas contra seus súditos.
Ao romper com o paradigma da legitimidade da posse do Poder baseada em princípios divinos, Maquiavel percorre, na política, um caminho irreversível cujos passos foram seguidos por outros pensadores dos séculos seguintes. O rompimento de Maquiavel proporcionou a autonomia que a política necessitava para se desenvolver e se transformar. Este processo de “libertação” do pensamento político também se revela nas diferentes formas de organização social, cujo marco simbólico pode ter sido o momento em que os indivíduos deixaram de ser súditos e transformaram-se em cidadãos.
Abrindo Caminho Para a Política Moderna- Hobbes e Locke
Nota Importante: Os posts da série “Abrindo o Caminho da Política Moderna” foram criados com o objetivo de facilitar o acesso dos leitores pouco acostumados às obras do pensamento político moderno, para que possam se sentir mais confortáveis no momento de ler os originais dos autores aqui citados. Não tem, portanto, a intenção de ser um texto que contemple todas as idéias e teorias dos clássicos, mas que possa, de alguma forma, oferecer os elementos cruciais para que, ao ler a obra original, a essência do pensamento de cada um seja imediatamente captada.
Parte 2: Hobbes e Locke
Escrever sobre Política é escrever sobre Poder, afinal, o que desejam os políticos, com boas ou más intenções? Change the World? Save the Planet? Save the Whales? Save the Children? Não! Achive Power!!! Sim, caros leitores, os Políticos querem o Poder e o problema dos cidadãos comuns, como eu e você, é pensar que obter e exercer o Poder são coisas reservadas somente aos Políticos. Quantos cidadãos vocês conhecem que pensam exatamente assim: imaginam que o exercício do poder só se realiza quando “se chega lá”!
Pois esta forma de pensamento típico de países despolitizados como o nosso não é uma novidade. De maneira diferente, Hobbes e Locke inauguraram esta discussão sobre a forma do exercício do Poder. Para meus alunos e ex-alunos vocês se lembram: tanto Hobbes quanto Locke são “contratualistas”. Na teoria hobbesiana, a humanidade passou de um período chamado “estado da natureza” para o “estado civil”. No “estado da natureza” não existiam regras, não existiam leis e eram todos contra todos (para tentar imaginar como eram as coisas, vá ao estádio de futebol em um domingo, sente-se naquela parte vazia da arquibancada que separa as torcidas do Palmeiras e do São Paulo ─ do Corinthians o exemplo não se aplica porque eles estão na segunda divisão ─ acaricie um pastor alemão da Polícia Militar, vista qualquer uma das camisetas e vá ao encontro da torcida contrária à cor da camiseta que estiver vestindo e descubra o verdadeiro “estado da natureza”). No processo das experiências históricas, o homem percebeu que um Poder soberano era necessário para garantir a paz social. Trata-se de um juiz que, baseado nas regras existentes, aplica a lei de forma soberana garantindo assim a justiça para todos. Essa é a teoria e este é o “estado civil”. Para fazer essa passagem histórica, o homem criou regras e leis, criou juízes e um grande aparato estatal destinado a exercer da melhor forma possível seu poder. Hobbes ilustrou essa passagem com a figura de um contrato. Para ele, a passagem do estado da natureza para o estado civil deu-se por meio de um contrato entre os homens fazendo com que o Estado fosse criado. Por isso ele é chamado de “contratualista”.
Locke concordou com essa tese e reafirmou suas bases ao escrever sobre o tema. Entretanto existem diferenças fundamentais entre Hobbes e Locke, pois se ambos concordam com a teoria da passagem do “estado da natureza” para o “estado civil”, ambos discordam absolutamente sobre as razões deste processo e a forma como o Estado moderno iria exercer o seu poder sobre o povo.
Antes, no entanto, de explicar quais as diferenças entre Hobbes e Locke, é importante fazer um alerta sobre a idéia da passagem do “estado da natureza” para o “estado civil”. Ainda que tenha a necessidade de ilustrar certas teorias, criando figuras e exemplos caricatos (como na brincadeira que fiz com o torcedor das arquibancadas), tenho uma especial preocupação em fazer com que meus alunos e leitores não compreendam as teorias dos clássicos como se fossem temas simples e usuais. Não. O tema, de fato, é complexo e exige por parte dos leitores algum poder de abstração. Isso serve no exemplo da passagem do estado da natureza para o civil. Em nenhum momento um troglodita, que minutos antes guerreava com outro troglodita, criou um contrato no papel em que ambos assinaram e saíram felizes com a existência do Estado Moderno. Hobbes, ao citar o “estado da natureza”, não está falando literalmente sobre indivíduos não civilizados, mas sim sobre o comportamento humano, independentemente do local ou do tempo. Trata-se de um retrato sobre a natureza humana e não sobre pessoas de carne e osso, enfim, o estado da natureza é uma forma de abstração do pensamento hobbesiano que serve para apoiar sua tese de que em algum momento na história, uma transformação social criou as primeiras instituições políticas, as quais foram representadas pelo que chamamos hoje de Estado Moderno.
Feita esta importante consideração, resta-nos voltar às explicações anteriores. O filósofo John Locke “dialogou” bastante com Hobbes. A diferença entre eles é que Hobbes defendia o poder absoluto e soberano de um líder político traduzido na figura do monarca despótico, ou seja, aquele rei que tudo pode e exerce seu poder sem limites. Para Hobbes, a autoridade absoluta era justamente o elemento que manteria as sociedades em paz, uma vez que a força era um elemento fundamental do exercício do poder político. Neste caso, o povo deveria temer e se sujeitar a esse poder. O poder do líder não era legitimado pelo povo, nem consentido, o poder do líder era baseado no medo e no terror impostos por meio da força.
Locke acreditava na tese da passagem do estado da natureza para o estado civil. Também entendia que o Estado Moderno, criado por meio de um pacto, viera com a função de manter a paz social e defender o povo das ameaças externas. Também concordava que para controlar os homens em “estado da natureza” deveria existir uma força maior que pudesse fazer o uso da violência exclusiva em nome da segurança de todos. As semelhanças com Hobbes não vão muito mais longe do que isso. Ocorre que se Locke aprecia a idéia da formação de um Estado com poderes para manter a paz social, ele entende que este Estado fora criado pelos próprios indivíduos e não algo imposto a eles como no modelo hobbesiano.
Locke entende que o estado da natureza não era algo ruim, pois na lei da natureza os homens são livres e iguais. O problema estava naqueles indivíduos que iam contra a lei da natureza, renunciando à razão e dando o direito a outros de castigá-lo. Essa idéia demonstra o ciclo vicioso em que cada integrante de um meio social que infringe as regras deve ser castigado e, dessa forma, ao ser castigado procurará vingar-se daqueles que o agrediram. A solução para interromper este tipo de processo auto-destrutivo é abrir mão de seu direito de fazer justiça entregando-o a um corpo político que representasse a maioria das pessoas, ou seja, o Estado.
Portanto, no caso de Locke, o Estado fora criado pelos homens, os quais abriram mão de seu poder individual de fazer e executar as regras e deram esse poder a uma instituição política maior. Neste caso, trata-se de um poder consentido, legítimo e baseado na escolha da maioria absoluta. Percebam a diferença entre Hobbes e Locke neste ponto. Ambos compartilham a idéia de um Estado que deverá usar a força e a violência para manter a paz social. A diferença está no fato de que um tipo de Poder é imposto e exercido por um só líder, enquanto o outro é legitimado pela maioria e compartido entre diferentes instituições, dentre elas um Parlamento.
Como já afirmei anteriormente, este texto pretende ser o ponto de partida para quem iniciará as leituras sobre esses autores ou uma forma de simplificar e facilitar a interpretação dos textos para aqueles que já leram, mas precisam de outras informações para fixar o tema ou clarear algumas idéias.
Na obra de Locke ainda existem temas muito importantes, com destaque para a questão da propriedade privada, a qual usarei de “gancho” para o texto sobre Weber e Marx.
Parte 2: Hobbes e Locke
Escrever sobre Política é escrever sobre Poder, afinal, o que desejam os políticos, com boas ou más intenções? Change the World? Save the Planet? Save the Whales? Save the Children? Não! Achive Power!!! Sim, caros leitores, os Políticos querem o Poder e o problema dos cidadãos comuns, como eu e você, é pensar que obter e exercer o Poder são coisas reservadas somente aos Políticos. Quantos cidadãos vocês conhecem que pensam exatamente assim: imaginam que o exercício do poder só se realiza quando “se chega lá”!
Pois esta forma de pensamento típico de países despolitizados como o nosso não é uma novidade. De maneira diferente, Hobbes e Locke inauguraram esta discussão sobre a forma do exercício do Poder. Para meus alunos e ex-alunos vocês se lembram: tanto Hobbes quanto Locke são “contratualistas”. Na teoria hobbesiana, a humanidade passou de um período chamado “estado da natureza” para o “estado civil”. No “estado da natureza” não existiam regras, não existiam leis e eram todos contra todos (para tentar imaginar como eram as coisas, vá ao estádio de futebol em um domingo, sente-se naquela parte vazia da arquibancada que separa as torcidas do Palmeiras e do São Paulo ─ do Corinthians o exemplo não se aplica porque eles estão na segunda divisão ─ acaricie um pastor alemão da Polícia Militar, vista qualquer uma das camisetas e vá ao encontro da torcida contrária à cor da camiseta que estiver vestindo e descubra o verdadeiro “estado da natureza”). No processo das experiências históricas, o homem percebeu que um Poder soberano era necessário para garantir a paz social. Trata-se de um juiz que, baseado nas regras existentes, aplica a lei de forma soberana garantindo assim a justiça para todos. Essa é a teoria e este é o “estado civil”. Para fazer essa passagem histórica, o homem criou regras e leis, criou juízes e um grande aparato estatal destinado a exercer da melhor forma possível seu poder. Hobbes ilustrou essa passagem com a figura de um contrato. Para ele, a passagem do estado da natureza para o estado civil deu-se por meio de um contrato entre os homens fazendo com que o Estado fosse criado. Por isso ele é chamado de “contratualista”.
Locke concordou com essa tese e reafirmou suas bases ao escrever sobre o tema. Entretanto existem diferenças fundamentais entre Hobbes e Locke, pois se ambos concordam com a teoria da passagem do “estado da natureza” para o “estado civil”, ambos discordam absolutamente sobre as razões deste processo e a forma como o Estado moderno iria exercer o seu poder sobre o povo.
Antes, no entanto, de explicar quais as diferenças entre Hobbes e Locke, é importante fazer um alerta sobre a idéia da passagem do “estado da natureza” para o “estado civil”. Ainda que tenha a necessidade de ilustrar certas teorias, criando figuras e exemplos caricatos (como na brincadeira que fiz com o torcedor das arquibancadas), tenho uma especial preocupação em fazer com que meus alunos e leitores não compreendam as teorias dos clássicos como se fossem temas simples e usuais. Não. O tema, de fato, é complexo e exige por parte dos leitores algum poder de abstração. Isso serve no exemplo da passagem do estado da natureza para o civil. Em nenhum momento um troglodita, que minutos antes guerreava com outro troglodita, criou um contrato no papel em que ambos assinaram e saíram felizes com a existência do Estado Moderno. Hobbes, ao citar o “estado da natureza”, não está falando literalmente sobre indivíduos não civilizados, mas sim sobre o comportamento humano, independentemente do local ou do tempo. Trata-se de um retrato sobre a natureza humana e não sobre pessoas de carne e osso, enfim, o estado da natureza é uma forma de abstração do pensamento hobbesiano que serve para apoiar sua tese de que em algum momento na história, uma transformação social criou as primeiras instituições políticas, as quais foram representadas pelo que chamamos hoje de Estado Moderno.
Feita esta importante consideração, resta-nos voltar às explicações anteriores. O filósofo John Locke “dialogou” bastante com Hobbes. A diferença entre eles é que Hobbes defendia o poder absoluto e soberano de um líder político traduzido na figura do monarca despótico, ou seja, aquele rei que tudo pode e exerce seu poder sem limites. Para Hobbes, a autoridade absoluta era justamente o elemento que manteria as sociedades em paz, uma vez que a força era um elemento fundamental do exercício do poder político. Neste caso, o povo deveria temer e se sujeitar a esse poder. O poder do líder não era legitimado pelo povo, nem consentido, o poder do líder era baseado no medo e no terror impostos por meio da força.
Locke acreditava na tese da passagem do estado da natureza para o estado civil. Também entendia que o Estado Moderno, criado por meio de um pacto, viera com a função de manter a paz social e defender o povo das ameaças externas. Também concordava que para controlar os homens em “estado da natureza” deveria existir uma força maior que pudesse fazer o uso da violência exclusiva em nome da segurança de todos. As semelhanças com Hobbes não vão muito mais longe do que isso. Ocorre que se Locke aprecia a idéia da formação de um Estado com poderes para manter a paz social, ele entende que este Estado fora criado pelos próprios indivíduos e não algo imposto a eles como no modelo hobbesiano.
Locke entende que o estado da natureza não era algo ruim, pois na lei da natureza os homens são livres e iguais. O problema estava naqueles indivíduos que iam contra a lei da natureza, renunciando à razão e dando o direito a outros de castigá-lo. Essa idéia demonstra o ciclo vicioso em que cada integrante de um meio social que infringe as regras deve ser castigado e, dessa forma, ao ser castigado procurará vingar-se daqueles que o agrediram. A solução para interromper este tipo de processo auto-destrutivo é abrir mão de seu direito de fazer justiça entregando-o a um corpo político que representasse a maioria das pessoas, ou seja, o Estado.
Portanto, no caso de Locke, o Estado fora criado pelos homens, os quais abriram mão de seu poder individual de fazer e executar as regras e deram esse poder a uma instituição política maior. Neste caso, trata-se de um poder consentido, legítimo e baseado na escolha da maioria absoluta. Percebam a diferença entre Hobbes e Locke neste ponto. Ambos compartilham a idéia de um Estado que deverá usar a força e a violência para manter a paz social. A diferença está no fato de que um tipo de Poder é imposto e exercido por um só líder, enquanto o outro é legitimado pela maioria e compartido entre diferentes instituições, dentre elas um Parlamento.
Como já afirmei anteriormente, este texto pretende ser o ponto de partida para quem iniciará as leituras sobre esses autores ou uma forma de simplificar e facilitar a interpretação dos textos para aqueles que já leram, mas precisam de outras informações para fixar o tema ou clarear algumas idéias.
Na obra de Locke ainda existem temas muito importantes, com destaque para a questão da propriedade privada, a qual usarei de “gancho” para o texto sobre Weber e Marx.
quinta-feira, setembro 11, 2008
As Três Fases da Campanha Eleitoral
Fonte: Site da Revista Veja (www.veja.com)
Autor: Jairo Nicolau (Cientista Político e Professor do IUPERJ)
"A campanha eleitoral no Brasil dura oficialmente três meses. Ao logo deste período, o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação varia e os candidatos criam diferentes estratégias para suas campanhas. A partir da experiência de outras eleições, considero que as campanhas eleitorais para os cargos do Executivo possam ser divididas em três fases distintas.
A primeira fase vai do começo de julho, quando as candidaturas são oficializadas, até meados de agosto, quando começa o horário eleitoral no rádio e televisão. Nessa fase, que dura aproximadamente seis semanas, surgem os primeiros sinais de campanha de rua, mas o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação pela disputa ainda é reduzido. Lembre que essa fase coincide, ora com a Copa do Mundo, ora com as Olímpíadas. As pesquisas feitas durante esse período apresentam altíssimo contingente de indecisos e tendem a favorecer os nomes de candidatos mais conhecidos do eleitor.
A segunda fase começa com a propaganda no rádio e televisão e vai até meados de setembro. É o momento que a campanha começa para valer nas maiores cidades. O horário eleitoral e os comerciais de 30 segundos durante a programação ampliam o conhecimento dos eleitores dos candidatos que estão na disputa. Nessa fase, os candidatos intensificam a propaganda de rua e o espaço da cobertura da campanha nos meios de comunicação é sensivelmente ampliado. Ao fim deste período, a maioria dos eleitores já têm conhecimento dos nomes que concorrem e o número de indecisos tendem a cair drasticamente. As pesquisas feitas no fim deste período já captam o padrão mais geral da disputa.
A última fase da campanha vai de meados de setembro ao dia das eleições. Nessas três últimas semanas, cresce significativamente o interesse dos eleitores pela disputa,. Esses passam a assistir com mais freqüência o horário eleitoral e aos eventuais debates entre os candidatos. Entre 20% e 30% dos eleitores costumam chegar a essa fase ainda indecisos (com maior concentração na população mais pobre e menos escolarizada). Por isso, ainda existe margem para as "surpresas" de última hora. Essa é sempre a esperança -- e na maior parte das vezes, a ilusão -- dos candidatos.
Creio que este esquema resuma, em linhas gerais, o padrão geral das campanhas para o Executivo no Brasil. Mas estou consciente da existência de diferenças de ritmos da política em cada uma das cidades. Uma fator fundamental que distingue as cidades é a existência de canais locais de televisão para veicularem o horário eleitoral. Outro é o tamanho da população. Em cidades pequenas os candidatos não tem a mesma dificuldade de se fazerem conhecer, e o papel da relações pessoais é bem maior.
Estamos nos aproximando do fim da segunda fase da campanha. Os resultados das pesquisas para algumas capitais aponta favoritos inequívocos, com alta probabilidade de vencerem já no primeiro turno. Por exemplo: Beto Richa (PSDB), em Curitiba; João da Costa (PT), no Recife; Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte. A disputa está aberta e deve ser emocionante em Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Fortaleza. Em todas essas últimas o alto contingente de indecisos aumenta as chances de surpresas de última hora."
Autor: Jairo Nicolau (Cientista Político e Professor do IUPERJ)
"A campanha eleitoral no Brasil dura oficialmente três meses. Ao logo deste período, o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação varia e os candidatos criam diferentes estratégias para suas campanhas. A partir da experiência de outras eleições, considero que as campanhas eleitorais para os cargos do Executivo possam ser divididas em três fases distintas.
A primeira fase vai do começo de julho, quando as candidaturas são oficializadas, até meados de agosto, quando começa o horário eleitoral no rádio e televisão. Nessa fase, que dura aproximadamente seis semanas, surgem os primeiros sinais de campanha de rua, mas o interesse dos eleitores e dos meios de comunicação pela disputa ainda é reduzido. Lembre que essa fase coincide, ora com a Copa do Mundo, ora com as Olímpíadas. As pesquisas feitas durante esse período apresentam altíssimo contingente de indecisos e tendem a favorecer os nomes de candidatos mais conhecidos do eleitor.
A segunda fase começa com a propaganda no rádio e televisão e vai até meados de setembro. É o momento que a campanha começa para valer nas maiores cidades. O horário eleitoral e os comerciais de 30 segundos durante a programação ampliam o conhecimento dos eleitores dos candidatos que estão na disputa. Nessa fase, os candidatos intensificam a propaganda de rua e o espaço da cobertura da campanha nos meios de comunicação é sensivelmente ampliado. Ao fim deste período, a maioria dos eleitores já têm conhecimento dos nomes que concorrem e o número de indecisos tendem a cair drasticamente. As pesquisas feitas no fim deste período já captam o padrão mais geral da disputa.
A última fase da campanha vai de meados de setembro ao dia das eleições. Nessas três últimas semanas, cresce significativamente o interesse dos eleitores pela disputa,. Esses passam a assistir com mais freqüência o horário eleitoral e aos eventuais debates entre os candidatos. Entre 20% e 30% dos eleitores costumam chegar a essa fase ainda indecisos (com maior concentração na população mais pobre e menos escolarizada). Por isso, ainda existe margem para as "surpresas" de última hora. Essa é sempre a esperança -- e na maior parte das vezes, a ilusão -- dos candidatos.
Creio que este esquema resuma, em linhas gerais, o padrão geral das campanhas para o Executivo no Brasil. Mas estou consciente da existência de diferenças de ritmos da política em cada uma das cidades. Uma fator fundamental que distingue as cidades é a existência de canais locais de televisão para veicularem o horário eleitoral. Outro é o tamanho da população. Em cidades pequenas os candidatos não tem a mesma dificuldade de se fazerem conhecer, e o papel da relações pessoais é bem maior.
Estamos nos aproximando do fim da segunda fase da campanha. Os resultados das pesquisas para algumas capitais aponta favoritos inequívocos, com alta probabilidade de vencerem já no primeiro turno. Por exemplo: Beto Richa (PSDB), em Curitiba; João da Costa (PT), no Recife; Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte. A disputa está aberta e deve ser emocionante em Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Fortaleza. Em todas essas últimas o alto contingente de indecisos aumenta as chances de surpresas de última hora."
Tendências das Campanhas Eleitorais
Estamos em plena campanha eleitoral, porém, definitivamente, as eleições para prefeitos e vereadores de todo o país passa por uma interessante mudança. As novas regras do jogo eleitoral, que incluem mais restrições ao uso do poder econômico para angariar votos, transformou a lógica com que os candidatos devem buscar seus votos.
A possibilidade de realizar mega eventos com a participação de "mega" artistas e a possibilidade de realizar trabalhos de construção de imagem via o uso intensivo, e em escala, de recursos de comunicação tradicionais facilitava o acesso do candidato ao universo do eleitor.
A despeito do tempo da TV continuar a ser o elemento fundamental das campanhas eleitorais, novas frentes de trabalho surgiram. Destaco o uso mais intenso da internet e o que vou chamar de "corpo-a-corpo terceirizado".
A internet representa o futuro das eleições que, combinada com a estratégia do horário eleitoral gratuito, deverá servir como fonte primordial de informações sobre os candidatos, já na próxima década (ou seja, no pleito de 2016), desde que a taxa de crescimento de acesso à rede mantenha-se no ritmo atual.
Outra estratégia que já se mostra como realidade é a idéia do "corpo-a-corpo terceirizado". A gigantesca escala na quantidade absoluta de eleitores, combinada com a restrição para produzir certos materiais de campanha, fará com que a mensagem do candidato, acompanhada dos pedidos de voto, tenha que chegar diretamente ao eleitor, por meio de um interlocutor qualificado e muito bem treinado. Antigamente, o conceito de corpo-a-corpo era definido como aquele contato direto do candidato com os eleitores, os quais incluem o discurso na porta da fábrica as 6 da manhã, o cafézinho magro do meio da tarde, os tapinhas nas costas, apertos de mão, abraços, risadas e demais "xamegos" feitos para os eleitores. Como prevalece a idéia de que não existe ninguém melhor para pedir votos do que o próprio candidato, o objetivo do "corpo-a-corpo terceirizado" seria reproduzir a capacidade de comunicação do candidato em grupos de cabos eleitorais altamente qualificados.
Em muitas campanhas, os "multirões qualificados" utilizarão pessoas com maior grau de escolaridade, melhor capacidade de articulação e amplo conhecimento da realidade política e social das regiões que visitam. Essas pessoas deverão conversar diretamente com o eleitor e, ao fazer isso, comportar-se com o mesmo comprometimento do candidato que representam, ou seja, se o candidato não consegue apertar a mão de cada cidadão pessoalmente, ele deverá tentar reproduzir seu aperto de mão e seu "dedo de proza" em escala. A figura do entregador de panfletos e dos porta estandartes, vulgarmente conhecidos como "seguradores de bandeira" deve ser cada vez menos importante durante as eleições e parte dos recursos economizados em gráficas, brindes, shows e camisetas deverá ser dirigida para a contratação e treinamento das pessoas com o perfil que citei acima.
Se a eleição é convencimento, nada melhor do que articular TV-Internet-conteúdo em ações de marketing que possam transmitir mensagens melhor elaboradas e mais verdadeiras.
Outra tendência interessante, a qual veremos, também, na próxima década é o conceito da "campanha sustentável" ou "eleições limpas". Neste caso não estamos citando a limpeza como honestidade, honradez e ética, mas sim como asseada e ecológicamente correta. Uso de materiais alternativos e papel reciclado, além da restrição a pintura de muros (a tinta possui elementos tóxicos) são algumas das armas que estarão disponíveis nas próximas eleições.
Entre a limpeza ética e a limpeza das ruas eu fico com a primeira, mas se ainda não podemos exigir tanto de boa parte da classe política, ao menos desejamos ver campanhas mais asseadas e comprometidas com a sustentabilidade e com o conteúdo das idéias.
A possibilidade de realizar mega eventos com a participação de "mega" artistas e a possibilidade de realizar trabalhos de construção de imagem via o uso intensivo, e em escala, de recursos de comunicação tradicionais facilitava o acesso do candidato ao universo do eleitor.
A despeito do tempo da TV continuar a ser o elemento fundamental das campanhas eleitorais, novas frentes de trabalho surgiram. Destaco o uso mais intenso da internet e o que vou chamar de "corpo-a-corpo terceirizado".
A internet representa o futuro das eleições que, combinada com a estratégia do horário eleitoral gratuito, deverá servir como fonte primordial de informações sobre os candidatos, já na próxima década (ou seja, no pleito de 2016), desde que a taxa de crescimento de acesso à rede mantenha-se no ritmo atual.
Outra estratégia que já se mostra como realidade é a idéia do "corpo-a-corpo terceirizado". A gigantesca escala na quantidade absoluta de eleitores, combinada com a restrição para produzir certos materiais de campanha, fará com que a mensagem do candidato, acompanhada dos pedidos de voto, tenha que chegar diretamente ao eleitor, por meio de um interlocutor qualificado e muito bem treinado. Antigamente, o conceito de corpo-a-corpo era definido como aquele contato direto do candidato com os eleitores, os quais incluem o discurso na porta da fábrica as 6 da manhã, o cafézinho magro do meio da tarde, os tapinhas nas costas, apertos de mão, abraços, risadas e demais "xamegos" feitos para os eleitores. Como prevalece a idéia de que não existe ninguém melhor para pedir votos do que o próprio candidato, o objetivo do "corpo-a-corpo terceirizado" seria reproduzir a capacidade de comunicação do candidato em grupos de cabos eleitorais altamente qualificados.
Em muitas campanhas, os "multirões qualificados" utilizarão pessoas com maior grau de escolaridade, melhor capacidade de articulação e amplo conhecimento da realidade política e social das regiões que visitam. Essas pessoas deverão conversar diretamente com o eleitor e, ao fazer isso, comportar-se com o mesmo comprometimento do candidato que representam, ou seja, se o candidato não consegue apertar a mão de cada cidadão pessoalmente, ele deverá tentar reproduzir seu aperto de mão e seu "dedo de proza" em escala. A figura do entregador de panfletos e dos porta estandartes, vulgarmente conhecidos como "seguradores de bandeira" deve ser cada vez menos importante durante as eleições e parte dos recursos economizados em gráficas, brindes, shows e camisetas deverá ser dirigida para a contratação e treinamento das pessoas com o perfil que citei acima.
Se a eleição é convencimento, nada melhor do que articular TV-Internet-conteúdo em ações de marketing que possam transmitir mensagens melhor elaboradas e mais verdadeiras.
Outra tendência interessante, a qual veremos, também, na próxima década é o conceito da "campanha sustentável" ou "eleições limpas". Neste caso não estamos citando a limpeza como honestidade, honradez e ética, mas sim como asseada e ecológicamente correta. Uso de materiais alternativos e papel reciclado, além da restrição a pintura de muros (a tinta possui elementos tóxicos) são algumas das armas que estarão disponíveis nas próximas eleições.
Entre a limpeza ética e a limpeza das ruas eu fico com a primeira, mas se ainda não podemos exigir tanto de boa parte da classe política, ao menos desejamos ver campanhas mais asseadas e comprometidas com a sustentabilidade e com o conteúdo das idéias.
segunda-feira, setembro 08, 2008
Crônica de um Ônibus que Voa (Parte 1)
Nada melhor do que retomar os trabalhos de nosso blog, este preguiçoso, com um texto leve, porém verdadeiro. Trata-se de uma história real, vivida por alguém que, não se sabe ao certo a razão, sempre atrai para si as situações mais inusitadas.
Quando cheguei ao saguão de embarque do Aeroporto Internacional de Bogotá, percebi que meu vôo seria povoado pela raça de gente mais peculiar do planeta: a nossa! Pés sobre as cadeiras, pessoas deitadas ocupando 3 ou 4 poltronas, gargalhadas estridentes, gritos, palavrões, migalhas de salgadinhos pelo chão e crianças histéricas correndo. Todos os jovens sentados e todos os idosos em pé. Seguramente se tratava de um saguão tomado por brasileiros.
Respirei fundo e disfarcei minha nacionalidade o quanto pude. É que me dá vergonha, entendem?! Pois bem, com o cheiro de chulé pelo ar (brasileiro não consegue ficar mais de 30 minutos em um ambiente como aquele sem tirar o sapato), abri meu livro e tentei me concentrar. Impossível, claro.
Minutos depois a mocinha do sistema de som convidou os passageiros em cadeiras de rodas, idosos e de primeira classe a entrar na fila em primeiro lugar. Todos eles ficaram por último. Ao primeiro som da voz em que dizia algo como: Atenção passageiros do vôo de número 0650, uma turba se lançou sobre a porta de entrada se acotovelando e terminando de pisar nos doces e salgados que haviam jogado no chão minutos antes.
Uma família composta por pai, mãe e 3 filhos chegou primeiro, apesar do mais novinho ter ficado para trás, sua babá, toda de branco, tentou amparar a criança desconsolada. Um casal de meia idade, com a mochila da CVC, era empurrado pela massa, enquanto outra família com pinta de aristocrática se queixava da bagunça; naquele instante percebi outra família, ainda maior tentando organizar seus bilhetes. Paaaaiiiii, seu bilhete está comigoooo! Cadê a Vovó? Gente a vovó sumiu! Caio, devolve meu iPod! Mãe, não acho minha mochila!
Percebi imediatamente que aquelas não eram pessoas, eram personagens.
Finalmente entrei na aeronave e descobri com um certo prazer que meu assento era o primeiro da segunda metade do avião, de maneira em que não tinha nenhum outro assento à minha frente e isso me permitiria esticar minhas longas pernas. Minha satisfação se desfez assim que percebi que os banheiros também estavam na minha frente. Tive o ímpeto de perguntar qual o nome do infeliz que colocou aqueles banheiros justo ali, mas logo percebi que seria inútil.
Tudo bem, vamos voar. Voar? Não, impossível. O avião não sai do solo enquanto todos os passageiros não se acomodarem e essa tarefa é praticamente impossível quando mais de 80% dos habitantes do "obitáculo aeronáutico" têm, em suas bagagens, um passaporte com a palavra “Brasil” impressa na capa. Reparei que a babá de branco estava na primeira fileira, do lado esquerdo, à minha frente. Ela sentou-se, apertou o cinto e respirou fundo, levantando os ombros e fazendo o sinal da cruz. Depois virou-se para a patroa e perguntou se estava na hora da mamadeira. Não, não estava.
O casal da mochila da CVC sentou-se ao meu lado e logo que apertaram o cinto ele lembrou que havia esquecido seus óculos.
Levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, retirou a caixa de óculos, abriu o recipiente, extraiu suas lentes de seu interior, fechou a caixinha, guardou na mochila da CVC, fechou o zíper, colocou-a de volta no compartimento de bagagem, fechou o compartimento, pediu licença e sentou.
A família da vovó perdida resolveu que queriam, todos... vou repetir... TODOS, mudar de lugar. Assim, a mãe trocou com o filho, o pai com a filha mais nova, a filha mais nova queria ficar ao lado da prima, que trocou com o irmão, que cedeu lugar à mãe e foi se sentar junto da irmã mais velha, que já havia trocado de lugar com os tios que queriam sentar no corredor, sendo que as janelas foram ocupadas pelos adolescentes do grupo e, depois de toda a troca, a vovó ficou em pé. Sim, a vovó não sabia mais qual era seu assento e perdera seu bilhete. Uma reunião de emergência foi convocada pelo pai da família e assim todos se levantaram novamente para, em frente ao banheiro, descobrir onde fora parar o bilhete da avó.
Enquanto eu tentava escutar a discussão, o senhor da mochila da CVC se lembrou que havia esquecido de pegar seu livro. Então levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, retirou o livro, fechou o zíper, colocou-a de volta no compartimento de bagagem, fechou o compartimento, pediu licença e sentou.
A babá sorria amarelo para a patroa e perguntava: tá na hora da mamadeira? Não. Não estava. Então o comandante da espaçonave começou a repetir pelo auto-falante que não poderia decolar se os passageiros não se sentassem. As comissárias de bordo corriam de um lado para o outro pedindo para todos se acomodarem. A família da vovó decidiu fazer um sorteio dos lugares e esperar todos se sentarem para saber qual era a poltrona que estava faltando.
Minutos depois todos se sentaram. O avião então começou a se mover e então o senhor da mochila da CVC... bem, vocês sabem. Ele resolveu trocar os óculos que pegara anteriormente por outro de lente para leitura. Então levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, realizou toda a operação, pediu licença e sentou. Neste momento a comissária, pela enésima vez, pediu para ele e as demais pessoas sentarem.
Então o Boeing da Avianca alcança a cabeceira da pista e inicia a aceleração para seu deslocamento do solo. Quando o avião está em plena aceleração, irrompe pela porta do banheiro o filho do casal aristocrático, segurando as calças e correndo em direção ao seu assento, enquanto a comissária pedia, já com a paciência no limite, para que o moleque sentasse. O avião decola, as luzes estão praticamente todas apagadas. Eu ouço o ruído do trem de pouso sendo recolhido e, em pleno alçar vôo, com a aeronave ainda em forte vertical, aparece a babá com duas mamadeiras nas mãos, fazendo um sorriso para a comissária sentada em uma daquelas cadeiras retrateis da tripulação perguntando se ela poderia esquentar a água.
Definitivamente foi uma das cenas mais inacreditáveis que vi em minha vida. A babá, toda de branco, sorrindo para a comissária, com uma mamadeira em cada mão sendo alegremente sacudidas para que pudessem chamar a atenção e auxiliar na comunicação com a estrangeira que, atônita, arregalou os olhos de uma forma que eu nunca havia visto em minha vida. E a babá dizia: água quente?! Água quente?!
(continua...)
Quando cheguei ao saguão de embarque do Aeroporto Internacional de Bogotá, percebi que meu vôo seria povoado pela raça de gente mais peculiar do planeta: a nossa! Pés sobre as cadeiras, pessoas deitadas ocupando 3 ou 4 poltronas, gargalhadas estridentes, gritos, palavrões, migalhas de salgadinhos pelo chão e crianças histéricas correndo. Todos os jovens sentados e todos os idosos em pé. Seguramente se tratava de um saguão tomado por brasileiros.
Respirei fundo e disfarcei minha nacionalidade o quanto pude. É que me dá vergonha, entendem?! Pois bem, com o cheiro de chulé pelo ar (brasileiro não consegue ficar mais de 30 minutos em um ambiente como aquele sem tirar o sapato), abri meu livro e tentei me concentrar. Impossível, claro.
Minutos depois a mocinha do sistema de som convidou os passageiros em cadeiras de rodas, idosos e de primeira classe a entrar na fila em primeiro lugar. Todos eles ficaram por último. Ao primeiro som da voz em que dizia algo como: Atenção passageiros do vôo de número 0650, uma turba se lançou sobre a porta de entrada se acotovelando e terminando de pisar nos doces e salgados que haviam jogado no chão minutos antes.
Uma família composta por pai, mãe e 3 filhos chegou primeiro, apesar do mais novinho ter ficado para trás, sua babá, toda de branco, tentou amparar a criança desconsolada. Um casal de meia idade, com a mochila da CVC, era empurrado pela massa, enquanto outra família com pinta de aristocrática se queixava da bagunça; naquele instante percebi outra família, ainda maior tentando organizar seus bilhetes. Paaaaiiiii, seu bilhete está comigoooo! Cadê a Vovó? Gente a vovó sumiu! Caio, devolve meu iPod! Mãe, não acho minha mochila!
Percebi imediatamente que aquelas não eram pessoas, eram personagens.
Finalmente entrei na aeronave e descobri com um certo prazer que meu assento era o primeiro da segunda metade do avião, de maneira em que não tinha nenhum outro assento à minha frente e isso me permitiria esticar minhas longas pernas. Minha satisfação se desfez assim que percebi que os banheiros também estavam na minha frente. Tive o ímpeto de perguntar qual o nome do infeliz que colocou aqueles banheiros justo ali, mas logo percebi que seria inútil.
Tudo bem, vamos voar. Voar? Não, impossível. O avião não sai do solo enquanto todos os passageiros não se acomodarem e essa tarefa é praticamente impossível quando mais de 80% dos habitantes do "obitáculo aeronáutico" têm, em suas bagagens, um passaporte com a palavra “Brasil” impressa na capa. Reparei que a babá de branco estava na primeira fileira, do lado esquerdo, à minha frente. Ela sentou-se, apertou o cinto e respirou fundo, levantando os ombros e fazendo o sinal da cruz. Depois virou-se para a patroa e perguntou se estava na hora da mamadeira. Não, não estava.
O casal da mochila da CVC sentou-se ao meu lado e logo que apertaram o cinto ele lembrou que havia esquecido seus óculos.
Levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, retirou a caixa de óculos, abriu o recipiente, extraiu suas lentes de seu interior, fechou a caixinha, guardou na mochila da CVC, fechou o zíper, colocou-a de volta no compartimento de bagagem, fechou o compartimento, pediu licença e sentou.
A família da vovó perdida resolveu que queriam, todos... vou repetir... TODOS, mudar de lugar. Assim, a mãe trocou com o filho, o pai com a filha mais nova, a filha mais nova queria ficar ao lado da prima, que trocou com o irmão, que cedeu lugar à mãe e foi se sentar junto da irmã mais velha, que já havia trocado de lugar com os tios que queriam sentar no corredor, sendo que as janelas foram ocupadas pelos adolescentes do grupo e, depois de toda a troca, a vovó ficou em pé. Sim, a vovó não sabia mais qual era seu assento e perdera seu bilhete. Uma reunião de emergência foi convocada pelo pai da família e assim todos se levantaram novamente para, em frente ao banheiro, descobrir onde fora parar o bilhete da avó.
Enquanto eu tentava escutar a discussão, o senhor da mochila da CVC se lembrou que havia esquecido de pegar seu livro. Então levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, retirou o livro, fechou o zíper, colocou-a de volta no compartimento de bagagem, fechou o compartimento, pediu licença e sentou.
A babá sorria amarelo para a patroa e perguntava: tá na hora da mamadeira? Não. Não estava. Então o comandante da espaçonave começou a repetir pelo auto-falante que não poderia decolar se os passageiros não se sentassem. As comissárias de bordo corriam de um lado para o outro pedindo para todos se acomodarem. A família da vovó decidiu fazer um sorteio dos lugares e esperar todos se sentarem para saber qual era a poltrona que estava faltando.
Minutos depois todos se sentaram. O avião então começou a se mover e então o senhor da mochila da CVC... bem, vocês sabem. Ele resolveu trocar os óculos que pegara anteriormente por outro de lente para leitura. Então levantou-se, abriu o compartimento de bagagem de mão, retirou a mochila da CVC, abriu o zíper, realizou toda a operação, pediu licença e sentou. Neste momento a comissária, pela enésima vez, pediu para ele e as demais pessoas sentarem.
Então o Boeing da Avianca alcança a cabeceira da pista e inicia a aceleração para seu deslocamento do solo. Quando o avião está em plena aceleração, irrompe pela porta do banheiro o filho do casal aristocrático, segurando as calças e correndo em direção ao seu assento, enquanto a comissária pedia, já com a paciência no limite, para que o moleque sentasse. O avião decola, as luzes estão praticamente todas apagadas. Eu ouço o ruído do trem de pouso sendo recolhido e, em pleno alçar vôo, com a aeronave ainda em forte vertical, aparece a babá com duas mamadeiras nas mãos, fazendo um sorriso para a comissária sentada em uma daquelas cadeiras retrateis da tripulação perguntando se ela poderia esquentar a água.
Definitivamente foi uma das cenas mais inacreditáveis que vi em minha vida. A babá, toda de branco, sorrindo para a comissária, com uma mamadeira em cada mão sendo alegremente sacudidas para que pudessem chamar a atenção e auxiliar na comunicação com a estrangeira que, atônita, arregalou os olhos de uma forma que eu nunca havia visto em minha vida. E a babá dizia: água quente?! Água quente?!
(continua...)
Crônica de um ônibus que Vôa (Parte 2 - Final)
A aeronave levantava vôo, a babá de branco dobrava o joelho direito para compensar a inevitável força da gravidade que empurrava seu corpo para o fundo da aeronave e, naquele momento, rasgando todos os manuais de atendimento ao cliente, a comissária, quase aos gritos, mandou a babá retornar ao seu assento. Incrivelmente, quando estava prestes a se sentar novamente, a babá deu meia volta, foi em direção à comissária e perguntou sorrindo: mas depois você esquenta a água, né?!
Deu para ver as veias dos olhos da comissária encharcadas de sangue pulando em direção à babá!
Então o senhor da mochila da CVC pensou alto: hiiii... esqueci meus comprimidos. Simultaneamente, eu, sua esposa e a comissária gritamos: Depois você pega!!!!
Um pouco sem graça com meu destempero, enfiei minha cara no livro que estava lendo: “Uma Breve História do Mundo”. Seu autor descreve, entre outras coisas, os avanços da humanidade em milhares de anos de história. Descrente, adoraria vê-lo sentado em meu lugar observando aquela bagunça. Duvido que falaria em desenvolvimento humano!
O avião atinge sua velocidade de cruzeiro, as luzes se acendem, a babá volta a pedir água quente, o senhor da CVC levanta-se para buscar seus comprimidos e as pessoas todas já circulam, só de meias (claro!) pela aeronave. A vida voltou ao normal.
Tento dormir. Há um ruído estranho à minha frente. Ele se repete com freqüência, mas meu sono não me deixa localizá-lo. Meus olhos lutam, cheios de areia, meu sono é insaciável e meu auto-controle diminui. Não posso dormir, nem ficar desperto. Os ruídos são intermitentes. Então aproveito a presença da comissária e peço um café. Prontamente atendido, consigo finalmente localizar a origem do barulho que não me deixava dormir: a porta do banheiro! Sim, a porta do banheiro fora freneticamente testada durante os primeiros minutos de vôo. Reparei que todos queriam entrar no cubículo.
Abro uma nova fonte de observação. Como o movimento era intenso naquela área, fecho os olhos e começo a contar quantas vezes a porta foi aberta, fechada e travada. Calculei que em um espaço de 30 minutos o dispositivo do trancamento da porta foi acionado 23 vezes. Multiplico esta quantidade por dois (são dois banheiros), depois pelas horas de vôo, divido pelo número de passageiros e chego a conclusão que, mantido o ritmo inicial, cada pessoa teria que ir 2,9 vezes ao banheiro até o final da viagem. Descontando as crianças a bordo que usavam fraldas e a vovó perdida que provavelmente também vestia o mesmo aparato, porém na versão geriátrica, cheguei à estarrecedora conclusão de que cada passageiro iria ao menos 3 vezes ao banheiro ao longo do percurso. Então me perguntei: que diabos colocaram na porcaria da refeição a bordo???
Mas o problema não é a comida, mas sim esse “faniquito” descontrolado que brasileiro tem em se mexer. Qual é a dificuldade de se manter sentado? Qual o problema em permanecer tranquilo, lendo um livro, apreciando uma bebida e calçado? Mas não! Tem que correr no corredor, contar piadas em alto e bom som, fazer guerra de bolinha de meia e reclamar que o país está uma bagunça!
Em meio a toda essa balbúrdia o pai da família aristocrática encontra-se em frente ao banheiro com seu colega, o patriarca da família da vovó. Este reclama que tem que pagar propina ao governo para fazer suas obras. Ele é engenheiro, mas não teme em construir uma imagem ruim de sua empresa publicamente. Coincidentemente o outro também é engenheiro e assim ambos constroem um diálogo pouco concreto e em blocos, sendo que cada empreendimento intelectual de um, acaba sendo incorporado pelo outro, ainda que a metragem dos raciocínios seja mínima.
Nessa linha, o aristocrata solta a seguinte tese: o problema da queda da Bolsa de Valores de São Paulo é esse monte (sic) de taxistas que agora compram ações! Esperem! Silêncio Total! Vocês leram isso?! O problema da queda da bolsa é dos taxistas! Gênio! Grandioso! Sublime! Jamais teria pensado em uma construção intelectual tão precisa, tão bem amalgamada com um raciocínio concreto de primeira linha e fundição baseada na melhor matéria prima! Estava lá a resposta para minhas indagações! Consigo até ver a Fátima Bernardes, fazendo cara de preocupada enquanto lê no prompt: “O Banco Central anunciou medidas para conter a entrada dos taxistas na Bolsa de Valores. A partir da próxima semana a categoria poderá estacionar seus veículos no máximo a 300 metros da entrada da porta principal. Estão proibidos também de operar na Bolsa e comprar ou vender ações de quaisquer tipos. Com esta medida o governo acredita que a economia brasileira irá suportar a saída de investimentos e, ao mesmo tempo garantir a estabilidade dos mercados mundiais.” Aí vem o comentarista: “É verdade, após sofrer fortes quedas, a Bovespa pretende impedir a patuléia da classe média de investir em ações. Tudo começou com os taxistas, mas os analistas já se preocupam com a chegada de outras categorias, como as de lojistas, profissionais liberais e aposentados. A consultora financeira “Gold Money Wealth” fez uma interessante pesquisa em que dizia que pobre e classe média tem mesmo é que pagar impostos, comprar geladeira nas Casas Bahia, comer Maçã do Amor no Parque da Mônica e deixar os investimentos da Bolsa de Valores para os ricos”. É o fim do mundo.
Neste momento, o piloto anunciou que iniciara os preparativos para o pouso. A viagem chega ao fim com um efusivo aplauso dos passageiros. Tudo parece novamente tranqüilo e normal. A família aristocrática se arrumou no banheiro e saiu toda perfumada. O senhor da mochila da CVC perdeu os óculos dentro do avião.
Finalmente saio da aeronave, mas minha mala demora para chegar. Todos se vão. Menos eu. Olho em volta e por um vidro do saguão vejo um fio de luz da manhã irrompendo pela madrugada. Finalmente minha mala azul chegou. Retiro-a da esteira lentamente. Vou em direção à saída, mas algo me chama a atenção. Olho para trás e lá estão elas.
A vovó, provavelmente esquecida por sua família, toma leite em uma mamadeira amparada pela babá de branco. As duas estão descalças rodando em cima da esteira de bagagens de número 4.
Lá fora pego um táxi e puxo conversa com o motorista. Tento falar sobre futebol, mas ele só quer conversar sobre a Bolsa de Valores.
Deu para ver as veias dos olhos da comissária encharcadas de sangue pulando em direção à babá!
Então o senhor da mochila da CVC pensou alto: hiiii... esqueci meus comprimidos. Simultaneamente, eu, sua esposa e a comissária gritamos: Depois você pega!!!!
Um pouco sem graça com meu destempero, enfiei minha cara no livro que estava lendo: “Uma Breve História do Mundo”. Seu autor descreve, entre outras coisas, os avanços da humanidade em milhares de anos de história. Descrente, adoraria vê-lo sentado em meu lugar observando aquela bagunça. Duvido que falaria em desenvolvimento humano!
O avião atinge sua velocidade de cruzeiro, as luzes se acendem, a babá volta a pedir água quente, o senhor da CVC levanta-se para buscar seus comprimidos e as pessoas todas já circulam, só de meias (claro!) pela aeronave. A vida voltou ao normal.
Tento dormir. Há um ruído estranho à minha frente. Ele se repete com freqüência, mas meu sono não me deixa localizá-lo. Meus olhos lutam, cheios de areia, meu sono é insaciável e meu auto-controle diminui. Não posso dormir, nem ficar desperto. Os ruídos são intermitentes. Então aproveito a presença da comissária e peço um café. Prontamente atendido, consigo finalmente localizar a origem do barulho que não me deixava dormir: a porta do banheiro! Sim, a porta do banheiro fora freneticamente testada durante os primeiros minutos de vôo. Reparei que todos queriam entrar no cubículo.
Abro uma nova fonte de observação. Como o movimento era intenso naquela área, fecho os olhos e começo a contar quantas vezes a porta foi aberta, fechada e travada. Calculei que em um espaço de 30 minutos o dispositivo do trancamento da porta foi acionado 23 vezes. Multiplico esta quantidade por dois (são dois banheiros), depois pelas horas de vôo, divido pelo número de passageiros e chego a conclusão que, mantido o ritmo inicial, cada pessoa teria que ir 2,9 vezes ao banheiro até o final da viagem. Descontando as crianças a bordo que usavam fraldas e a vovó perdida que provavelmente também vestia o mesmo aparato, porém na versão geriátrica, cheguei à estarrecedora conclusão de que cada passageiro iria ao menos 3 vezes ao banheiro ao longo do percurso. Então me perguntei: que diabos colocaram na porcaria da refeição a bordo???
Mas o problema não é a comida, mas sim esse “faniquito” descontrolado que brasileiro tem em se mexer. Qual é a dificuldade de se manter sentado? Qual o problema em permanecer tranquilo, lendo um livro, apreciando uma bebida e calçado? Mas não! Tem que correr no corredor, contar piadas em alto e bom som, fazer guerra de bolinha de meia e reclamar que o país está uma bagunça!
Em meio a toda essa balbúrdia o pai da família aristocrática encontra-se em frente ao banheiro com seu colega, o patriarca da família da vovó. Este reclama que tem que pagar propina ao governo para fazer suas obras. Ele é engenheiro, mas não teme em construir uma imagem ruim de sua empresa publicamente. Coincidentemente o outro também é engenheiro e assim ambos constroem um diálogo pouco concreto e em blocos, sendo que cada empreendimento intelectual de um, acaba sendo incorporado pelo outro, ainda que a metragem dos raciocínios seja mínima.
Nessa linha, o aristocrata solta a seguinte tese: o problema da queda da Bolsa de Valores de São Paulo é esse monte (sic) de taxistas que agora compram ações! Esperem! Silêncio Total! Vocês leram isso?! O problema da queda da bolsa é dos taxistas! Gênio! Grandioso! Sublime! Jamais teria pensado em uma construção intelectual tão precisa, tão bem amalgamada com um raciocínio concreto de primeira linha e fundição baseada na melhor matéria prima! Estava lá a resposta para minhas indagações! Consigo até ver a Fátima Bernardes, fazendo cara de preocupada enquanto lê no prompt: “O Banco Central anunciou medidas para conter a entrada dos taxistas na Bolsa de Valores. A partir da próxima semana a categoria poderá estacionar seus veículos no máximo a 300 metros da entrada da porta principal. Estão proibidos também de operar na Bolsa e comprar ou vender ações de quaisquer tipos. Com esta medida o governo acredita que a economia brasileira irá suportar a saída de investimentos e, ao mesmo tempo garantir a estabilidade dos mercados mundiais.” Aí vem o comentarista: “É verdade, após sofrer fortes quedas, a Bovespa pretende impedir a patuléia da classe média de investir em ações. Tudo começou com os taxistas, mas os analistas já se preocupam com a chegada de outras categorias, como as de lojistas, profissionais liberais e aposentados. A consultora financeira “Gold Money Wealth” fez uma interessante pesquisa em que dizia que pobre e classe média tem mesmo é que pagar impostos, comprar geladeira nas Casas Bahia, comer Maçã do Amor no Parque da Mônica e deixar os investimentos da Bolsa de Valores para os ricos”. É o fim do mundo.
Neste momento, o piloto anunciou que iniciara os preparativos para o pouso. A viagem chega ao fim com um efusivo aplauso dos passageiros. Tudo parece novamente tranqüilo e normal. A família aristocrática se arrumou no banheiro e saiu toda perfumada. O senhor da mochila da CVC perdeu os óculos dentro do avião.
Finalmente saio da aeronave, mas minha mala demora para chegar. Todos se vão. Menos eu. Olho em volta e por um vidro do saguão vejo um fio de luz da manhã irrompendo pela madrugada. Finalmente minha mala azul chegou. Retiro-a da esteira lentamente. Vou em direção à saída, mas algo me chama a atenção. Olho para trás e lá estão elas.
A vovó, provavelmente esquecida por sua família, toma leite em uma mamadeira amparada pela babá de branco. As duas estão descalças rodando em cima da esteira de bagagens de número 4.
Lá fora pego um táxi e puxo conversa com o motorista. Tento falar sobre futebol, mas ele só quer conversar sobre a Bolsa de Valores.
sexta-feira, julho 04, 2008
Pausa...
Darei uma pequena pausa para este cansado blog.
Farei uma viagem.
Sozinho.
Para pensar na vida.
Me hospedarei em um hotel de militares equatorianos. Depois visitarei um campo de exploração de petróleo deste mesmo país, na selva amazônica, em uma área onde pode estar escondido um naco das FARC (e espero sinceramente que eles não me levem a mal por detestá-los!).
Ficarei uns dias em uma tribo indígena.
Depois vou para a Colômbia. Pousarei em Bogotá, mas acho que ficarei por lá, procurando a
Shakira em algum bar e cantando:
"Estoy aquí queriéndote,
Ahogándome entre fotos y cuadernos
Entre cosas y recuerdos
Que no puedo comprender
Estoy enloqueciéndome
Cambiándome un pie por la cara mía
Esta noche por el día
Que nada le puedo yo hacer."
É isso.
Se achar que possa ser interessante eu envio umas fotos e uns relatos.
Um forte abraço a todos!
Farei uma viagem.
Sozinho.
Para pensar na vida.
Me hospedarei em um hotel de militares equatorianos. Depois visitarei um campo de exploração de petróleo deste mesmo país, na selva amazônica, em uma área onde pode estar escondido um naco das FARC (e espero sinceramente que eles não me levem a mal por detestá-los!).
Ficarei uns dias em uma tribo indígena.
Depois vou para a Colômbia. Pousarei em Bogotá, mas acho que ficarei por lá, procurando a
Shakira em algum bar e cantando:
"Estoy aquí queriéndote,
Ahogándome entre fotos y cuadernos
Entre cosas y recuerdos
Que no puedo comprender
Estoy enloqueciéndome
Cambiándome un pie por la cara mía
Esta noche por el día
Que nada le puedo yo hacer."
É isso.
Se achar que possa ser interessante eu envio umas fotos e uns relatos.
Um forte abraço a todos!
quinta-feira, julho 03, 2008
Prestem Atenção: Tem muito babaca triste pela derrota das FARC
Não há a menor dúvida de que a espetacular operação militar liderada pelo governo Colombiano e apoiada sabe-se lá por quais outros governos (certamente entre eles o norte americano) deixou muita gente triste. Nesta lista aparecem figuras como Marco Aurélio Garcia (uma das desgraças nacionais), Fidel Castro, Rafael Correa, Hugo Chaves, intelectuais de esquerda e tantos outros babacas espalhados pelo mundo. Que tristeza ter que suportar a emoção de uma mãe sequestrada e enclausurada durante quase 7 anos abraçando seus filhos. Que lástima enfrentar a dura realidade de ter menos 15 prisioneiros nas mãos dos narcoguerrilheiros, apesar de ainda existirem mais de 600. Que deplorável pensar que o Terror das FARC se enfraqueceu ainda mais. Deve causar bastante dor imaginar que o sonho da "igualdade", "democracia" e "justiça social" buscado pelos combatentes armados, com financiamento da cocaína e dos petrodólares de Chaves, tenha levado um de seus piores golpes dos últimos tempos.
Eu lhes dou razão! É lamentável ter que defender suas idéias em eleições democráticas. É chato ter que discutir diferentes pontos de vista políticos em um plenário cheio de parlamentares eleitos pelo voto popular. É enfadonho seguir essas regras chatas que a burquesia criou para eleger os representantes dos cidadãos. Melhor mesmo é seqüestrar, ameaçar, explodir bombas, explorar as mazelas humanas e executar com um tiro na cabeça esses homens e mulheres que defendem esse absurdo de democracia e esse mercado cruel. Pois é... o mercado é cruel, mas as FARC não! As Farc são revolucionárias, destemidas, corajosas! Enfrentam com galhardia todo um sistema capitalista impiedoso e o mais importante é que não estão sozinhas nesta luta! Trata-se de uma corrente mundial formada pelos bacanas que fumam maconha enquanto discutem o problema da violência, pelos motoristas que colam o adesivo de Che em seus carros, que sequer existiriam se Che tivesse vencido. Pela turma das universidades públicas, cujas mulheres passam a semana vestidas de saionas coloridas e alternativas, discutindo os malefícios do sistema capitalista, mas que gostam de passear aos finais de semana no Shopping Iguatemi para relaxar e preparar o corpo e a mente para o retorno à luta na segunda-feira.
Neste mundo não existem santos e ingênuos. Não existe a luta do "bem" contra o "mal". Afinal, quem é do bem e quem é do mal? As FARC são o que são: uma organização criminosa que utiliza os sequestros e o tráfico para financiar seu projeto revolucionário em busca de uma "sociedade justa". Neste caso, como em tantos outros, é só uma questão de escolha. Pois entre a ação das FARC e as mentiras de Bush eu escolho não ficar com ninguém. Mas entre a "democracia capitalista" e a "democracia comunista" (será que isso existe?) eu prefiro a primeira opção, sem dúvida! Entre o debate dentro de regras estabelecidas com liberdade de imprensa e a chantagem criminosa que fizeram com Ingrid Betancourt eu escolho a primeira opção.
Eu lhes dou razão! É lamentável ter que defender suas idéias em eleições democráticas. É chato ter que discutir diferentes pontos de vista políticos em um plenário cheio de parlamentares eleitos pelo voto popular. É enfadonho seguir essas regras chatas que a burquesia criou para eleger os representantes dos cidadãos. Melhor mesmo é seqüestrar, ameaçar, explodir bombas, explorar as mazelas humanas e executar com um tiro na cabeça esses homens e mulheres que defendem esse absurdo de democracia e esse mercado cruel. Pois é... o mercado é cruel, mas as FARC não! As Farc são revolucionárias, destemidas, corajosas! Enfrentam com galhardia todo um sistema capitalista impiedoso e o mais importante é que não estão sozinhas nesta luta! Trata-se de uma corrente mundial formada pelos bacanas que fumam maconha enquanto discutem o problema da violência, pelos motoristas que colam o adesivo de Che em seus carros, que sequer existiriam se Che tivesse vencido. Pela turma das universidades públicas, cujas mulheres passam a semana vestidas de saionas coloridas e alternativas, discutindo os malefícios do sistema capitalista, mas que gostam de passear aos finais de semana no Shopping Iguatemi para relaxar e preparar o corpo e a mente para o retorno à luta na segunda-feira.
Neste mundo não existem santos e ingênuos. Não existe a luta do "bem" contra o "mal". Afinal, quem é do bem e quem é do mal? As FARC são o que são: uma organização criminosa que utiliza os sequestros e o tráfico para financiar seu projeto revolucionário em busca de uma "sociedade justa". Neste caso, como em tantos outros, é só uma questão de escolha. Pois entre a ação das FARC e as mentiras de Bush eu escolho não ficar com ninguém. Mas entre a "democracia capitalista" e a "democracia comunista" (será que isso existe?) eu prefiro a primeira opção, sem dúvida! Entre o debate dentro de regras estabelecidas com liberdade de imprensa e a chantagem criminosa que fizeram com Ingrid Betancourt eu escolho a primeira opção.
quarta-feira, junho 25, 2008
Ruth Cardoso lançou sementes do Bolsa Família, diz acadêmico
Fonte: BBC
25/06/2008 - 09h26
"Para o professor e cientista político Anthony Hall, da London School of Economics (LSE, Escola de Economia de Londres), a contribuição da ex-primeira dama e antropóloga Ruth Cardoso, falecida na terça-feira em São Paulo, ajudou a mudar os rumos da política social no Brasil.
"Ela foi uma peça fundamental na idéia de unir os vários programas sociais e de transferência de renda dos anos 90 em um único programa", disse Hall em entrevista à BBC Brasil.
O acadêmico explica que vários programas locais de combate à pobreza se espalharam pelo país na década de 90, especialmente no nível municipal, em cidades como Campinas, Belo Horizonte, Blumenau, Vitória e outras localidades.
Ele acredita que essas iniciativas teriam culminado com a criação do Bolsa Escola, em Brasília e, mais tarde, na adoção do Bolsa Família como um programa nacional do governo brasileiro.
Segundo ele, Ruth Cardoso teria sido quem impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país e teria sido ela quem persuadiu o então presidente Fernando Henrique a adotar esse sistema unificado em nível nacional.
"Muitas pessoas acreditam que ela foi de fato a primeira pessoa que pensou na idéia do Bolsa Família, apesar de o programa não ter esse nome na época. Mas essa idéia de unificar os programas, criar uma economia mais equilibrada e eficiente, foi exatamente o que Lula fez quando assumiu o governo em 2003", disse.
Para Hall, por essas razões é possível afirmar que Ruth Cardoso foi uma das pessoas mais influentes para a mudança de direção nas políticas sociais do Brasil a partir da década de 90.
Ruth Cardoso era doutora em antropologia pela USP, fez pós-doutorado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos e foi professora em faculdades americanas e inglesas.
Figura pública
O acadêmico afirmou ainda que a figura pública de Ruth Cardoso como primeira-dama durante o governo de Fernando Henrique é inseparável de sua imagem como acadêmica e intelectual.
"Ela foi uma primeira-dama eficiente justamente porque ela era uma acadêmica muito respeitada e podia falar com autoridade. E quando ela falava, as pessoas ouviam", afirmou o professor.
Já para o professor e ex-diretor do Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, David Lehmann, Ruth Cardoso não era uma mulher de político nos padrões convencionais.
"Como figura pública, ela era muito independente do marido", afirmou Lehmann à BBC Brasil.
De acordo com Anthony Hall, Ruth teria transformado o papel de primeira-dama no Brasil, já que, ao contrário de esposas de presidentes anteriores e, inclusive da mulher do presidente Lula, Marisa, ela teria sido uma figura pública importante e não teria ficado apenas nos bastidores.
"O apelo carismático de Ruth Cardoso entre a classe média e a camada mais pobre da população se deve justamente à sua preocupação pela questão social", disse Hall."
25/06/2008 - 09h26
"Para o professor e cientista político Anthony Hall, da London School of Economics (LSE, Escola de Economia de Londres), a contribuição da ex-primeira dama e antropóloga Ruth Cardoso, falecida na terça-feira em São Paulo, ajudou a mudar os rumos da política social no Brasil.
"Ela foi uma peça fundamental na idéia de unir os vários programas sociais e de transferência de renda dos anos 90 em um único programa", disse Hall em entrevista à BBC Brasil.
O acadêmico explica que vários programas locais de combate à pobreza se espalharam pelo país na década de 90, especialmente no nível municipal, em cidades como Campinas, Belo Horizonte, Blumenau, Vitória e outras localidades.
Ele acredita que essas iniciativas teriam culminado com a criação do Bolsa Escola, em Brasília e, mais tarde, na adoção do Bolsa Família como um programa nacional do governo brasileiro.
Segundo ele, Ruth Cardoso teria sido quem impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país e teria sido ela quem persuadiu o então presidente Fernando Henrique a adotar esse sistema unificado em nível nacional.
"Muitas pessoas acreditam que ela foi de fato a primeira pessoa que pensou na idéia do Bolsa Família, apesar de o programa não ter esse nome na época. Mas essa idéia de unificar os programas, criar uma economia mais equilibrada e eficiente, foi exatamente o que Lula fez quando assumiu o governo em 2003", disse.
Para Hall, por essas razões é possível afirmar que Ruth Cardoso foi uma das pessoas mais influentes para a mudança de direção nas políticas sociais do Brasil a partir da década de 90.
Ruth Cardoso era doutora em antropologia pela USP, fez pós-doutorado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos e foi professora em faculdades americanas e inglesas.
Figura pública
O acadêmico afirmou ainda que a figura pública de Ruth Cardoso como primeira-dama durante o governo de Fernando Henrique é inseparável de sua imagem como acadêmica e intelectual.
"Ela foi uma primeira-dama eficiente justamente porque ela era uma acadêmica muito respeitada e podia falar com autoridade. E quando ela falava, as pessoas ouviam", afirmou o professor.
Já para o professor e ex-diretor do Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, David Lehmann, Ruth Cardoso não era uma mulher de político nos padrões convencionais.
"Como figura pública, ela era muito independente do marido", afirmou Lehmann à BBC Brasil.
De acordo com Anthony Hall, Ruth teria transformado o papel de primeira-dama no Brasil, já que, ao contrário de esposas de presidentes anteriores e, inclusive da mulher do presidente Lula, Marisa, ela teria sido uma figura pública importante e não teria ficado apenas nos bastidores.
"O apelo carismático de Ruth Cardoso entre a classe média e a camada mais pobre da população se deve justamente à sua preocupação pela questão social", disse Hall."
Ruth: altivez decorosa
Fonte: Portal Veja.
Blog do Reinaldo Azevedo.
25/06/08, 06:07h
"Morre uma parte da civilidade, da inteligência, do rigor intelectual, da discrição, da altivez decorosa. Ruth Cardoso foi uma das melhores pessoas que conheci — escrevo isso como jornalista, não como amigo ou pessoa que privasse da intimidade do casal Cardoso, o que nunca aconteceu. Em junho de 1997, há exatos 11 anos, a revista República dedicou-lhe uma capa: era uma entrevista que eu havia feito com ela.
Foi um encontro agradável, ameno, sereno. Seu marido, o então presidente Fernando Henrique, ela própria e o Comunidade Solidária, programa que presidia e ao qual continuou a dedicar boa parte de seu tempo mesmo depois que FHC deixou o poder (aí com o nome de Comunitas), eram alvos dos ataques da esquerda petista os mais boçais. Tentei arrancar dela uma palavra mais dura contra os detratores. Nada! Imperturbável, serena, expressava a convicção de que o presidente estava criando as bases para tirar o país do atoleiro do Terceiro Mundo e do terceiro-mundismo e defendia com energia o aspecto não-assistencialista do Comunidade Solidária. E estava certa nos dois casos. Ruth sabia ser dura sem ser estridente.
Nada a irritava mais — e ela se encarregou de proibir tal tratamento — do que ser chamada de “primeira-dama”. Por que não? Ela me explicou: “Porque é uma tradução muito literal, imediata, do termo em inglês, que tem história. Não passaria pela cabeça de ninguém, nos EUA, dizer que não gosta da expressão first lady. Aqui no Brasil, dama não é um termo que se use...” E foi adiante, explicando que a expressão, em nosso país, designava um outro tipo de mulher. Segundo Ruth, a mulher de presidentes e chefes de governo, na modernidade, “são profissionais, pessoas que têm independência intelectual e pessoal”.
Pois é...
Ela tinha, sim, tal independência intelectual e pessoal, como sabem todos aqueles que privaram da intimidade do casal Cardoso: diante do presidente, do marido, do PSDB... Não era do tipo que condescendesse com o interlocutor para ser agradável. De uma educação sempre exemplar, sabia discordar e dizer “não”, quando necessário, sem ambigüidades.
Não faz três meses, os tontons-maCUTs que tomaram a política de assalto tentaram enredá-la numa acusação de uso irregular do dinheiro público. Quando ficou claro que o governo havia feito um dossiê para tentar jogar na lama o seu nome e o do marido, tanto ela como FHC pediram que se desse plena publicidade aos gastos. Dilma Rousseff, de quem se fala bastante abaixo, ligou para a sua casa para negar, vejam só, a existência do dossiê. E, no entanto, ele existia.
Era, em suma, a voz do avesso do que Ruth sempre foi: transparente, austera, de caráter reto, hostil a chicanas, sem jamais precisar desdizer no dia seguinte o que dissera no anterior. Ao telefone, Dilma tentou tranqüilizá-la à sua maneira: que Ruth ficasse tranqüila: os gastos continuariam sob sigilo. A interlocutora da ministra era gente de outra cepa. E ficou foi bastante intranqüila com tão generosa promessa: afirmou à ministra que ela, Ruth, fazia questão de que tudo fosse divulgado. Porque nada havia a esconder. A mulher de FHC, em suma, não tinha segredos a serem guardados por Dilma Rousseff.
Ruth tinha dois stents no coração. Era uma paciente cardíaca, o que pouca gente sabia porque ela jamais permitiu qualquer zona de ambigüidade entre a vida privada e a sua atuação pública. Ainda que fosse desprovida de todas as outras óbvias qualidades, tinha uma que faz uma falta imensa ao país: decoro. É isto: Ruth morreu, e o país ficou menos decoroso."
Blog do Reinaldo Azevedo.
25/06/08, 06:07h
"Morre uma parte da civilidade, da inteligência, do rigor intelectual, da discrição, da altivez decorosa. Ruth Cardoso foi uma das melhores pessoas que conheci — escrevo isso como jornalista, não como amigo ou pessoa que privasse da intimidade do casal Cardoso, o que nunca aconteceu. Em junho de 1997, há exatos 11 anos, a revista República dedicou-lhe uma capa: era uma entrevista que eu havia feito com ela.
Foi um encontro agradável, ameno, sereno. Seu marido, o então presidente Fernando Henrique, ela própria e o Comunidade Solidária, programa que presidia e ao qual continuou a dedicar boa parte de seu tempo mesmo depois que FHC deixou o poder (aí com o nome de Comunitas), eram alvos dos ataques da esquerda petista os mais boçais. Tentei arrancar dela uma palavra mais dura contra os detratores. Nada! Imperturbável, serena, expressava a convicção de que o presidente estava criando as bases para tirar o país do atoleiro do Terceiro Mundo e do terceiro-mundismo e defendia com energia o aspecto não-assistencialista do Comunidade Solidária. E estava certa nos dois casos. Ruth sabia ser dura sem ser estridente.
Nada a irritava mais — e ela se encarregou de proibir tal tratamento — do que ser chamada de “primeira-dama”. Por que não? Ela me explicou: “Porque é uma tradução muito literal, imediata, do termo em inglês, que tem história. Não passaria pela cabeça de ninguém, nos EUA, dizer que não gosta da expressão first lady. Aqui no Brasil, dama não é um termo que se use...” E foi adiante, explicando que a expressão, em nosso país, designava um outro tipo de mulher. Segundo Ruth, a mulher de presidentes e chefes de governo, na modernidade, “são profissionais, pessoas que têm independência intelectual e pessoal”.
Pois é...
Ela tinha, sim, tal independência intelectual e pessoal, como sabem todos aqueles que privaram da intimidade do casal Cardoso: diante do presidente, do marido, do PSDB... Não era do tipo que condescendesse com o interlocutor para ser agradável. De uma educação sempre exemplar, sabia discordar e dizer “não”, quando necessário, sem ambigüidades.
Não faz três meses, os tontons-maCUTs que tomaram a política de assalto tentaram enredá-la numa acusação de uso irregular do dinheiro público. Quando ficou claro que o governo havia feito um dossiê para tentar jogar na lama o seu nome e o do marido, tanto ela como FHC pediram que se desse plena publicidade aos gastos. Dilma Rousseff, de quem se fala bastante abaixo, ligou para a sua casa para negar, vejam só, a existência do dossiê. E, no entanto, ele existia.
Era, em suma, a voz do avesso do que Ruth sempre foi: transparente, austera, de caráter reto, hostil a chicanas, sem jamais precisar desdizer no dia seguinte o que dissera no anterior. Ao telefone, Dilma tentou tranqüilizá-la à sua maneira: que Ruth ficasse tranqüila: os gastos continuariam sob sigilo. A interlocutora da ministra era gente de outra cepa. E ficou foi bastante intranqüila com tão generosa promessa: afirmou à ministra que ela, Ruth, fazia questão de que tudo fosse divulgado. Porque nada havia a esconder. A mulher de FHC, em suma, não tinha segredos a serem guardados por Dilma Rousseff.
Ruth tinha dois stents no coração. Era uma paciente cardíaca, o que pouca gente sabia porque ela jamais permitiu qualquer zona de ambigüidade entre a vida privada e a sua atuação pública. Ainda que fosse desprovida de todas as outras óbvias qualidades, tinha uma que faz uma falta imensa ao país: decoro. É isto: Ruth morreu, e o país ficou menos decoroso."
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